Moçambique: MSF conclui resposta ao maior deslocamento populacional de 2025 no país

Mais de 100 mil pessoas foram forçadas a sair de suas casas no distrito de Memba por causa da violência armada

Eduardo Morane, técnico em medicina de MSF, atende pacientes na clínica instalada em Alua Sede, província de Nampula, após o deslocamento em massa causado por ataques armados no distrito de Memba, Moçambique. ©Costantino Monteiro/MSF

Após 12 semanas de ação de emergência, Médicos Sem Fronteiras (MSF) concluiu a sua ação no distrito de Eráti, província de Nampula, no norte de Moçambique. Nossas equipes prestaram cuidados de saúde primários e serviços de emergência às comunidades deslocadas e anfitriãs em Alua Velha, Alua Sede e Miliva, quando os serviços de saúde locais estavam sobrecarregados e o risco de surtos de doenças era elevado. Continuamos a realizar atividades regulares no país.  

MSF iniciou esta resposta em dezembro de 2025, após a maior onda de deslocamento registrada naquele ano, desencadeada por ataques do grupo armado Estado Islâmico de Moçambique e pelo receio de mais violência.  

Mais de 100 mil pessoas fugiram do distrito de Memba; muitas delas procuraram refúgio no vizinho distrito de Eráti, em condições extremamente precárias. 

Sem acampamentos formais para acolher as famílias deslocadas, elas dependeram, em grande medida, das comunidades locais, que compartilharam casas, alimentos e terras, apesar de já se encontrarem com recursos limitados. 

Quando as pessoas chegaram, não tinham para onde ir, nem o que comer.”

-Josefina Pedro, residente de Alua Sede

O cansaço e o medo estavam estampados nos rostos de todos. Então, nós que já vivíamos aqui começamos a acolher quem podíamos. Na minha casa, acabei por acolher sete pessoas. Não tínhamos muito, mas partilhávamos o pouco que havia, porque ninguém merece enfrentar o sofrimento sozinho, completa Josefina Pedro, residente de Alua Sede. 

Josefina Pedro com a filha, Esfenosa, enquanto espera para ser atendida em uma clínica móvel de MSF em Alua Velha, na província de Nampula, Moçambique. ©Costantino Monteiro/MSF

Malária e cólera entre as necessidades de saúde mais urgentes 

As equipes de MSF implementaram clínicas móveis em Alua Sede, Alua Velha e Miliva — áreas que acolhiam o maior número de pessoas deslocadas. Profissionais realizaram mais de 18 mil consultas médicas, com mais de 2.000 por semana no pico da emergência. As crianças representaram quase dois terços dos pacientes. 

“As primeiras semanas da resposta foram decisivas”, afirma Abdullahi Chara, coordenador médico de emergência de MSF. “As unidades de saúde já estavam com poucos recursos quando o número de pessoas começou a aumentar. Os casos de malária estavam crescendo e, quando um surto de cólera foi declarado dias depois, não havia capacidade suficiente para lidar com tudo ao mesmo tempo.” 

A malária foi a principal causa de doença, representando mais de metade de todas as consultas, juntamente com infeções respiratórias, doenças diarreicas e problemas de pele.  

MSF realizou mais de 11 mil testes rápidos de diagnóstico de malária, com uma taxa de positividade de 63%.  

As equipes também prestaram cuidados pré-natais, planejamento familiar e serviços de saúde mental, além de realizarem atividades de promoção de saúde que alcançaram dezenas de milhares de pessoas. 

 

Persistem barreiras no acesso aos cuidados de saúde 

Para muitas pessoas, o acesso a cuidados gratuitos em tempo hábil foi essencial, sobretudo em um contexto em que os custos e a escassez de medicamentos frequentemente limitam a possibilidade de consultar um médico e tratar doenças. 

“No meu vilarejo, costumamos a pagar pelas consultas e medicamentos. Às vezes não há medicamentos disponíveis no centro de saúde”, diz Isabel Carlos Pereira, uma mulher que fugiu de Memba. “Dizem-nos para comprar em farmácias privadas.” 

