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Moçambique: “Uma mulher andou de muletas por uma hora e meia para receber cuidados”

06/05/2019
Apesar de estarem se recuperando do ciclone Idai, a população de Dondo ainda enfrenta problemas de acesso a saúde
Moçambique: “Uma mulher andou de muletas por uma hora e meia para receber cuidados”

Foto: Giuseppe La Rosa

Enquanto uma segunda tempestade tropical atingiu Moçambique, as comunidades rurais afetadas pelo ciclone inicial ainda enfrentam muitos desafios médicos e humanitários. Esperanza Santos, coordenadora de emergência de MSF, explica nossa resposta à situação no distrito de Dondo, uma das áreas fora de Beira mais afetadas pelo ciclone Idai. 

“Logo após as fortes chuvas e inundações destruírem grande parte de Beira, identificamos o distrito de Dondo, na província de Sofala, em Moçambique, como uma das áreas mais afetadas pelas inundações. Tanto na cidade de Dondo quanto no interior, encontramos muitas pessoas que precisam urgentemente de ajuda. Os telhados de suas casas haviam sido arrancados pelo vento e pela chuva, deixando-as sem abrigo; seus bens e pertences domésticos foram levados; e os serviços de saúde foram interrompidos.

Inicialmente, quando foram anunciados surtos de cólera nas áreas afetadas pelas enchentes, apoiamos o Ministério da Saúde de Moçambique para operar unidades de tratamento de cólera em Dondo, Mafambesi e Mutua. Apoiamos o tratamento de mais de 740 casos de cólera, inclusive por meio de cinco pontos de reidratação oral e um serviço de encaminhamento de ambulância; implementamos atividades de promoção de saúde; e apoiamos as autoridades de Moçambique a realizar uma campanha de vacinação contra a cólera para prevenir novos casos. 

No entanto, logo voltamos nossa atenção para as comunidades de Chibuabuabua, Tundane e Savane, três áreas remotas gravemente afetadas pela tempestade, que também tinham um acesso particularmente precário a cuidados médicos. Quando chegamos, as pessoas já estavam começando a reconstruir suas casas e a viver da melhor maneira possível com os recursos limitados disponíveis para elas. Para ajudar a evitar condições de vida precárias que levam a um aumento de doenças – como acontece com frequência nesse tipo de contexto –, distribuímos 7 mil kits com itens básicos de sobrevivência, beneficiando cerca de 30 mil pessoas. Esses itens incluem cobertores para dormir e lonas plásticas para colocar sobre estruturas de madeira, como uma forma de telhado que irá proporcionar proteção contra chuva e sol forte. Os kits também contêm itens de higiene pessoal; mosquiteiros para prevenir a malária; galões para coletar e armazenar água; e uma solução de hipoclorito de sódio para desinfetar a água para torná-la própria para consumo e reduzir a propagação de doenças transmitidas pela água.

Estrada, rio e ar: fornecendo suprimentos por qualquer meio necessário

Chibuabuabua, Tundane e Savane estendem-se por uma área total de 1.500km². A população nessas áreas de Dondo é muito dispersa – as pessoas não estão necessariamente vivendo juntas em vilarejos. Isso dificultou a identificação do número de famílias necessitadas. O fato das áreas que estávamos tentando alcançar serem remotas, além dos danos causados pelo ciclone, também complicou a distribuição dos kits.

Às vezes, nossas equipes viajavam três horas de moto ou trator, mas em muitas ocasiões as estradas ficavam completamente inacessíveis devido a inundações ou bloqueadas por árvores derrubadas pela tempestade. Nestes casos, tivemos que usar um helicóptero para chegar até as pessoas. Em um momento da distribuição, tínhamos cinco equipes distribuindo cerca de 1.200 kits por dia – usando três barcos, seis tratores e quatro caminhões. Transportávamos os suprimentos por caminhão até a beira do rio e, em seguida, usávamos os barcos para levar os itens. Quando finalmente chegamos ao outro lado, o acesso muitas vezes era tão difícil que as pessoas ainda precisavam andar de duas a quatro horas para chegar aos pontos de distribuição e pegar os suprimentos. Uma mulher com quem falei em Tundane andou por uma hora e meia de muletas para receber nosso apoio.

Restaurando serviços médicos interrompidos

Macas de parto, instrumentos médicos, curativos e medicamentos – por toda a região de Dondo, chuvas e enchentes estragaram ou levaram equipamentos e suprimentos em muitos centros de saúde locais. Ventos fortes também causaram danos estruturais às instalações médicas, destruindo parcialmente 16 centros de saúde em todo o distrito e deixando o sistema de saúde disfuncional.

Na primeira resposta ao ciclone, montamos tendas fora das estruturas do Ministério da Saúde que haviam sido danificadas e oferecemos os materiais necessários para que eles pudessem continuar oferecendo cuidados de emergência e maternidade. No entanto, como muitas pessoas vivem longe das instalações de saúde, agora estamos trabalhando com o Ministério da Saúde para operar clínicas móveis em 20 locais remotos de Chibuabuabua, Tundane e Savane. Isso nos permite alcançar comunidades isoladas que, de outra forma, teriam acesso muito limitado a assistência médica. Estamos nos concentrando em tratar malária, diarreia e infecções respiratórias, as três condições mais comumente observadas, bem como na distribuição de vacinas para evitar surtos de doenças transmissíveis, como sarampo.  

Para ajudar a normalizar o sistema de saúde e retomar serviços adequados a longo prazo, também estamos reconstruindo o telhado de três unidades de saúde em Chibuabuabua, Tundane e Savane, e estamos conduzindo atividades para garantir que os centros tenham água, saneamento e instalações de controle de infecção.

Desafios no futuro

As pessoas da área rural de Dondo dependem da agricultura para sua subsistência, mas o ciclone destruiu os estoques de alimentos e arruinou as plantações, que estavam perto da colheita. Em Chibuabuabua, algumas terras ainda estão totalmente inundadas e os campos de milho estão completamente destruídos.

Antes do ciclone, já havia momentos em que o acesso das pessoas a alimentos não era confiável. Agora que eles não têm nenhuma plantação – seja para seu próprio consumo ou para vender nos mercados – e não podem cultivar novas colheitas, a insegurança alimentar pode se tornar mais um problema. Até agora, não vimos desnutrição em níveis de emergência, mas mais casos podem começar a surgir à medida que os meses passam e os recursos se tornam ainda mais escassos.

O que temos visto, no entanto, é uma alta taxa de desnutrição crônica resultante do HIV. Embora ainda estejamos avaliando os desafios causados pelo ciclone para as pessoas que vivem com o vírus, sabemos que muitos não conseguiram pegar seus remédios ou não puderam retornar aos centros de saúde desde as enchentes. Isso significa que seu tratamento vital e regular foi interrompido. Dado que entre 11 e 15% da população de Moçambique é soropositiva, isso potencialmente afeta muitas pessoas.

Também estamos preocupados com a malária, a maior causa de morte em Moçambique. Já estamos no pico da época da malária e, a menos que os ventos tenham soprado os mosquitos para longe, as grandes áreas de água estagnada deixadas para trás pelas enchentes fornecerão aos mosquitos um terreno fértil perfeito. Se houver um aumento de mosquitos, podemos também começar a ver taxas mais altas de transmissão de malária.

As pessoas aqui em Dondo estão tentando se recuperar e o governo está tentando retomar o acesso aos serviços, mas é uma luta e ainda há potencial para que surjam outras necessidades de saúde. Depois de tudo o que passaram, a população ainda está muito vulnerável e a infraestrutura de saúde que os apoia precisará de ajuda por muito tempo.”

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