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Migração pela selva de Daríen: “Você não espera tal crise humanitária em um país como o Panamá”

24/11/2021
Guillermo Gironés, coordenador-médico de MSF, descreve o que as equipes testemunham nos projetos em Bajo Chiquito; MSF já ofereceu 30 mil consultas médicas para migrantes
Foto por: Sara de la Rubia/MSF
“Ela era uma garota de 17 anos e foi vítima de violência sexual no caminho [entre a Colômbia e o Panamá]. Mas esse não foi o único trauma a que foi submetida. A distância entre a menina e sua mãe aumentou ao longo do trajeto. Cada um tem um ritmo diferente e, por ser mais jovem, ela seguiu em frente. Então, quando a tratamos em Bajo Chiquito, ela não só ficou traumatizada pela violência sexual sofrida, mas também teve a ansiedade adicional de se perguntar como ficaria sua mãe se o mesmo acontecesse com ela, se a veria viva novamente”. 
 
Esse é um dos casos que Guillermo Gironés, coordenador-médico de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Panamá, lembra com maior nitidez após três meses de trabalho na fronteira entre o Panamá e a Colômbia. Gironés descreve nesta entrevista o que ele e as equipes de MSF estão testemunhando enquanto trabalham em nossos projetos que atendem aos migrantes depois que eles cruzam a selva de Darién, entre o Panamá e a Colômbia. Desde o início das atividades, MSF já ofereceu 30 mil consultas médicas para pessoas em trânsito entre esses países. 
 
O que te surpreendeu nos projetos quando você chegou?
 
Que as pessoas eram tão internacionalmente diversificadas. É verdade que a maioria dos migrantes é de haitianos que se deslocam de países como o Chile ou o Brasil, para onde migraram anteriormente. Mas a realidade de conhecer também pessoas do Paquistão ou da República Democrática do Congo (outro dia conheci alguns congoleses, de Kinshasa, que moravam na Argentina) foi o que me surpreendeu. 
E você também não espera uma crise humanitária como esta em um país como o Panamá. Acima de tudo, você não espera a violência associada, a brutalidade encontrada no caminho, incluindo a violência sexual e geral que ocorre durante os roubos. 
 
Quais eram suas funções como coordenador-médico?
 
Trabalhei na estratégia de atendimento aos pacientes e na negociação com as autoridades para que o apoio necessário fosse disponibilizado em Bajo Chiquito pelo Ministério da Saúde do Panamá, com quem trabalhamos em conjunto. Também tivemos que fazer muito trabalho de divulgação com as autoridades sobre o que significa ser uma vítima de violência sexual, a necessidade de não revitimizar sobreviventes (repetindo perguntas, inúmeras entrevistas etc), a importância da confidencialidade, a necessidade de reclamações voluntárias, entre outros.
 
As equipes trataram 288 casos de violência sexual desde o início do projeto, no final de abril. 
 
Todos eles são reportados às autoridades? 
 
Não, longe disso. E temos que imaginar que os casos que vimos podem representar apenas 25% do que realmente ocorre. Mas os migrantes geralmente não denunciam casos de violência ou estupro, por dois motivos: um, sua criminalização pelos Estados e suas organizações os faz desconfiar das autoridades; dois, naturalmente, o que eles querem é seguir em frente o mais rápido possível. Desejam chegar ao seu destino o mais rápido possível e evitarão se envolver em processos que possam atrasar sua viagem, sem a certeza do desfecho da investigação que se seguirá. 
 
Como é tratada uma pessoa que foi vítima de violência sexual?
 
Para evitar que uma pessoa seja submetida a inúmeras entrevistas e questionamentos, como mencionei anteriormente, procuramos criar uma consulta única e abrangente, com a presença de médico e psicólogo. Em termos de atendimento médico, caso o evento tenha ocorrido nas últimas 72 horas, oferecemos tratamento para prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, HIV e gravidez. Também tratamos qualquer dor que possam sentir por terem sido agredidos e espancados. Quase 90% das pessoas que atendemos também recebem aconselhamento, de forma voluntária, que pode levar até uma hora. 
 
Pode ser difícil para nossas equipes também. Imagine a carga emocional para o psicólogo que tem que tratar sete ou oito casos em um único dia. Todos os casos são terríveis, apavorantes, inaceitáveis. 
 
Foto: Sara de la Rubia/MSF
 
E o número de agressões sexuais não está melhorando, está?
 
Não. Durante algumas semanas, entre setembro e outubro, os números caíram, com maior atuação em todas as frentes por parte das autoridades (militares, procurador-geral etc). Mas os grupos criminosos voltaram. Tivemos 18 casos de agressões sexuais na última semana, um número assustador. É evidente isso que pode ser interrompido, está provado, mas é necessário tomar as medidas adequadas mais uma vez para pôr fim a esta situação.
 
Quais doenças ou condições você vê mais?
 
As condições mais comuns que nossas equipes veem são lesões de pele, infecções respiratórias e distúrbios gastrointestinais que surgem dos perigos associados a um percurso de cinco dias pela selva, onde também há uma enorme violência.
 
Darién tem três perigos: primeiro, violência; segundo, os rios, com inundações repentinas e correntes enormes. Essas são dificuldades que uma pessoa que passou cinco dias exaustivos caminhando por uma selva, uma tortura de cruzar, tem que passar. Agora mesmo, uma colega minha estava me contando sobre uma mulher que ela estava tratando que viu o rio subir e levar sete pessoas de seu grupo. 
 
Terceiro, há subidas e descidas em terrenos escorregadios, pois a selva é muito irregular. Ocorrem quedas, algumas fatais, e os migrantes continuam a falar de feridos que precisam ser deixados à própria sorte e abandonados na floresta, possivelmente deixados à morte se não puderem ser alcançados por meio de tentativas de resgate. 
 
Nos últimos meses, a comunidade de Bajo Chiquito implementou um serviço de canoa pago que encurta a travessia do trecho final em dois dias. Isso proporciona um grande alívio; não vemos mais pessoas saindo de Darién com os pés tão devastados pela umidade, queimados pela fricção da água e da areia, terrivelmente inchados. 
 
Ainda assim, Darién permanece uma jornada impiedosa. E é por isso que pedimos caminhos seguros para essas pessoas, em grande parte constituídas por unidades familiares com crianças. A migração não é um crime.
 
Foto: Sara de la Rubia/MSF

 

De acordo com o Departamento de Migração do Panamá, em 2021, 121.737 migrantes entraram no Panamá pela selva de Darién, 29.604 deles somente em outubro. Em apenas 10 meses deste ano, tantos migrantes cruzaram a selva de Darién quanto nos últimos 11 anos. No curso de nossas atividades até o início de outubro, oferecemos 877 consultas individuais de saúde mental e 3.475 pessoas participaram de consultas em grupo.

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