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MSF abre três programas de cirurgia no Sri Lanka

02/02/2007
Médicos Sem Fronteiras tem lutado por nove meses para levar assistência médica às pessoas que vivem nas áreas de conflito

Em julho de 2006, Médicos Sem Fronteiras (MSF) abriu um programa médico no Hospital de Point Pedro, no norte do Sri Lanka, mas foi obrigado a fechá-lo dois meses depois devido às restrições de visto e falsas acusações contra MSF publicadas na mídia. MSF obteve agora a permissão para voltar ao norte do país e tem três equipes cirúrgicas trabalhando nos hospitais de Point Pedro, Vavuniya e Mannar. Gwenola François, coordenadora de terreno de MSF em Point Pedro, conta como está a situação desde que chegou ao país em dezembro do ano passado.

O que MSF está fazendo no Hospital de Point Pedro?

Quando voltei ao Hospital Point Pedro, no dia 21 de dezembro, não havia cirurgião, anestesista ou médico na emergência. Nada disso para as 150 mil pessoas que vivem na região do conflito armado.

A equipe do hospital estava esperando nossa chegada e nós conseguimos dar início às operações no dia seguinte. Até agora, nosso cirurgião realizou 40 intervenções, a maior parte delas emergencial, mas também fez pequenas intervenções. Nosso anestesista também trabalha com a equipe do departamento de ginecologia e obstetrícia, que realizou 50 intervenções, a maioria cesáreas, desde que chegamos.

Nossas duas prioridades no hospital no momento são consertar as máquinas de oxigênio e trazer um médico para trabalhar na emergência. Dessa forma, vamos poder reduzir o número de transferências realizadas para o Hospital Jaffna, que não fica muito longe de Point Pedro, mas sempre representa um risco para o paciente. As transferências também são difíceis de serem organizadas durante o toque de recolher e podem ser bem complicadas se o sistema de segurança começar a piorar.

Como está a situação em toda Península de Jaffna?

A península ficou praticamente isolada do resto do país desde o fim do ano passado, quando a principal estrada foi fechada devido ao conflito.

Cerca de 500 mil pessoas vivem nesse isolamento, a maioria deles desprovidas de recursos desde que o comércio por terra se tornou impossível. O acesso à península agora é feito apenas por ar e pelo mar, então a maior parte dos suprimentos é transportada por barco, mas isso pode levar vários meses.

Se houver atrasos na entrega de suprimentos alimentícios ou outros itens básicos, então a situação pode piorar rapidamente para as pessoas. Há também muita violência na península. Confrontos entre forças do governo e os Tigres do Tâmil, assim como assassinatos e ataques com granadas fizeram muitas pessoas fugir.

Como resultado, muitos especialistas médicos fugiram para Colombo, enquanto outros não querem vir para a península para os substituir. Por exemplo, há apenas um pediatra para toda a península, onde habitam cerca de meio milhão de pessoas.

O que mudou desde que MSF esteve em Point Pedro em outubro?

Antes de MSF deixar o país em outubro de 2006, houve grandes confrontos em Point Pedro e nos arredores da região ainda há incidentes, como explosões de minas e granadas ou assassinatos. Todo mundo tem que estar em casa antes do toque de recolher, que é dado às 17h ou às 19h, dependendo do dia, então todas as lojas fecham às 15h.
Por outro lado, o abastecimento alimentício melhorou nas últimas semanas, uma vez que alguns navios com suprimentos básicos de comida como lentilhas, arroz e batatas chegaram recentemente em Point Pedro. Não havia nenhuma batata na península por dois meses e todo mundo estava falando sobre isso.

A chegada de mais comida fez com que os preços no mercado caíssem um pouco, uma vez que estava bastante caro antes. Isso pode durar por alguns dias, até que as reservas comecem a acabar e as provisões se deteriorarem novamente.

Em termos gerais, a relativa calma em Point Pedro pode mudar de maneira muito, muito rápida. No fim de semana passada, houve conflitos no porto de Point Pedro, que causaram a morte de uma mulher e feriram seus dois filhos, então é uma situação muito frágil para as pessoas.

Até que haja um cessar-fogo confiável, acredito que nosso trabalho será absolutamente necessário aqui, para que atendimento médico especializado seja oferecido a uma população que está passando por uma crise muito difícil.