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MSF ajuda 50 mil novos deslocados no sul de Darfur

12/12/2006
Com medo da violência, milhares de pessoas deixaram seus vilarejos e vivem agora debaixo de árvores no árido interior do país

Depois de uma série de violentos ataques nos últimos dois meses, pelos 50 mil civis no sul de Darfur fugiram para o árido interior do país. Vilarejos foram queimados, civis baleados, fontes de água e estoques de comida foram destruídos. Médecins Sans Frontières/Médicos Sem Fronteiras (MSF) está oferecendo assistência cirúrgica aos feridos, montou clínicas móveis e fixas e está distribuindo lâminas de plástico, cobertores e alimentos.

Debaixo de uma acácia espinhosa no interior seco do sul de Darfur, algumas famílias tentam escapar do sol escaldante. Homens, mulheres e crianças estão sentadas entre os poucos pertences que conseguiram pegar antes de fugir de um ataque em seu vilarejo natal: potes de geléia de plástico, algumas panelas e esteiras. Eles amarraram um cobertor nos galhos acima de suas cabeças, criando um pequeno espaço de sombra na areia.

Equipes móveis de MSF, que circulam nos arredores de Muhajariya, encontram centenas de famílias como essas, vivendo a céu aberto debaixo de arbustos e árvores, espalhados por dezenas de quilômetros do inóspito terreno. A água era escassa – a estação seca começou – e alguns foram forçados a beber água dos tanques construídos para o gado.

Durante as consultas, os médicos e enfermeiros de MSF encontraram sinais de deprivação e exposição. O número de casos de diarréia está aumentando rapidamente, doenças de pele se multiplicam, algumas crianças já apresentam infecções respiratórias por causa das noites frias que passam ao relento.

Pelo menos 50 mil civis fugiram para o refúgio precário do interior depois que uma série de violentos ataques ocorreu em Muhajariya e nos arredores da cidade. Para muitos deles, não era a primeira vez que tinham que fugir – eles já haviam se deslocado de outras regiões e viviam sob condições muito difíceis nos acampamentos de deslocados nos limites da cidade.

Depois de um período de calma relativa em Muhajariya, no dia 2 de outubro teve início uma nova onda de intensos confrontos que durariam dois meses. Civis comuns freqüentemente eram as principais vítimas. Nas semanas seguintes, a violência atingiu as áreas do sul e leste da cidade, fazendo com que cada vez mais pessoas tivessem de fugir do local.

Quando as equipes móveis de MSF conseguiram começar a se locomover pela área, eles encontraram civis baleados e agredidos, vilarejos totalmente incendiados, fontes de água destruídas sem chance de reparos, estoques de comida destruídos e um sentimento de desespero provocado pela mudança repentina em suas vidas e comunidades.

MSF encontrou um senhor deitado debaixo das árvores ao leste de Muhajariya, ferido a bala e com uma fratura exposta do fêmur. Ele descreveu como sua casa no vilarejo de Angabo foi destruída no dia 13 de novembro. "Dez pessoas entraram. Eles me perguntaram quem eu era e se eu tinha uma arma, depois eles atiraram em mim, levaram todo o meu dinheiro e queimaram minha casa. Eu ainda estava dentro dela quando atearam fogo".

Para muitos, a violência veio sem aviso. "Eu estava em minha casa quando ouvi um tiro", contou a MSF um homem que fugiu para o sul. "Eu fiquei onde estava e em seguida me dei conta que tinha sido baleado. Minha mão tinha sido atingida. Eu vi dois veículos com guerrilheiros na caçamba. Acho que eram 15 em cada veículo. Eles estavam atirando, atirando em meus amigos e em nossas casas".

A violência foi continua desde o início de outubro. Em algumas ocasiões, as pessoas que haviam fugido eram atacadas novamente, forçadas a vagar pela área em desesperada busca por segurança. A clínica administrada por MSF em Muhajariya oferece serviços cirúrgicos e está recebendo um grande fluxo de vítimas que precisam de tratamento médico específico.

Desde o início dos confrontos, 131 pessoas foram atendidas com traumas de guerra. Deste total, 107 tinham ferimentos a bala. Um quarto das vítimas era civil. Algumas vezes, até mesmo os pacientes da clínica em Muhajariya sentiram-se inseguros. Durante um episódio de confronto e represália no dia 23 de outubro, quando a equipe de MSF foi forçada a buscar abrigo, 15 pacientes fugiram do hospital.

Talvez o mais preocupante é como esse conflito armado, por vezes, divide a população em linhas étnicas, inflamando a tensão na região. A questão étnica estimulou ataques nos vilarejos e campos de deslocados, o que significa que civis sem qualquer relação com os militares se tornaram alvos diretos.

