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Médico brasileiro atua em crise alimentar na Etiópia

18/09/2008
Coordenador da Unidade Médica de MSF no Brasil, David de Souza atuou na intervenção de emergência para combater a desnutrição

Desde maio, Médicos Sem Fronteiras mantém vários projetos no Sul da Etiópia para conter uma grave crise alimentar. Mais de 24 mil pessoas gravemente desnutridas já passaram pelos programas de nutrição de MSF, montados em Oromiya e nas regiões Populares Nacionais e Nações do Sul (SNNP, na sigla em inglês).

Durante quase dois meses, o médico carioca David de Souza acompanhou o trabalho das equipes nos centros de nutrição. "Todos os dias, centenas de pessoas faziam filas para poder conseguir atendimento", lembra Souza, coordenador da Unidade Médica de MSF no Brasil. Em entrevista, ele fala sobre a intervenção.

Como funcionam os programas de nutrição de MSF na Etiópia?
David de Souza – Como era uma situação de emergência, no início apenas as gravementedesnutridas podiam ser admitidas no programa. O que nos trazia uma situação difícil, porque havia muitas crianças moderadamente desnutridas que tínhamos que recursar. É muito difícil dizer para uma mãe que se filho não entrou no critério de admissão no programa. Depois, criamos centro de alimentação suplementar, para crianças desnutridas, mas que ainda tinham forças para comer, e por fim programas de nutrição para as moderadamente desnutridas.

Quantas pessoas MSF atende por dia em média?
Souza – Contando todos os centros de nutrição, são cerca de cinco mil atendimentos por dia. Algumas vezes havia mais de mil pessoas esperando para serem atendidas antes de começarmos os trabalhos pela manhã.

Essa não é a primeira crise alimentar enfrentada pelo país. O que a diferencia das outras?
Souza - Ela é mais fragmentada, menor. O que não significa que não mereça atenção, afinal as conseqüências para as pessoas que a vivem são as mesmas. Em 20 dias, uma OTP, centro de saúde onde são atendidas as pessoas severamente desnutridas, pode não receber mais tantos pacientes e outra pode começar a lotar. Em alguns lugares, os desnutridos chegam a 30% ou 40% da população. Isso acontece por causa das variações climáticas e condições de agricultura que podem mudar a situação de um lugar e piorar a de outro em um curto período de tempo.

O que mais te chama a atenção nessa crise?
Souza – O que mais me espanta é o quanto ela é silenciosa.

Que tipo de problemas você enfrentava no dia-a-dia?
Souza - A triagem é muito complicada. Como as famílias das crianças que entram nos programas ganham uma ajuda alimentar, muitas pessoas faziam de tudo para conseguir que seus filhos fosse admitidos. Algumas provocam edemas propositalmente, que são sinal de déficit protéico, outras pessoas até alugaram crianças extremamente desnutridas. Essas crianças circulam com diversas famílias pelas unidades de atendimento de MSF, sendo obrigadas a andar quilômetros, muitas vezes descalças e com frio.

Como você descobriu isso?
Souza - O edema dá pra ver que foi induzido, por picadas de abelha ou colocando partes do corpo em água fervendo. As crianças eu descobri porque percorria muitas unidades de atendimento e tirava fotos delas. Acabei percebendo que já tinha visto algumas em outras unidades.

Você circulou por várias unidades de atendimento. Como foi isso?
Souza - As estradas são muito ruins e muitas vezes tivemos que desatolar o carro da lama. Algumas comunidades são de difícil acesso. Levávamos horas de carro, dependendo de onde estivéssemos, e caminhávamos ainda por cerca de uma hora para chegar a esses pacientes.