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Mossul: moradores encontram casas com armadilhas e infraestrutura dizimada ao retornar

19/10/2017
Iraquianos que retornaram à cidade nas últimas semanas enfrentam carência de água, eletricidade e cuidados médicos
Mossul: moradores encontram casas com armadilhas e infraestrutura dizimada ao retornar

Foto: Francesco Segoni

Iraquianos que estão voltando aos seus lares em Mossul, depois de anos de violência, se deparam com armadilhas explosivas montadas em suas casas e com uma cidade inabitável, de acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). A destruição de edifícios e da infraestrutura significa que as famílias que estão retornando, principalmente ao oeste de Mossul, acabam tendo que viver em casas parcial ou totalmente destruídas, praticamente sem acesso a água limpa, eletricidade ou cuidados médicos.

“O que vemos em nossas unidades médicas são sinais indicativos das condições de vida enfrentadas do lado de fora”, diz Myriam Burger, coordenadora de projeto de MSF no oeste de Mossul, que foi o palco de uma batalha brutal entre o grupo autoproclamado Estado Islâmico (EI) e forças iraquianas e seus aliados no início deste ano.

“Até recentemente, ainda recebíamos pacientes com ferimentos decorrentes da guerra, mas, conforme mais pessoas começaram a voltar para casa, começamos a ver um grande aumento no número de pacientes sofrendo de infecções gastrointestinais após beber água ou comer alimentos contaminados devido à falta de eletricidade e gás para refrigeração e cozimento. As crianças, principalmente, estão desenvolvendo erupções e outros problemas cutâneos, devido à falta de higiene e ao hábito de brincar próximo à água de esgoto que sai do encanamento danificado”, afirmou Burger. 

Dispositivos explosivos não detonados e armadilhas já mataram e feriram muitos que voltaram a Mossul. Nos últimos dias, dois adolescentes de uma família de cinco pessoas foram mortos enquanto tentavam remover um foguete que foi armado para explodir na sala de sua casa, no oeste de Mossul. Em outra parte da cidade, uma neném foi morta e seu irmão mais velho ficou ferido depois que ela pegou um brinquedo recheado de explosivos. A família havia acabado de voltar para casa pela primeira vez desde o fim do conflito no oeste de Mossul.

As equipes médicas de MSF também estão tratando um número crescente de pacientes picados por escorpiões e cobras, já que as pessoas estão vivendo em casas com canos quebrados e fossas sépticas danificadas. Crianças já foram tratadas para traumatismos sofridos depois de caírem, de cima de telhados, sobre blocos de cimento e vigas de ferro.

Com muitas instalações médicas ainda destruídas e com estradas e pontes danificadas e inutilizáveis, o acesso da população a serviços de saúde está gravemente limitado. Os que precisam de cuidados básicos muitas vezes são obrigados a adiar a ida aos poucos centros de saúde em funcionamento, de modo que problemas de saúde facilmente tratáveis se agravam a ponto de se tornar letais. Ao mesmo tempo, as poucas ambulâncias em operação enfrentam grandes atrasos no caminho até os pacientes porque ficam presas no trânsito ou são obrigadas a fazer longos desvios.  

“Para muitas pessoas, a sonhada volta para casa está sendo amarga, já que elas se deparam com níveis assustadores de destruição e com uma miséria aparentemente interminável”, diz Burger. “Para os que estão esgotados pelos anos de violência no Iraque, é mais um obstáculo a superar.”  

Apesar de todas essas dificuldades, lojas e comércios em Mossul estão voltando a abrir lentamente, mesmo em construções parcialmente destruídas. Caminhões de cimento começam a ser vistos nas ruas, e vizinhos trabalham em conjunto para construir seus bairros, casa por casa.


Sobre MSF

O hospital de MSF no oeste de Mossul foi aberto em junho de 2017 e, na época, contava com serviços de cirurgia para feridos de guerra, cesarianas de emergência, cuidados pós-operatórios de curto prazo, assistência materna, sala de emergência e um espaço de triagem. Quando o conflito terminou, as equipes de MSF mudaram seus serviços para se concentrar em assistência materna e cuidados pediátricos, ao mesmo tempo em que mantêm a capacidade de realizar cirurgias quando necessário.

Em outras partes do Iraque, MSF oferece apoio médico em Zummar, Qayyarah, Kirkuk, Dohuk, Tikrit, Sulaymaniyah, Diyala, Babilônia e em acampamentos no nordeste de Nínive, que abrigam pessoas deslocadas pelo conflito naquela região.

MSF oferece assistência médica de forma neutral e imparcial, independentemente da etnia, religião, gênero ou afiliação política dos pacientes. A fim de garantir sua independência, MSF não aceita financiamento de qualquer governo ou agência internacional para seus projetos no Iraque, contando somente com doações privadas do público geral do mundo todo para realizar seu trabalho.

 

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