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Médica de MSF relata as dificuldades de combater surto de sarampo na RCA

26/08/2020
Apenas 60% das crianças recebem a primeira dose da vacina contra a doença no país
 Médica de MSF relata as dificuldades de combater surto de sarampo na RCA

Foto: James Oatway/MSF

Na foto que ilustra esse depoimento, a médica de MSF Anna-Clara Ivarsson atende uma criança com sarampo no Hospital de Bossangoa, na República Centro-Africana (RCA). Era março de 2020 e a região, o epicentro do surto da doença no país. No texto abaixo, Anna-Clara relata como o número de casos foi aumentando dramaticamente com o passar dos dias e destaca a felicidade de ter visto uma criança de 2 anos de idade se recuperar e voltar para casa:

“Tudo começou logo após o Natal, quando Merveille, de 2 anos, chegou ao nosso hospital.
Ela vinha se sentindo cansada há alguns dias, com tosse, febre e conjuntivite - uma infecção ocular que às vezes está associada a doenças virais.
Ela também tinha erupções na pele e a pele do rosto e dos braços estava inchada.

A parte segura

Trabalho com MSF na República Centro-Africana. No início deste ano, um surto de sarampo ocorreu em outra parte do país, embora a princípio parecesse improvável que se espalharia para onde estamos.
Nesta parte do país, há muitos anos não acontecia um grande surto da doença. E então, a pequena Marveille chegou tão fraca nos braços da mãe. Por segurança, nós a isolamos dos outros pacientes. O sarampo é extremamente contagioso e pode ser fatal, especialmente para crianças.

Em busca de respostas para os sintomas de Merveille, pegamos algumas amostras e as encaminhamos para nosso laboratório em Bangui, capital do país. Infelizmente, a obtenção dos resultados costuma demorar um pouco, por isso não tivemos uma confirmação imediata.

Uma preocupação crescente

Nos dias seguintes, chegaram mais alguns pacientes com sintomas semelhantes.

As crianças com suspeita de sarampo tiveram que ser isoladas todas juntas, em um prédio separado.

Ao mesmo tempo, nossa equipe móvel, viajando para apoiar os postos de saúde nas aldeias ao redor de Bossangoa, foi informada de que um número incomum de crianças estava adoecendo.

A notícia não foi nada animadora.

Epidemia

Uma noite, cerca de uma semana depois, eu estava de plantão no hospital. E de repente eu vi que tanto o pronto-socorro quanto a área de consulta médica estavam totalmente ocupados.

A maioria das pessoas era formada por pais que vinham de aldeias vizinhas: muitos deles haviam viajado várias horas de mototáxi para nos trazer seus filhos doentes.

Lembro que naquele momento só conseguia pensar: "Alguém nos ajude, estamos em uma epidemia!"

No prédio de isolamento, todas as nossas camas já estavam ocupadas. Começamos a ter que colocar duas crianças em cada uma delas. Apesar da gravidade da situação, fiquei muito impressionada com a rapidez com que meus colegas locais se adaptaram às circunstâncias. Minha maior preocupação naquele momento de saturação era que os pacientes se sentissem o mais confortáveis possível e que meus colegas pudessem trabalhar com segurança.

Uma onda de pacientes

Mais e mais gente ia chegando, e depois de alguns dias o gotejar das crianças cansadas, tossindo, com os olhos inchados e a pele manchada, tornou-se uma verdadeira onda.

Uma média de 50 pais com seus respectivos filhos iam todos os dias para encontrar nossas equipes móveis em cada um dos postos de saúde que visitamos nos vilarejos. Em um deles, fomos informados de que 17 crianças haviam morrido. Em outro, os falecidos eram nove. E mesmo as famílias que conseguiam chegar sozinhas ao hospital em Bossangoa, muitas vezes o faziam tarde demais, com os filhos em estado de gravidade irreversível.

Um risco ainda maior

O sistema de saúde na República Centro-Africana é incrivelmente fraco. Segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas cerca de 60% das crianças recebem a primeira dose da vacina aos 9 meses de idade. E, infelizmente, nenhuma outra dose é administrada depois. O sistema nacional de saúde não o contempla.

Como resultado desta situação, uma grande proporção de crianças é suscetível ao vírus do sarampo, e as que já estão debilitadas pela desnutrição e malária correm um risco ainda maior de adoecer.

Cem crianças por dia

A epidemia ainda está em andamento, mas felizmente as coisas estão muito mais calmas agora. Por várias semanas, recebemos até cem crianças por dia em nosso pronto-socorro. Quase não tivemos uma pausa desde o início do ano.

Estamos cientes de que a única coisa que pode deter uma epidemia como esta são as vacinas, mas os recursos locais existentes para realizar campanhas massivas são escassos. Há alguns meses, conseguimos realizar uma grande campanha ao norte de onde estou e, na semana seguinte, realizamos outra em nosso distrito. Os efeitos começaram a ser sentidos quase imediatamente e hoje, graças a essas ações, a carga sobre o nosso hospital finalmente começou a diminuir.

Uma injeção simples

Você não pode imaginar como é bom ver que cada vez menos crianças desidratadas com olhos cheios de sangue chegam ao nosso hospital.
E embora seja verdade que uma campanha de vacinação exija muito trabalho e planejamento, é muito motivador ver como é fácil proteger as crianças desta terrível doença: basta uma injeção simples para evitar o contágio.

Pronta para ir para casa

Merveille se tornou um de nossos primeiros casos confirmados de sarampo. Ela ficou internada no hospital por quase uma semana, recebendo atenção médica enquanto seu corpo lutava contra a doença e a pneumonia que a acompanhava.

Com o passar dos dias, recuperou sua alegria e energia. Então chegou o dia em que ela finalmente se sentiu pronta para se levantar. E então, aos poucos, ela começou a brincar e comer como de costume.

No dia em que recebeu alta, sua mãe a vestiu com um vestido branco extrafino. Elas estavam prontas para ir para casa.
Depois de vê-la chegar nos braços de sua mãe, tão fraca, foi lindo vê-la sair do hospital sozinha, com seus passos corajosos. Tivemos muitos momentos difíceis ao longo desses meses, mas esses outros momentos de alegria no final compensam tudo.

MSF gerencia atualmente os departamentos de pediatria, nutrição, unidade de terapia intensiva e emergência do Hospital Regional Bossangoa (200 leitos) e é responsável pela logística do hospital e pelo laboratório. Consultas de saúde mental também são oferecidas aos pacientes e, recentemente, MSF abriu uma pequena unidade para fornecer suporte médico e psicológico às vítimas de violência sexual (Clinique Tongolo).

Além disso, MSF apoia a assistência médica em áreas remotas no norte de Ouham. O acesso aos cuidados de saúde continua sendo um grande desafio para as populações rurais que vivem nas aldeias mais distantes. Lá, as pessoas ainda sofrem as consequências de anos de violência, instabilidade e deslocamentos, resultando agora em infraestrutura extremamente precária e falta de medicamentos e equipe médica disponíveis.

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