Você está aqui

Moçambique: “As pessoas fugiram para a floresta para se salvar”

07/04/2021
Por Amparo Vilasmil, coordenadora de atividades de saúde mental de MSF em Cabo Delgado, Moçambique
Moçambique: “As pessoas fugiram para a floresta para se salvar”

Foto: Amanda Bergman/MSF

“Faço parte da equipe que atua em Montepuez, a segunda cidade mais populosa da província de Cabo Delgado e um dos destinos das pessoas que fogem dos recentes ataques na cidade costeira de Palma.

Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém um projeto médico em Montepuez desde novembro de 2020. No ano passado, o número de pessoas forçadas a fugir para cá aumentou exponencialmente por causa da crise. Atualmente, cerca de 50 mil pessoas vivem em acampamentos ou na comunidade local.

Assim que a magnitude dos ataques em Palma se tornou mais clara, as equipes de MSF em Cabo Delgado, incluindo Montepuez, começaram a se preparar para uma possível nova onda de chegadas. Nos últimos dias, cerca de 400 pessoas chegaram a Montepuez; mais de um terço delas eram crianças. Os que estão chegando dizem que muitos outros estão a caminho.

Pessoas deslocadas chegam a Montepuez agitadas e sobrecarregadas com o que viram. Elas choram enquanto falam sobre sua situação. 'Eles mataram muitas pessoas, eles mataram Palma', contou-me uma delas. Elas fugiram para a floresta para salvar suas vidas e caminharam dia e noite durante quatro ou cinco dias.

Muitos viram cadáveres ao longo do caminho; pessoas que morreram de fome ou desidratação. A única água disponível era de um rio sujo. As pessoas geralmente seguem as estradas principais, mas dormem bem dentro das florestas para se proteger, evitando aldeias e sobrevivendo com o pouco que podem encontrar.

Uma das primeiras cidades principais que chegam é Nangade, a 130 quilômetros de Palma. A partir daí, os mais afortunados que conseguem dinheiro com os familiares pegam transporte e seguem para Mueda, uma cidade montanhosa controlada pelos militares, e outros continuam mais para sul, até Montepuez.

MSF está preocupada com aqueles que não têm família para ajudá-los a arcar com o transporte, pois isso significa que eles ainda estão caminhando, sem acesso a comida e água. Essas pessoas provavelmente chegarão em condições ainda piores. Estamos trabalhando arduamente para identificar os percursos que as pessoas que fogem de Palma estão fazendo e para onde estão indo, assim, podemos adaptar nossa resposta.

Posicionamos uma equipe em cada um dos pontos de entrada em Montepuez para prestar apoio à saúde mental assim que as pessoas chegam aqui. Nós os ajudamos a lidar com suas experiências traumáticas e a serem capazes de seguir em frente em sua jornada. Muitos deles querem seguir para Pemba, a capital da província, na esperança de se reunir com outros familiares.

Nos acampamentos ao redor de Montepuez, há muitas pessoas que foram separadas de suas famílias durante os ataques anteriores em Cabo Delgado. Alguns familiares vieram para Montepuez, enquanto outros foram para Palma. E agora eles perderam todo o contato uns com os outros. Eles não sabem onde estão ou se estão seguros, o que lhes causa muita ansiedade e estresse.

Antes dos ataques, Palma tinha uma população estimada em várias dezenas de milhares. Muitos deles já teriam fugido da cidade em diferentes direções: alguns pegaram barcos para o sul, outros foram para o interior pela floresta ou para a fronteira com a Tanzânia, e muitos parecem ainda estar escondidos nos arredores de Palma. Assim como em Montepuez, as equipes de MSF estão atendendo às necessidades médicas e humanitárias das pessoas que fogem de Palma em Mueda, Nangade, Pemba e Macomia.

Outra equipe de MSF foi enviada esta semana para a península de Afungi, a cerca de 25 quilômetros de Palma, para onde alguns dos feridos foram levados e outras pessoas buscaram refúgio. O conflito entre o exército e grupos armados não-estatais em Cabo Delgado está em curso desde 2017 e se intensificou no último ano. Mais de 670 mil pessoas foram deslocadas até agora pela violência, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Unocha).”

 

Leia mais sobre

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar