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"Mesmo na Turquia, sírios ainda são assombrados pela guerra"

15/03/2017
Os benefícios das sessões de saúde mental oferecidas por equipes de MSF

Uma mulher adentra o jardim ensolarado de uma casa antiga em Kilis, no sul da Turquia, para nos receber, pedindo a seu filho que limpe um conjunto de cadeiras de plástico com um pano para nos sentarmos. Seu nome é Loubna* e, durante os 30 minutos seguintes, ela compartilhou suas reflexões sobre a vida como refugiada síria com dois agentes comunitários de saúde mental, enquanto seu filho caçula brincava de esconde-esconde atrás dela. Ele parecia curioso com a presença de estranhos em sua casa, e um pouco apreensivo. Os agentes comunitários são parte de uma equipe de dez pessoas que visitam os sírios diariamente em suas casas e também em espaços públicos para oferecer primeiros socorros psicossociais e identificar aqueles que precisam de acompanhamento psicológico.

Coordenadora de MSF conversa com família refugiada síria em campo de trânsito, em Akcakale, no sudeste da Turquia (Foto: Diala Ghassan/MSF)Muitas das pessoas que atendemos chegaram à Turquia muitos anos atrás. A sensação de insegurança aguda diminuiu, mas ainda há uma miríade de fatores que afetam sua saúde mental. Primeiramente, a proximidade com a Síria, tanto literal como emocionalmente. Aqui em Kilis, a apenas alguns quilômetros da fronteira, é possível ver a Síria através das montanhas e, algumas vezes, dá até para ouvir o som distante dos bombardeios. Os vínculos emocionais com o país são ainda mais difíceis de lidar. Todos aqui têm família ou amigos ainda na Síria, e não têm notícias de alguns deles há tempos. Outros os abastecem regularmente com histórias angustiantes da vida cotidiana em um país ainda em guerra.

E então, há os desafios de se viver em um país estrangeiro. A população de Kilis atualmente é formada por um número quase que semelhante de sírios e turcos. No entanto, para muitos refugiados sírios, adaptar-se a um país que não é o seu próprio continua demandando grande esforço. É como nos diz Loubna, tomando seu café, “é difícil ser um estranho, sem trabalho, sem casa própria e sem família por perto.” Ela dorme mal. Antes muito sociável, ela agora evita o contato com outras pessoas. Ela vive com seus quatro filhos e cunhada em uma casa bastante básica. Quando o sol está brilhando, o jardim é bastante convidativo, mas as lonas plásticas sobre as janelas lembram o inverno gelado que a família acaba de enfrentar. As condições de vida podem também representar ainda mais tensão. As casas que visitamos variam entre o relativamente confortável e garagens convertidas em morada. Com luz limitada e pouca privacidade, não surpreende que o bem-estar mental dos refugiados esteja sendo prejudicado.

De alguma forma, sempre me sinto desconfortável ao adentrar os espaços privados para acompanhar nossos agentes comunitários, mas tenho sido agradavelmente surpreendida pelo fato de as pessoas não parecerem se importar com a presença de um estrangeiro. Durante as visitas que fazemos de dia, normalmente encontramos mulheres e crianças em casa, ansiosos para falar conosco e compartilhar suas experiências. Eles nos oferecem intermináveis rodadas de café ou chá e eu sempre me impressiono ao observar a rapidez de nossos colegas, que são eles também sírios, em ganhar a confiança dessas pessoas que visitamos.

Uma garota de 10 anos de idade nos disse que ama sua professora e que gostaria de ela própria se tornar uma. Sua mãe começou um choro silencioso. Fatima* explicou que considera a educação a ferramenta mais importante para o futuro de uma criança, mas diz que se preocupa constantemente com as dificuldades financeiras que podem levá-la a tirar seus filhos da escola e colocá-los para trabalhar. Esse é apenas um exemplo de como crianças, mesmo aquelas que quase não se lembram de seu país de origem, são afetadas pela guerra. Loubna menciona que as brincadeiras das crianças foram mudando com o tempo e que, agora, tendem a envolver armas de fogo e aviões de guerra, reflexo do que passaram a considerar sua vida diária.

Na medida em que todo sírio nesta cidade tem uma história triste para contar, também impressiona observar sua resiliência. Mesmo que ela pense não ser capaz de retornar à Síria, Loubna mantém suas esperanças no futuro, e continua agradecida pelo fato de que sua família está segura e encontrou refúgio na Turquia. Fatima sorria quando deixamos sua casa, e agradeceu aos agentes comunitários a oportunidade de compartilhar seus pensamentos e medos, dizendo que sente como se um peso tivesse sido retirado de seu peito.

*nomes foram alterados

MSF apoia a ONG turca chamada Assembleia dos Cidadãos, em Kilis, desde 2013. Além do suporte de saúde mental e psicossocial, MSF também administra uma clínica que oferece cuidados de saúde primária às pessoas que fugiram da Síria.