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México: a vida continua estagnada para as 43 famílias de Ayotzinapa

27/03/2015
Desde outubro, MSF tem oferecido apoio psicológico para famílias e colegas dos 43 estudantes desaparecidos de escola

Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF

A área de lazer está deserta de pessoas. Ainda restam algumas estantes, algumas mesas, os cartazes de protesto, a placa de serigrafia, o altar homenageando estudantes que faleceram, os 43 lugares ocupados apenas pelas fotos dos estudantes desaparecidos. Uma árvore de Natal continua montada, também suspensa no tempo, decorada com pedaços de papel, fotos e mensagens das crianças, irmãos, cônjuges, parceiros e primos dos estudantes desparecidos na noite infame de 26 de setembro. Há seis meses, não se tem notícias dos 43 jovens estudantes da Escola Rural de Treinamento de Professores de Ayotzinapa em Tixtla (Guerrero), após eles terem sido agredidos pela polícia local, na cidade vizinha de Iguala. Desde então, suas famílias não pararam de procurá-los, sem perder a esperança de que estão vivos e se recusando a deixar que seus filhos entrem para a longa lista de pessoas desaparecidas no México. Com a possível conivência de políticos corruptos e do crime organizado em um dos estados mais pobres do país, o caso abalou a sociedade mexicana como poucos outros, e desencadeou uma onda de solidariedade internacional às famílias e à escola.

A área de lazer está deserta, com apenas alguns pais ainda presentes, enquanto o restante está espalhado pelo país em busca apoio, fazendo com que suas demandas cheguem ao conhecimento do governo, recusando-se a dar validade à teoria do procurador-geral de que seus filhos estão mortos, tendo sido entregues pela polícia a traficantes de drogas que os assassinaram e queimaram em um aterro sanitário, e depois jogaram suas cinzas no rio. Eles exigem provas. Caso contrário, para eles, seus filhos ainda estão vivos.

 “Nós não comemos, não dormimos. Você come e imagina o que ele está comendo, como ele está, se ele está bem. Já faz um bom tempo. É muito doloroso”, explica Metodia Carrillo, de 54 anos, mãe de nove filhos, “nove, contando um que eu já perdi, Luis Angel Abarca Carrillo”. Ela diz que seu filho não queria ser professor, mas decidiu estudar na escola de Ayotzinapa para ajudar a família. “Ele sempre disse que no dia em que saísse da escola, quando começasse a trabalhar, ele nos ajudaria para que não precisássemos mais trabalhar para alimentá-los. Nós somos agricultores pobres, não temos dinheiro.” Luis Angel foi para Ayotzinapa, uma das 16 escolas de formação de professores no México, porque a educação é de graça para treinar professores destinados às áreas rurais.

Metodia Carrillo é uma das mães que os psicólogos da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) têm apoiado durante esses meses de espera, de suspensão no tempo. O projeto começou algumas semanas após o desaparecimento dos estudantes chegar às manchetes e quando mais de 2 mil parentes, amigos e estudantes se reuniram na escola. “Nós começamos o trabalho depois de conversar com os pais e decidimos distribuir kits de higiene e colchões, porque eles estavam dormindo em condições muito precárias. Também instalamos latrinas e chuveiros. E então iniciamos as atividades de apoio psicossocial, com o objetivo de ajudar os pais, parentes e colegas de classe a entenderem que as reações sintomáticas que eles podem ter – irritabilidade, insônia, exaustão física e emocional, problemas de sono, depressão – são normais em uma situação anormal, como o desaparecimento forçado de um membro da família”, diz Ivonne Zabala, coordenadora do projeto de MSF.

 “O diálogo com aqueles que foram afetados e a flexibilidade da equipe têm sido fundamentais para desenhar a estratégia de atuação das equipes de psicólogos. Apoio psicossocial precoce centrado no reforço da resiliência e da prevenção de condições psicológicas graves. Então, foi priorizada a capacidade do grupo de enfrentar a situação como mais do que uma abordagem clínica psicopatológica individual nessa fase”, diz Ivonne Zabala, acrescentando que “nossa presença contínua na escola durante esses primeiros seis meses foi necessária para analisar o processo detalhadamente e desenvolver o suporte”. A partir de abril, o apoio será menos contínuo, considerando a agenda atribulada dos pais em meio aos protestos e atividades em busca da verdade. MSF continuará em contato com as famílias e visitando a escola regularmente para monitoramento psicoterapêutico de casos específicos.