Isso complica a já desastrosa situação humanitária, fazendo por exemplo que os deslocados tenham medo de voltar para suas casas mesmo quando a situação permanece calma, ou com que MSF tema que seu trabalho afete a segurança de sua equipe nacional, uma vez que seus funcionários ultrapassam divisas das comunidades.

Todos os dias, as equipes de MSF são confrontadas com o sofrimento, desespero e miséria de pessoas comuns que estão se esforçando para dar continuidade a suas vidas em todos os sentidos, com pouquíssimos recursos.

"Eu não consigo dormir pensando nessas pessoas", conta Jonathan Henry, coordenador do projeto de MSF em Muhajariya. "Uma mulher me contou que estava em casa com seus sete filhos quando os confrontos começaram. Homens armados atearam fogo em sua casa e em toda a propriedade. Eles atiraram nas crianças, quando elas tentavam fugir. Agora, ela é uma deslocada e quer ir para o lugar mais longe de Muhajariya o mais rápido possível. Eu não sei para onde eles podem ir".

Devido a sua rápida fuga para esse ambiente árido, com pouco ou nenhum tempo para pegar provisões, os deslocados precisam de ajuda urgente. Quando se sentem seguros, procuram por água cavando poços rasos nos leitos de rios secos.

A equipe de MSF está aumentando o fornecimento de água para os mais vulneráveis com carros-pipa e consertando sistemas de distribuição de água locais. Mas está faltando água em muitos locais porque muitas pessoas e o gado estão bebendo-na.

"Uma semana, esse é o tempo pelo qual ainda vai ter água. Depois, nós vamos nos deslocar para tentar buscar mais água, mas não sei para onde iremos", contou uma adolescente de 16 anos que fugiu quando os agressores atearam fogo no vilarejo de Muturwed no dia 12 de novembro. Ela disse a MSF que quatro de seus familiares foram mortos e que sua família está morando debaixo de uma árvores desde então.

A comida também está acabando. A estação das chuvas foi boa este ano, então há expectativa de uma grande colheita, mas muitas pessoas estão com medo de voltar. Equipes de MSF que circulam pela área passam por plantações que tiveram uma colheita parcial, com o resto sendo desperdiçado. A equipe de MSF está tratando de pessoas que foram feridas ao voltar para as plantações para a colheita.

Devido à continua insegurança, existe um risco real de que a colheita seja perdida. As Nações Unidas e agências humanitárias distribuíram comida, mas a mudança na vida das pessoas e os contínuos deslocamentos fazem com que seja impossível garantir que as pessoas estejam recebendo os alimentos que necessitam.

Também não há locais onde os deslocados possam buscar ajuda médica. Seu estado geral de saúde é precário e deve piorar com a piora de suas condições de vida. Nas últimas semanas, MSF montou uma clínica em Sileah (36 km ao sul de Muhajariya) para levar assistência médica para os cerca de 17 mil deslocados internos que buscaram abrigo no local; a equipe também está fazendo uma avaliação nutricional; e uma campanha de vacinação contra o sarampo para crianças com entre seis meses e cinco anos de idade teve início.

MSF distribuiu 4,5 mil lâminas de plástico, 7,3 mil cobertores e mais de mil pacotes com biscoitos nutricionais. Mesmo contando com os esforços humanitários de outras organizações humanitárias, das Nações Unidas e do governo do Sudão, dezenas de milhares de pessoas ainda precisam de assistência humanitária, particularmente de itens básicos para abrigos, comida e água.

Nos últimos dias, novos ataques intensificaram os confrontos entre movimentos rivais, fazendo com que mais civis morressem e ameaçando o oferecimento de assistência por MSF em áreas fora de Muhajariya. Muitos dos deslocados foram forçados a voltar para a cidade. Mensurar a gravidade dos conflitos está além da capacidade de MSF, mas a equipe cirúrgica de Muhajariya tratou 59 pacientes feridos a bala em apenas três dias após o dia 29 de novembro.

Envolvidos nos episódios de violência ou sendo alvos deliberados, essas pessoas, especialmente as que vivem ao relento, precisam tomar decisões de vida ou morte sobre como manter suas famílias a salvo, encontrar comida ou água e lamentarem a perda de seus parentes e casas.

"O que podemos fazer pela mulher que sorri de sua cama embaixo de uma árvores no meio do nada?", pergunta Giles Hall, uma enfermeira que trabalha na equipe da clínica móvel. A mãe mostrou com orgulho o bebê em seus braços, uma menina de apenas 13 dias, sua idade facilmente lembrada porque ela havia fugido há 14 dias de seu vilarejo com medo de um ataque, que ocorreu logo em seguida. A criança nasceu debaixo de uma árvore e começou a vida como um deslocado interno.

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