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Marcílio Dias: MSF busca integrar físico e mente para um melhor bem-estar da comunidade

29/03/2005
Centro de Saúde de MSF no Complexo da Maré oferece atendimentos à saúde, psicossociais e atividades sócio-educativas que contribuem para o bem-estar físico, mental e emocional da comunidade. Um espaço terapêutico para troca de experiência e integração

No centro de saúde de MSF em Marcílio Dias, Complexo da Maré, Rio de Janeiro, a assistência aos beneficiários é feita de forma integral. Por isso, além dos atendimentos de saúde, MSF oferece ainda cuidados psicossociais, e uma série de atividades sócio-educativas, tais como oficinas de artesanato, fuxico, crochê e bordado realizadas por voluntários. Estas atividades, além de serem um lazer, escasso em Marcílio Dias, Mandacaru e Kelson´s - comunidades atendidas pelo Centro de MSF -, são uma possibilidade de geração de renda. "Se analisarmos a saúde de forma integral - como um bem-estar físico, mental e emocional -, percebemos que qualquer atividade em grupo será benéfica para a comunidade, porque é um espaço de troca de experiência e integração. É um espaço terapêutico", explica Rosana Ballestero, psicóloga do Centro de Saúde e responsável pela supervisão destas atividades.

Rosana Ballestero também organiza e supervisiona um encontro com mulheres na comunidade. Esta atividade, que pode parecer uma simples recepção para amigas, tem provocado mudanças nas mulheres de Marcílio Dias, Mandacaru e Kelson´s. Os grupos estão acontecendo desde junho de 2004 e têm como objetivo provocar reflexão nas mulheres da comunidade e tentar aumentar a auto-estima de cada uma. "A informação, a troca de experiências, o contato social, tudo isso faz com que essas mulheres tenham maior acesso ao conhecimento", diz Rosana Ballestero que trabalha nos grupos, temas como mãe-mulher, mãe-adolescente, mãe-trabalhadora, mãe-avó e mãe-substituta.

"Eu não entendo porque a gente cresce aprendendo que quem cuida da casa, dos filhos e do marido é a mulher. Acho que tudo tinha que ser dividido. A gente acaba ensinando isso sem querer. Eu mesma já passei essa idéia para as minhas filhas", afirmou uma das participantes que procura não perder uma reunião. "Estes encontros são importantes porque escuto experiências de outras mulheres, que têm mais ou menos a mesma situação que eu, e aprendo com elas. Muito do que ouvi aqui vou levar pra minha casa" comenta Iara, outra mulher que participa dos grupos na comunidade.

Atendimento psicoterapêutico

Também faz parte das ações psicossociais do Centro de MSF, atendimento e acompanhamento psicoterapêutico de crianças, jovens, adultos e famílias. De acordo com Andréa Chagas, psicóloga responsável por estes atendimentos, a maior parte das consultas está relacionada a conflitos familiares. "Também atendemos alguns jovens com transtornos mentais graves”, diz Andréa. Ela conta que um destes pacientes, que recebe atendimento há um ano e dois meses, está bem. "Este paciente conseguiu retomar a vida. Voltou a estudar, estava parado há seis anos, e vai começar a trabalhar em fevereiro".

Diariamente, Andréa atende, em consultas individuais, pacientes encaminhados por profissionais do Centro, pacientes da comunidade encaminhados por outros centros de saúde e pacientes que chegam até ela por espontânea vontade. "A maioria dos atendimentos é de demanda espontânea. Existem pacientes que só vêm para o Centro de Saúde para terem atendimento psicológico" conta Andréa, que realiza, em média, 120 consultas por mês. "Em um ambulatório público, normalmente, há dificuldade de se conseguir manter um vínculo maior com o paciente. O profissional tem o desejo de manter as pessoas em atendimento, mas, muitas vezes, não é possível", completa.

Para Andréa, é fundamental a integração da cabeça e do corpo. "Não podemos trabalhar uma coisa separada da outra. Vejo como um grande desafio implantarmos nos serviços de saúde mental de todas as unidades públicas de saúde, trabalho como este".