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Moçambique: aconselhamento reforça adesão ao tratamento de HIV

11/10/2016
Psicóloga brasileira integrou equipe de promoção de saúde no distrito de Changara, província de Tete
Moçambique: aconselhamento reforça adesão ao tratamento de HIV

Foto: MSF

Com uma taxa de prevalência de HIV de cerca de 11% e onde uma em cada três pessoas abandona o tratamento antirretroviral (Tarv) após um ano de iniciação, Moçambique é um dos países no qual o aconselhamento se faz mais necessário para assegurar a adesão ao tratamento do vírus. Geralmente, a atividade é exercida por equipes de promoção de saúde, como conta a psicóloga brasileira Renata Rodrigues Soares, que atuou por nove meses no distrito de Changara, na província de Tete, onde a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém um projeto voltado para os cuidados descentralizados de HIV.

Ali, ela compôs um grupo formado por 13 conselheiros e dois supervisores que desenvolvia atividades de apoio às pessoas em Tarv. Basicamente, os profissionais realizavam testes de HIV na comunidade, formavam grupos de adesão comunitários, e, em casos de suspeita de falência terapêutica, trabalhavam o reforço à adesão ao Tarv. “Nós orientávamos as pessoas a continuar seguindo o tratamento e não faltar às consultas – o que também é muito importante”, conta Renata.

A história de um menino soropositivo que teve sua carga viral (exame que conta a quantidade de vírus presente no organismo) indetectável após a intervenção de MSF comprova o impacto das ações de promoção de saúde. “Nós convidamos a mãe de um menino a se juntar ao grupo de adesão comunitário após identificarmos que a carga viral do filho estava altíssima. Durante os encontros, o conselheiro de MSF reforçava as mensagens sobre o que permeia o tratamento, e foi então que a mãe percebeu o garoto não estava tomando a dose apropriada para sua idade e seu peso. Após corrigir esta falha, o resultado do novo exame mostrou uma carga viral indetectável”, diz ela, orgulhosa.

Apesar dos resultados positivos provenientes desta ação, há uma falha no apoio financeiro e político à atuação de conselheiros de HIV em países da África subsaariana, como Moçambique. O baixo número desses profissionais moçambicanos – que podem ajudar a mitigar o risco de contração de doenças, da não adesão e da resistência ao tratamento de primeira linha – é inteiramente dependente da verba de doadores internacionais e de políticas públicas, mas o investimento é praticamente inexistente.

No relatório “Who’s doing the job?” (“Quem está fazendo o trabalho?”, na tradução literal para o português), publicado recentemente por MSF em parceria com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), as partes pedem por mais reconhecimento e financiamento, além de treinamento mais qualificado, para os conselheiros de cuidados de HIV. “O que as pessoas sob o Tarv mais precisam não são só medicamentos, mas também conselheiros que saibam sobre suas realidades diárias e possam apoiá-las para superar obstáculos para aderir ao tratamento e permanecer sob cuidados efetivos”, diz Saar Baert, coordenadora do apoio a pessoas atendidas por MSF.

Diante dessa falha, a atuação de MSF nos 10 centros de saúde em que apoia no distrito de Changara é fundamental para a população local que vive com HIV. Segundo Renata, 2 mil pessoas estão sob o Tarv na região, que comporta 2% de incidência da doença. “A população moçambicana é muito resistente ao uso de preservativo, o que aumenta as chances de contração do HIV. E, uma vez infectado, o estigma é outro fator que impede o início ou a continuação do Tarv”, explica ela. “Conhecemos uma mulher que estava com a carga viral muito alta, apesar de ir constantemente ao centro de saúde buscar os medicamentos (que são oferecidos gratuitamente). E, então, descobrimos o motivo: o marido dela tomava seus medicamentos, porque ele tinha muita vergonha de ir buscar os próprios.”

Quando questionada sobre o maior desafio de sua atuação em Moçambique, Renata pondera, como quem quer achar a palavra certa, e dispara: “Acho que é o nível de criatividade que temos de usar para propor soluções para dificuldades básicas, como não tomar a medicação no horário certo, por exemplo. Em Moçambique, as pessoas não têm costume de usar relógio de pulso ou verificar as horas a todo momento, e há muitos locais onde não chega eletricidade.” Mas, em seu quarto projeto com MSF, ela não precisou nem dizer que sua experiência venceu a dificuldade.

MSF atua em Moçambique desde 1984. A organização também mantém um projeto de HIV na província de Tete, e tem capacidade de rápida intervenção em caso de uma emergência na região. O projeto de Changara liderou a descentralização dos cuidados de HIV para a comunidade, e, desde então, o modelo de grupos de adesão comunitários se tornou política nacional em Moçambique e se espalhou por toda a região da África Austral (e além).