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México: equipes de MSF apoiam comunidades vítimas da violência em Guerrero

04/12/2020
Clínicas móveis levam serviços de saúde para pessoas que vivem isolados
México: equipes de MSF apoiam comunidades vítimas da violência em Guerrero

Foto: Yesika Ocampo/MSF

O estado de Guerrero, no sudoeste do México, enfrenta não apenas a pandemia de COVID-19, mas também uma epidemia de violência cada vez mais intensa que está afetando a saúde física e mental de milhares de pessoas.

Para aqueles que vivem em comunidades isoladas, o acesso aos serviços de saúde é muito limitado ou inexistente por causa dos confrontos entre mais de 40 grupos armados que disputam o controle do território.

Desde 2016, as clínicas móveis de MSF viajam para algumas dessas comunidades para fornecer cuidados médicos e de saúde mental. Nossas equipes atenderam centenas de famílias atingidas pela epidemia de violência que já dura vários anos em diferentes regiões do estado. Os conflitos deslocaram milhares de famílias e estão entre as principais causas da migração para os Estados Unidos.

“A violência, por ser uma epidemia, é algo que atinge diferentes comunidades, principalmente devido aos confrontos entre grupos do crime organizado que disputam o cultivo de papoula e abacate. São duas formas de renda e os grupos lutam por essa renda”, afirma Alberto Macín, gerente das atividades de saúde mental de MSF em Guerrero.

Diferentes comunidades nas montanhas de Guerrero tornaram-se campos de batalha onde as pessoas ficam presas ou são forçadas a fugir em meio ao fogo cruzado.

Alguns dias atrás, MSF ajudou pessoas que foram forçadas a deixar sua comunidade na região de Tierra Caliente no início de 2020. Em julho, no meio da pandemia de COVID-19, elas puderam retornar para reconstruir sua cidade após uma trégua entre os grupos armados.

“As pessoas agora são confrontadas principalmente com as consequências de seu deslocamento. Elas estão tendo que lidar com tudo que envolve retornar à comunidade e começar do zero”, informa Gabriela Peña, psicóloga de MSF em Guerrero.

Onelia Ayala, uma vendedora local, lembra como foi enfrentar a perda de seus familiares e seus pertences e como foi difícil para sua família reconstruir tudo. “A comunidade foi devastada, virou um depósito de lixo. Havia animais mortos, todas as casas foram abertas, saqueadas ou derrubadas. Havia poças de sangue na lagoa”, conta.

Diante de tamanha violência, as consequências para a população não são apenas físicas e não se manifestam apenas na destruição de casas e da infraestrutura comunitária. Algumas famílias sofreram a perda de entes queridos no conflito.

Estima-se que 70% da população conseguiu retornar, enquanto o restante permaneceu em outros estados próximos, como Morelos, ou buscou asilo nos Estados Unidos. "Acho que é improvável que eles voltem", acredita Onelia. "No caso do meu irmão, ele não quer. A situação o aborrece muito."

Omar Rojas, um professor de segundo grau, diz que vários de seus alunos foram embora, alguns para buscar asilo nos Estados Unidos. “Outros foram para a Cidade do México.”

Embora Guerrero, como o restante do país, tenha sido afetado pela pandemia de COVID-19, as comunidades rurais mais isoladas visitadas por MSF não tiveram nenhum caso detectado. No entanto, nossas equipes tomam cuidados extremos para evitar o contágio e treinam os profissionais dos centros de saúde e o público em geral sobre medidas de proteção, como uso de máscara facial e lavagem das mãos.

“Para se proteger da COVID, essa comunidade fechou suas fronteiras no início da pandemia”, avalia Bonnie Vera, médica de MSF, que atua em um vilarejo que sofre os efeitos da violência em Costa Grande. “Tivemos que repensar nossa entrada nas comunidades e, a partir de agosto deste ano, retomamos o atendimento por meio de clínicas móveis, tomando todas as medidas necessárias para evitar o contágio”.

Durante os últimos anos, os serviços médicos e psicológicos das clínicas móveis de MSF têm sido a única opção para as pessoas receberem tratamento, embora sua saúde física e mental tenha sido muito afetada.

“O posto de saúde está fechado há dois anos e dois meses”, diz Pablo Costilla, agricultor e líder comunitário. “Se, por exemplo, as mulheres vão dar à luz aqui, tem uma parteira que cuida delas e, felizmente, estão bem até agora. Mas se houver complicações, é arriscado, porque daqui são quatro ou cinco horas para chegar à cidade.”

Além da falta de atendimento médico, as pessoas vivem em constante medo. “As comunidades vizinhas foram abandonadas e muitos tiveram que migrar para os Estados Unidos em busca de asilo político”, salienta Narciso Torres, líder comunitário e defensor ambiental. "Muitas pessoas foram porque eram ameaçadas. Às vezes, ficamos calmos, às vezes ficamos inquietos e desconfiados, com medo e temerosos."

A necessidade de cuidados de saúde mental nessas comunidades é imensa. “Imagine o impacto sobre a população de ser obrigada a viver isolada, incapaz de se mover livremente e em um estado de hipervigilância”, analisa Macín. “Nesta comunidade, há um grande número de crianças que não tiveram professores. Elas são brilhantes, crianças ativas, brincando e se divertindo, mas sem educação e vivendo em constante medo de não poderem deixar sua comunidade porque também estão em risco.”

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