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MSF ajuda a estabelecer uma rede de assistência psicológica na Líbia

15/07/2011
Parte das atividades da organização foi criar uma rede de 30 psicólogos nacionais em Misrata, cidade que há mais de quatro meses é palco de intensos conflitos

No país que não vivia um conflito havia mais de quatro décadas, que conta com poucos psiquiatras e onde as atividades de saúde mental são freqüentemente negligenciadas ou pouco apreciadas, MSF priorizou a construção e manutenção de uma rede de psicólogos locais que atende tanto pacientes em tratamento nas principais instalações médicas da cidade, como membros da comunidade fora do sistema de saúde líbio.

"Antes da guerra, Misrata contava apenas com serviços psicológicos voltados para crianças, especializados no atendimento de condições como Síndrome de Down ou autismo. Nem mesmo a psiquiatria estava sendo oferecida de maneira efetiva", disse Elias Abi-Aad, psicólogo de MSF. "Eles não tinham nenhuma experiência em psicologia clínica, muito menos com distúrbios mentais relacionados a experiências traumáticas de guerra".

Além de oferecer treinamento para a condução de sessões básicas de terapia e consultas, psicólogos de MSF dividiram as ferramentas de tratamento psicológico, obtidas ao longo dos 40 anos de experiência da organização em intervenções em contextos de guerra.

"Antes de conhecer MSF, meu conhecimento de psicologia era muito básico", disse Fatima Alaylech, psicóloga local. "Eu aprendi muito com os treinamentos, especialmente como lidar com o trauma pós-guerra, até porque a Líbia nunca tinha passado por algo assim antes, e eu nunca tinha tratado pacientes com esses sintomas".

Membros da rede receberam orientações para reconhecer sintomas de distúrbios psicológicos relacionados às experiências traumáticas de guerra e para estabelecer critérios claros de encaminhamento.

MSF conduz sessões regulares de treinamento e reuniões para discutir questões práticas como a condução adequada de uma consulta, a realização do diagnóstico, tratamento e acompanhamento e a construção de uma relação médico-paciente. A rede também recebe informações especializadas em como tratar distúrbios relativos à situação atual de Misrata.

"Nós discutimos tudo, desde o histórico do paciente até o distúrbio que eles estão apresentando e suas reclamações – que são sintomas comuns em um ambiente de guerra –, estabelecemos planos de ação e traçamos de objetivos para o médico e para o paciente", disse Elias.

"Feridos"
Inicialmente, a comunidade local e as equipes médicas estavam pouco acostumadas com esse tipo de atividade de saúde mental. Profissionais de MSF explicaram a natureza das intervenções psicológicas e a necessidade de cuidar de questões mentais, para prevenir consequências mais graves no futuro.

Passo a passo, pacientes que estavam fora do sistema de saúde começaram a se aproximar da rede, em busca de auxílio. O mesmo aconteceu com as equipes médicas locais que estavam sofrendo de stress e ansiedade.

"Nós apresentamos a guerra como um fator externo, que causa problemas até então desconhecidos para a população, que nunca se viu em um contexto como esse", disse Elias. "Assim, foi mais fácil fazer as pessoas buscarem ajuda, pois elas se consideravam ‘feridas’, e não ‘malucas’, ou pessoas com algo de errado".

Com o crescimento da percepção da necessidade de assistência psicológica na comunidade, a rede gradualmente foi se firmando como parte do pacote de cuidados médicos oferecidos aos pacientes em Misrata.

Principais distúrbios
Além dos encaminhamentos das equipes médicas locais, homens, mulheres e crianças estão sendo tratados por membros da rede, com problemas como ansiedade, depressão, reações pós-traumáticas, reclamações psicossomáticas e distúrbios comportamentais causados por fatores como perda de membros da família e amigos, bombardeios constantes na cidade, deslocamentos, ferimentos físicos graves que causaram deficiências, e medo do futuro. 

"Nos últimos meses, as pessoas começaram a mostrar sintomas psicossomáticos, ainda que não estivessem fisicamente feridas pelos eventos da guerra", disse Fatima. "Esse tipo de sintoma normalmente aparece cinco ou seis meses após a experiência traumática, mas nós já estamos começando a ver mais distúrbios como depressão, ansiedade e diversas neuroses em crianças, que resultam em comportamentos violentos ou agressivos".

A rede de psicólogos está em contato com as alas pediátricas de Misrata, e dá informações aos pediatras locais para que eles identifiquem problemas de saúde mental.

"Certa vez, uma mãe me ouviu conversando com o pediatra sobre os critérios de encaminhamento de crianças e veio falar comigo depois que achava que seu filho se enquadrava em alguns desses critérios", contou Elias. "Seu filho estava sofrendo com dores de estômago fortes, e o médico não encontrava motivos físicos para isso. Nós tratamos a criança, e descobrimos que a dor era psicossomática. Ele está bem melhor agora, e a dor passou."

Sustentabilidade
Desde que se estabeleceu plenamente, no início de junho, a rede já tratou cerca de 200 pacientes. Os planos de MSF são continuar o programa de consolidação dos serviços de assistência psicológica no sistema de saúde de Misrata e expandir o tratamento oferecido à população local.

"Agora nós temos parceiros locais com objetivos claros e bem motivados, mas que não têm experiência e que precisam de treinamento, supervisão e, o mais importante, legitimidade a longo prazo dentro da comunidade", explicou Elias. "MSF oferece tudo isso, e garante o acesso dos pacientes às estruturas onde a rede está presente. Nosso apoio é crucial tanto para a expansão e desenvolvimento do programa quanto para sua sustentabilidade".

MSF está presente na Líbia desde 25 de fevereiro, nas cidades de Misrata, Benghazi, Zintan, em acampamentos ao logo da fronteira com a Tunísia e nas ilhas italianas de Lampedusa e Sicília. MSF ainda está tentando acessar outras áreas afetadas pelo conflito na Líbia, inclusive a cidade de Trípoli. Para garantir a independência de suas atividades médicas, MSF depende exclusivamente de doações privadas para financiar suas atividades na Líbia, e não aceita financiamentos de nenhum governo, agência de doações ou qualquer grupo com afiliações políticas e militares.

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