“Mesmo em meio às ruínas, mora a resiliência que mantém o Sudão vivo”

Em Histórias de MSF, Suha Diab, coordenadora de advocacy, reflete sobre a devastação das cidades no Sudão, enquanto civis seguem presos entre violência, fome e doenças

Acampamento de Al-Mina Al-Muwahad, em El Obeid, que acolhe famílias deslocadas pela guerra. Sudão. ©Julie David de Lossy/MSF

O que você vai ler:   

  • Como a guerra no Sudão está transformando a vida cotidiana e forçando milhões de pessoas a deixar suas casas; 
  • O colapso do sistema de saúde e o avanço de doenças e da fome; 
  • Apelo a uma resposta internacional coordenada, que segue tardia enquanto civis continuam em risco. 

 

No verão passado, quando Médicos Sem Fronteiras (MSF) me perguntou se eu estava interessada em voltar ao Sudão, eu disse que sim, sem hesitar.  

Eu havia morado e trabalhado no Sudão durante um projeto anterior com MSF, de setembro de 2021 a março de 2023. Este tempo foi suficiente para me familiarizar com Cartum, capital do país, e as senhoras do chá, os vendedores de falafel, as conversas noturnas nos telhados após o trabalho. Era uma cidade que havia conquistado meu coração discretamente, até que me senti em casa. 

Quando terminei meu trabalho no Sudão, em 31 de março de 2023, deixei uma mala no apartamento onde fiquei hospedada por MSF em Cartum, esperando que ela fosse enviada para mim logo em seguida. Dentro dela havia duas coisas que me eram queridas: um lenço azul-índigo da Índia que uma amiga querida me dera anos antes, e que eu usava em todas as visitas de projeto, e uma bolsa de couro marrom com estampa em preto e branco — um presente de despedida dado por minha equipe sudanesa.  

A guerra, que eclodiu inesperadamente para muitos de nós em abril de 2023, mudou tudo. As suposições de que a vida continuaria como antes desapareceram da noite para o dia. 

De acordo com a Organização Mundial das Migrações (OIM), quase 12 milhões de pessoas foram deslocadas internamente em todo o Sudão, um número aproximadamente igual a um terço da população do Canadá. Cerca de 4 milhões foram forçados a cruzar as fronteiras, enquanto outras milhões vivem em condições precárias, expostas a doenças evitáveis, mas mortais.

O que começou como uma luta pelo poder rapidamente se transformou em uma guerra contra civis. Agora, o conflito está marcado por cerco, ataques com drones, fome e a destruição sistemática de serviços essenciais.  

Quase todos que fugiram de Cartum voltaram mais tarde e encontraram suas casas saqueadas; alguns não acharam nada além de paredes vazias. 

Abrigos improvisados feitos de galhos, tecido, plástico e palha no acampamento para pessoas deslocadas internas em Feina, localizada em Darfur do Sul, no Sudão. ©Julie Melichar

Quando cheguei a Porto Sudão, em 3 de junho de 2025, a cidade parecia ao mesmo tempo familiar e estranha. O calor era sufocante, o ar pesado — nada parecido com Cartum. Mas entre a equipe havia alguns rostos conhecidos da minha passagem anterior pelo Sudão, pessoas cujas vidas haviam mudado drasticamente nos dois anos desde a última vez que as vi. Quase todas elas haviam sido deslocadas durante os ataques a Cartum e outras grandes cidades em 2023 e 2024. Muitas haviam levado suas famílias para países vizinhos.

As histórias que me contaram eram angustiantes: fugir sob tiros, negociar a passagem em postos de controle, sussurrar despedidas apressadas ou arriscar travessias perigosas para levar seus entes queridos para um lugar seguro.”

– Suha Diab, coordenadora de advocacy

 

Algumas pessoas foram espancadas, intimidadas, interrogadas ou até mesmo presas, não por nada que tivessem feito, mas porque eram suspeitas de apoiar um dos lados do conflito, simplesmente por fazerem seu trabalho como equipe médica.

De motoristas a médicos, ninguém foi poupado. Cada história carregava seu próprio peso de coragem, perda e exaustão.

 

Leia também: 

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Algumas semanas depois, em meados de junho de 2025, viajei para Cartum com um colega. Nossa primeira parada, Omdurmã, parecia quase estável. Mas atravessar a ponte na manhã seguinte mudou tudo. Cartum estava irreconhecível. Deparei-me com uma cidade devastada pela guerra.

Carros queimados bloqueavam as ruas, prédios estavam atravessados de balas e bairros inteiros permaneciam em silêncio. Lugares que eu conhecia, como Afra Mall, Riyad e Cartum, estavam destruídos, irreconhecíveis. Até mesmo os gatos e cães de rua haviam desaparecido.

Mais de 1 milhão dpessoas retornaram ao estado de Cartum, mavoltaram para uma cidade com pouco para onde voltar.

Os sistemas de água estão contaminados, as ruas repletas de munições não detonadas, mercados queimados e quase nenhum serviço de saúde em funcionamento.

 

Um sistema de saúde devastado pela guerra

Os hospitais que antes formavam a espinha dorsal do sistema de saúde foram destruídos, ocupados ou abandonados.

O cólera, a dengue, o sarampo e a malária continuam se espalhando em ciclos, alimentados pelo deslocamento, pela falta de água potável e pela degradação do monitoramento de doenças.

A fome aguda aumentou, hoje mais de 20 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar em nível de crise. O sistema de saúde do país, já frágil antes da guerra, entrou em colapso. Sua reconstrução levará anos.

Ala de emergência do Hospital Al Nao, apoiado por MSF, em Omdurman, no estado de Cartum, no Sudão. ©Tom Casey

Doze dias após a tomada da cidade de El Fasher, em 28 de outubro de 2025, deixei o Sudão novamente, com o coração pesado. Relatos de massacres, acampamentos de pessoas deslocadas incendiados e execuções de civis continuavam a surgir.

Atrocidades se desenrolavam em tempo real, recebidas com silêncio e declarações de preocupação repetidas.  

É impressionante o quão pouco aprendemos com nossa própria história com que frequência o mundo espera até que as atrocidades sejam inegáveisaté que seja tarde demais para agir e, entãoresponda com relutância, se é que responde.  

À medida que os combates se espalham por Kordofan, os civis estão mais uma vez presos entre ataques de drones, cerco, doenças e fome. 

Nunca encontrei minha bolsa. Entre riscos de contaminação [de contrair doenças que se espalharam devido às condições atuais] e restrições administrativas, voltar ao antigo apartamento de MSF era impossível.  

Alguns dos meus colegas internacionais brincavam comigo, dizendo que provavelmente viram meu lenço azul “voando por aí” no mercado de bens roubados de Cartum — um espaço extenso onde pertences saqueados, de geladeiras a roupas infantis, eram vendidos abertamente durante a guerra.  

Meus colegas sudaneses, porém, me incentivaram a manter a esperança — não por ingenuidade, mas porque queriam sinceramente que eu a encontrasse e acreditavam que ainda poderia haver uma chance, por menor que fosse. 

Gosto de pensar que eles estão certos. Porque nessa insistência silenciosa na esperança, mesmo em meio às ruínas, reside a resiliência que mantém o Sudão vivo. E talvez, apenas talvez, essa guerra possa acabar — se aqueles com o poder de detê-la realmente quisessem, os mesmos atores cujas armas, financiamento e silêncio a mantêm viva. 

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