Isabel Carlos Pereira, de 50 anos, foi deslocada de Mazua, no distrito de Memba, e buscou refúgio em Alua Velha, onde recebe atendimento na clínica móvel de MSF, em Moçambique. ©Sofia Minetto/MSF

A sua experiência é igual a de membros da comunidade anfitriã, como Josefina, que descreve a clínica móvel de MSF em Alua Velha como “algo parecido com ter um hospital por perto”, um nível de acesso aos cuidados que nunca tinha tido antes. Muitas vezes, a distância e os custos de transporte são barreiras significativas para as populações no norte de Moçambique. 

“Para tratamento, temos de ir até Alua Sede, onde fica o centro de saúde mais próximo”, explica Laura Mário Freda, residente de Miliva. “Chegar lá custa entre 150 e 250 meticais. Se alguém estiver muito doente, os táxis às vezes recusam transportar, por medo de que a pessoa morra pelo caminho. Ter uma clínica móvel aqui é um sonho. Podemos vir e ser atendidos a qualquer momento.” 

Laura Mário Freda (à esquerda) e Amina Mário (à direita), vizinhas em Miliva, foram afetadas pela maior onda de deslocamento causada pela violência no norte de Moçambique em 2025. ©Sofia Minetto/MSF

Resposta ao cólera e atividades de água e saneamento 

Com uma epidemia de cólera oficialmente declarada, MSF apoiou a resposta liderada pelo Ministério da Saúde, estabelecendo um centro de tratamento de cólera em Alua Sede e formando profissionais de saúde locais.  

Centro de Tratamento de Cólera instalado por MSF no Centro de Saúde de Alua, para auxiliar as autoridades sanitárias no combate à epidemia. ©Costantino Monteiro/MSF

As equipes também implementaram atividades de água, saneamento e higiene, incluindo construção de latrinas de emergência, reabilitação de fontes de água e fornecimento de água potável às comunidades afetadas. 

 

O acesso aos cuidados de saúde continua a ser um desafio 

À medida que a fase mais aguda da crise diminuiu, muitas pessoas deslocadas começaram a regressar às suas zonas de origem, e MSF repassou as atividades ao Ministério da Saúde local. 

No entanto, a resposta expôs lacunas estruturais já existentes no acesso aos cuidados de saúde, especialmente em áreas remotas e com pouca assistência, onde as pessoas continuam a enfrentar barreiras no acesso a cuidados, medicamentos e serviços básicos. 

Equipe de MSF monta tenda para ser usada em consultas como parte de uma clínica móvel em Alua Velha, província de Nampula, durante uma pausa após fortes chuvas, em Moçambique. ©Sofia Minetto/MSF

Em um contexto marcado pela insegurança, MSF reitera a necessidade de respostas humanitárias sustentadas, coordenadas e baseadas em necessidades. 

Durante a resposta, pessoas deslocadas relataram que o acesso à assistência estava condicionado ao retorno às suas zonas de origem, levando algumas famílias a regressar mesmo com medo e incerteza.  

Isso reforça a importância de garantir que a assistência humanitária seja prestada exclusivamente com base nas necessidades, sem condicionamentos ou pressão sobre movimentos populacionais durante crises prolongadas. 

Reiteramos novamente o compromisso de prestar cuidados de saúde essenciais, orientados pelos princípios de neutralidade, independência e imparcialidade, ao mesmo tempo que respondemos tanto às necessidades de emergência como às lacunas crônicas no acesso aos cuidados. 

Em Cabo Delgado, MSF mantém projetos em Mocímboa da Praia, Macomia e Palma. Prestamos consultas gerais, cuidados de emergência, serviços de maternidade e pediatria, cuidados de saúde sexual e reprodutiva, tratamento para HIV e tuberculose, bem como apoio de saúde mental e psicossocial. 

Em 2025, realizamos mais de 100 mil consultas externas, tratamos cerca de 50 mil casos de malária e prestamos assistência a 7.500 partos. Operamos clínicas móveis e atividades de alcance comunitário, encaminhamos pacientes aos centros de saúde e apoiamos unidades de saúde e hospitais em colaboração com o Ministério da Saúde local. 

 

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