“Os pais têm passado por alguns momentos muito ruins – do desaparecimento, da incerteza, do aparecimento de notícias na imprensa que não eram a que eles gostariam de ver – mas o pior momento foi quando alguns restos humanos foram encontrados e identificados sendo os de Alexander, um dos 43 estudantes. Esse foi o pior acontecimento, porque abriu a porta para a possibilidade de que talvez os meninos não estejam vivos”, diz Ivonne Zabala.

Como na área de lazer, o tempo ainda está estagnado para as famílias dos estudantes. “Nós estamos perdendo nosso chão”, diz Delfina, cujo filho, Adán Abraján De La Cruz, deixa uma esposa e dois filhos. “Nós deixamos tudo para trás, deixamos nossas plantações, só trouxemos abóboras, mas não aguentamos mais isso.” Delfina vai todos os dias à escola com sua nora e seu neto. Ela não consegue parar de ir até lá. Ela não aceita que os desaparecimentos possam continuar sem respostas: “Deve haver uma resposta, eles não podem nos deixar assim. O governo precisa nos dizer, eles devem saber, nós vamos defender nossos filhos até o fim”. Ela também se recusa a considerar a ideia de que seu filho não está vivo. Ela personifica o slogan que se espalhou por todo o México e além desde setembro: Eles os levaram vivos, nós os queremos de volta vivos. “Eles sabem onde eles estão, o governo sabe, e nós exigimos que eles os devolvam para nós. Já faz muito tempo. Por que eles os querem? Para que eles os querem? Por que eles não nos contam?”  

Os outros estudantes da escola, a quem MSF também ofereceu seus serviços, se juntaram às petições dos pais: “Nós continuamos esperançosos de que nossos colegas estão vivos. Ainda estamos aqui, prontos e esperando por eles. Nós não vamos nos acostumar a eles não estarem aqui. Mas a cada dia que passa, temos de ter mais forças para continuar a lutar por eles, embora possamos ter de enfrentar o pior”, disse José Angel de la Cruz, de 19 anos. Ele ressalta que os estudantes vão se recusar a voltar às aulas, não importa o quanto o governo tente reabrir a escola. “Não pode ser a mesma coisa, os dias não serão os mesmos, não sabendo onde estão nossos colegas, com quem você estudou, brincou. Você vai até o quarto e as roupas deles ainda estão lá, suas camas, você não consegue acreditar que eles ainda estejam desaparecidos.” José Angel estava entre os estudantes que foram à Iguala naquela noite para conseguir os ônibus que os levariam para a capital para homenagear as vítimas de mais uma chacina, a de Tlatelolco, em 1968. A noite que terminou com três mortos, dezenas de feridos e 43 desaparecidos. Ele lembra do acontecimento com horror e atribui o incidente ao desejo do estado de fechar a escola rural “porque nós não vamos nos calar, porque estamos cansamos da pobreza e da marginalização de onde viemos.”

A área de lazer deserta, as salas de aula vazias, o tempo suspenso. Três mulheres sentam e conversam, com rostos sérios, sobre as atividades da semana, quem tem estado por onde no país, em qual comissão, para se reunir com quem. Isabel, Natividad e Socrro se apegam à ideia de que talvez seus filhos estejam retidos, sequestrados para trabalhar como escravos para... elas não sabem, mas “eles estão vivos, eles estão...”, diz Natividad, tocando seu estômago como se pudesse sentir isso em seu intestino. Socorro conta uma história comum: “Os meninos estão estudando aqui por nós, para que possamos ter alguém para cuidar de nós quando ficarmos velhas. Nós somos agricultores pobres, não temos dinheiro, queremos que eles sejam algo.” Isabel ataca a versão do governo: “Eles dizem que os detidos confessaram, mas eles dão credibilidade ao ladrão. Nós precisamos de resultados, verdade e provas.” Seu filho, “o que eu perdi”, Bernardo Flores Alcaraz, tem 21 anos. Suas credenciais foram encontradas no chão, cobertas de sangue. “Mas eles disseram que não era o sangue dele, ele não estava machucado, era o sangue de um colega.” Natividad de la Cruz, de 52 anos, explica que seu filho Emiliano, de 22 anos, estava feliz na escola: “Ele quer ajudar a família. Nós sentimos a falta dele, choramos por ele, eu não sei onde ele está, como ele está. Nós pedimos ao governo para que os devolvam para nós, eles são agricultores pobres que só querem construir suas vidas, eles são estudantes. São os que não estudam que são os vândalos. Eles só estão cuidando de suas vidas e seus trabalhos”. Natividad, e as outras mães, sempre falam de seus filhos no presente. Vidas suspensas. E agora já faz seis meses.