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Médicos Sem Fronteiras denuncia morte de profissional de saúde e de civis no sul do Sudão

15/02/2002
“O que está acontecendo no oeste do Nilo superior é inaceitável. O sofrimento humano cresce diariamente”, diz um porta-voz de MSF

Um profissional de saúde da organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) foi morto na última semana junto com outros quatro civis sudaneses. James Koang Mar, de 20 anos, e as outras quatro pessoas morreram quando pelo menos três bombas foram lançadas pelo governo do Sudão na vila de Nimne, no sul do país. Uma equipe de MSF visitou Nimne na sexta-feira e recebeu a confirmação da morte de James Koang no ataque.

“Nós estamos chocados por estas notícias terríveis”, disse o coordenador de projeto de MSF Jan Van’t Pousam, que visitou Nimne. “James trabalhou na unidade de atenção primária à saúde em Nimne. Ele havia se casado recentemente e seu bebê recém-nascido agora está órfão. É uma tragédia para sua família, para MSF e para a comunidade, que não pode perder um profissional de saúde”.

MSF denuncia fortemente este ato de violência contra civis e profissionais de assistência à saúde. “O que está acontecendo no Nilo é inaceitável”, disse Arjan Hehenkamp, chefe de missão de MSF no sul do Sudão. “O sofrimento humano cresce diariamente. Nimne está abandonada no momento. Nós nem mesmo sabemos para onde foram nossos pacientes, e um jovem profissional de saúde foi morto, numa violação total das leis de guerra.”

O bombardeio foi depois do recente saque da aldeia de Nimne por soldados milicianos, no começo de fevereiro. A equipe de MSF e a comunidade de Nimne conseguiram escapar logo antes de os soldados chegaram na vila. Centenas fugiram para Bentiu e outras áreas na região. Algumas pessoas, inclusive James Koang, de MSF, retornaram vários dias depois para Nimne onde Koang foi morto pelas bombas que caíram no dia 9 de fevereiro.

O ataque a Nimne aconteceu nos mesmos dias em que aviões do governo do Sudão bombardearam Akuem, no estado de Bahr al-Ghazal, sul do país, horas depois de uma entrega por pára-quedas de alimentos pelo Programa Alimentar Mundial (PAM), da ONU. Os bombardeios a Akuem resultaram na morte de duas crianças e em uma dúzia de outros feridos.

Essas recentes mortes são outro episódio do sofrimento contínuo da população do oeste do Nilo superior. As lutas de grupos milicianos aliados tanto das forças rebeldes quanto do governo varreram a região nos últimos três anos e causaram repetidos deslocamentos, mortes e sofrimento humanitário. Instalações de saúde e outros serviços providos por agências humanitárias deixaram de existir em muitas áreas devido à insegurança.

Nimne fica no coração do conflito sudanês, há apenas 50 milhas dos disputados campos de petróleo no sul do país. Antes dos ataques, MSF estava provendo cuidado médico primário com aproximadamente duas mil consultas por mês, além do tratamento para o kalazar, uma doença degenerativa que é fatal se não tratada.

No momento, 107 pacientes de kalazar e dois pacientes de meningite estão desaparecidos na região. Seus tratamentos foram interrompidos pelos ataques.