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Mianmar: "Nós mantemos nossa frustração reprimida porque não podemos falar"

16/08/2019
Suleiman, rohingya que vive no centro do estado de Rakhine, fala sobre a falta de direitos de seu povo em Mianmar
Mianmar: "Nós mantemos nossa frustração reprimida porque não podemos falar"

Foto: Scott Hamilton/MSF

Suleiman é um vigia de MSF que vive no vilarejo de Nget Chaung, no centro do estado de Rakhine. Ele, assim como outros 9 mil muçulmanos rohingyas, tem sua liberdade de movimento negada, ficando forçosamente confinado ao vilarejo e ao campo de internamento adjacente, com más condições de vida e acesso muito limitado aos serviços básicos. As restrições de movimento para os rohingyas no centro do estado de Rakhine seguiram os surtos de violência entre as comunidades de rohingyas e rakhines em 2012. Hoje, cerca de 128 mil rohingyas e outros muçulmanos são confinados à força em acampamentos ou locais semelhantes no centro do estado de Rakhine. Antes de essas restrições serem impostas, Suleiman era professor, viajando para diferentes municípios e cidades para oferecer aulas de inglês e birmanês em mesquitas.

“Eu nasci na vila de Nget Chaung e toda a minha família mora aqui. Minha esposa e eu temos oito filhos e eu trabalho como vigia para a clínica médica de MSF. MSF chegou a Nget Chaung logo após a crise de 2012; eles começaram a trabalhar aqui apenas sete dias depois de sermos atacados.

Quando eu era criança, fui para Sittwe para estudar. Mas, quando eu tinha 15 anos, nós simplesmente não tínhamos dinheiro para eu continuar indo à escola. Então, depois de completar minha educação primária, voltei para casa e acabei morando na mesquita. Comecei a ganhar a vida como professor, dando aulas de inglês e birmanês para as crianças e adultos que vinham à mesquita.

Eu estava trabalhando em outro vilarejo nas proximidades quando a crise começou em 2012 – voltei para casa rapidamente e as coisas estavam tensas. Certa noite, acordamos às duas da manhã; podíamos ouvir pessoas lá fora. Nós nos vestimos em silêncio e nos arrastamos para fora. Estava escuro e não podíamos ver bem, mas havia muitas pessoas que não eram do nosso vilarejo; nós sabíamos que tínhamos que fugir. Usamos as casas como cobertura, nos escondemos atrás das coisas para não sermos vistos, depois corremos. Corremos para muito longe e encontramos lugares onde nos esconder. Quando olhamos para o vilarejo, vimos o fogo. Decidimos ficar onde estávamos até cedo na manhã seguinte e, então, voltamos. Quando chegamos lá, muitas de nossas casas haviam desaparecido – elas haviam sido queimadas, inclusive a minha casa. Todas as nossas vacas e cabras também foram embora. Um policial veio para ver o que havia acontecido. Ele olhou em volta, viu o dano, e então foi embora.

Por muito tempo depois disso, moramos em tendas nos arredores. Demorou quase dois anos para reconstruir tudo. Logo depois que nossas casas foram queimadas, alguns soldados vieram falar conosco. Eles nos falaram que nós poderíamos ficar e viver aqui, mas que nós não poderíamos ir a qualquer outro lugar. Alguns soldados permaneceram por muito tempo controlando a área e, mais de um ano depois, a polícia montou um posto de controle.

Não há oportunidades reais de emprego aqui; quase não há peixes para pescar. Porque há muito pouco comércio, não podemos comprar as coisas que queremos. Só podemos comprar coisas como peixe ou camarão, embora às vezes as pessoas dos vilarejos vizinhos de Rakhine venham e nos vendam comida. As pessoas aqui estão tristes, estão frustradas porque não podem ir a lugar algum ou fazer mais nada. Nós mantemos a nossa frustração reprimida porque não podemos falar – não há oportunidades para isso. Não podemos nem viajar para a cidade mais próxima, então as pessoas mantêm tudo preso, reprimido. Há um acampamento aqui também, ao lado do vilarejo. Muitos muçulmanos rohingyas de diferentes vilarejos vivem aqui agora. Como há pessoas de muitos vilarejos diferentes morando aqui agora, há algumas tensões – às vezes há agressão e até mesmo violência sexual entre comunidades. As pessoas vivem muito próximas umas das outras, sem muito espaço.

Os rohingyas são como outras etnias em Mianmar: nós só queremos viver aqui. Nós só queremos a nossa liberdade, ter nossos próprios meios de subsistência e dormir à noite sem preocupação. O longyi (um pedaço de pano usado por mulheres e homens em Mianmar) é um símbolo de Mianmar, e todas as etnias de Mianmar têm seu próprio padrão, mas nós não. Nós usamos o longyi, mas não temos nenhum padrão. Nós não possuímos nada. Eu gostaria que as pessoas olhassem para nós e nos vissem por quem somos. Eu só quero que as pessoas saibam quem são os rohingyas.”

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