Médicos Sem Fronteiras quer ser ouvida no STF em ação sobre pesquisas com seres humanos

Organização pede ingresso como amicus curiae no processo para defender direitos de participantes, fortalecimento da ética em pesquisa e repartição de benefícios diante da nova lei

Médicos Sem Fronteiras Brasil (MSF-Brasil) protocolou, na última sexta-feira (30/01), uma petição para atuar como amicus curiae no Supremo Tribunal Federal (STF), na ação proposta pela Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) que questiona a constitucionalidade de dispositivos da nova lei sobre pesquisas com seres humanos. O amicus curiae (“amigo da corte”) é uma terceira parte que intervém em processos judiciais para auxiliar o tribunal, oferecendo conhecimento técnico ou experiência sobre o tema em análise. 

A organização sustenta que a lei 14.874, de 2024, representa um retrocesso aos direitos dos participantes de pesquisas clínicas, pois restringe o acesso a novos medicamentos e tecnologias médicas após o término do estudo. O texto legal também fragiliza o controle ético e público e a participação social, ao transferir a decisão sobre a continuidade do tratamento dos pacientes para atores com potencial conflito de interesses, como o patrocinador da pesquisa (geralmente a indústria farmacêutica). 

A norma ainda enfraquece a governança pública do sistema de pesquisa. Isso inclui o papel histórico da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), vinculada ao Conselho Nacional de Saúde, como salvaguarda pública para prevenir abusos e conflitos de interesses em nome da ciência e do mercado — erodindo a confiança que sustenta a própria pesquisa. 

MSF também destaca que o debate ocorre em um contexto internacional em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou recentemente o Acordo sobre Preparação, Prevenção e Resposta a Pandemias, reforçando compromissos de equidade e de repartição de benefícios da pesquisa — isto é, a garantia de que os resultados retornem para as pessoas e as comunidades que contribuíram para seu desenvolvimento.  

Nesse cenário, retrocessos em proteção ética e em acesso pós-pesquisa sinalizam um caminho incompatível com a centralidade dos participantes — e comprometem o papel do Brasil como referência internacional em ética em pesquisa num momento em que outros países buscam parâmetros para implementar compromissos globais de equidade e repartição de benefícios. 

MSF-Brasil não é um observador: como organização médico-humanitária, vivencia o descompasso entre a inovação e o acesso.

– Rachel Soeiro, diretora do Hub das Américas de Médicos Sem Fronteiras Acesso.  

“Por isso, buscamos contribuir com o debate no STF, que envolve direitos, confiança pública, conflitos de interesses e o exemplo que o Brasil projeta num momento em que a OMS reforçou compromissos internacionais sobre equidade e repartição de benefícios da pesquisa” continua, Rachel Soeiro.

No pedido ao STF, MSF-Brasil requer a declaração de inconstitucionalidade dos dispositivos que restringem o acesso pós-pesquisa e enfraquecem a governança pública e a participação social. A organização também pede ao tribunal que reafirme que a pesquisa científica deve estar a serviço da vida, da dignidade humana e do interesse público, de acordo com os princípios constitucionais que norteiam o Sistema Único de Saúde (SUS). 

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