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Médicos Sem Fronteiras oferece atendimento de emergência no Complexo do Alemão

06/03/2008
Desde outubro de 2007, MSF oferece cuidados de emergência e de saúde mental aos moradores da comunidade

 Formado por 11 comunidades desfavorecidas, o Complexo do Alemão é uma região conhecida pelos confrontos regulares entre os grupos armados locais e a polícia do Rio de Janeiro. Estima-se que 150 mil pessoas vivam no local, em meio à violência. Desde outubro de 2007, Médicos Sem Fronteiras (MSF) oferece cuidados de emergência e de saúde mental aos moradores da comunidade.

"Nós visitamos o Complexo do Alemão e descobrimos que, devido à situação de violência, havia problemas no acesso a cuidados de saúde e psicológicos de qualidade para os moradores locais, especialmente durante os confrontos", afirma Alberto Cristina, chefe de missão de MSF no Brasil. "Uma vez que as principais necessidades foram identificadas, decidimos abrir um atendimento de emergência".

MSF mantém uma unidade de emergência na comunidade da Fazendinha, localizada no centro do complexo. No local, são oferecidos quatro principais serviços: emergência, cuidados de saúde mental, transferências e orientação para pacientes que não se enquadram no critério de admissão de MSF.

Sônia está em casa. Ela tem 40 anos e sofre de problemas cardíacos. Depois de duas horas de tiroteio ininterrupto perto da sua casa, ela começa a se sentir mal. Não consegue respirar direito e sente palpitações. Quando os confrontos ocorrem, os meios de transporte param de funcionar e por isso Sônia não tem como sair de casa. Seu irmão decide ir até à unidade de emergência de MSF.

Imediatamente, o carro de MSF parte para buscar Sônia em casa. Quando ela chega à unidade de MSF, recebe um código vermelho. Seu eletrocardiograma mostra uma séria arritmia. Graças à desfibrilação realizada pela equipe de MSF, seu batimento cardíaco regular é restabelecido. Com o estado de saúde estável, Sônia é atendida então pela psicóloga. Se quiser, ela pode voltar à unidade de MSF para discutir maneiras de lidar melhor com a ansiedade. No fim do dia, a calma é restabelecida na região e Sônia é transferida para um hospital, a 20 minutos de distância do Complexo do Alemão.

Além do serviço de emergência, MSF oferece apoio psicológico para as pessoas que, como Sônia, têm suas vidas afetadas pela violência. É o caso de Maria, uma das vítimas diretas de um confronto ocorrido há alguns meses. Durante o confronto, muitas crianças foram feridas e Maria foi uma delas. Ela foi transferida para o hospital, onde passou por três operações. Hoje, está recuperada de seus ferimentos físicos, mas não dos psicológicos. Maria é atendida regularmente por uma psicóloga de MSF.

"Em fevereiro, nós atendemos 776 pacientes. Um dos objetivos do nosso projeto é reduzir o tempo entre o trauma e a hospitalização", explica Gianfranco De Maio, supervisor médico de MSF no Brasil. "Nós precisamos tratar o paciente durante os primeiros 60 minutos após a ocorrência da lesão. Eu lembro de um paciente que foi atendido por nossa equipe, um homem ferido a balas. Ele chegou na unidade de emergência gravemente ferido, foi estabilizado e depois transferido para um hospital de referência".

A equipe de MSF implementou várias técnicas, como o apoio avançado para traumas, estabelecendo uma triagem eficiente para poder identificar rapidamente as necessidades dos pacientes.

Desde o início das atividades, MSF já atendeu quase 3 mil pessoas, a maioria delas com ferimentos devido a episódios de violência ou causados acidentalmente, com infecções respiratórias, casos de suspeita de dengue, entre outros. Todos foram atendidos na unidade antes de serem tratados ou transferidos para estruturas médicas públicas.
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MSF está presente no Brasil desde 1991. Além das atividades no Complexo do Alemão, MSF tem um projeto de diagnóstico de Chagas na região amazônica junto com a Fundação Oswaldo Cruz, e oferece ainda capacitação para profissionais de saúde que atuam em contextos de vulnerabilidade social. Em 2007, mais de 600 profissionais do Programa de Saúde da Família do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e outras municipalidades passaram pelo treinamento.