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Mar Mediterrâneo: “Eles não veem outra maneira de encontrar uma vida melhor”

02/06/2015
Médica de MSF fala sobre seu trabalho no cuidado das pessoas resgatadas durante travessias no Mediterrâneo

Foto: Gabriele François Casini/MSF

Rumo às águas da costa da Líbia, a bordo do navio de resgate MY Phoenix, operado em parceria com a organização Migrant Offsore Aid Station (MOAS), a Dra. Erna Rijnierse, da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), fala sobre seu trabalho de assistência às pessoas resgatadas no Mar Mediterrâneo.

“No primeiro resgate que fizemos, quando nós chegamos, a água no barco dos imigrantes já estava batendo no tornozelo deles. Se tivéssemos chegado apenas algumas horas depois, o barco teria afundado e todos teriam se afogado. Essa é a grande diferença entre esse projeto e meu trabalho anterior com MSF no Sudão do Sul ou no leste do Congo: você sabe que se não salvar, naquele momento, aqueles que estão em necessidade, eles, certamente, irão morrer.

Mensagem de socorro
As operações de resgate são coordenadas pela Guarda Costeira italiana. Eles recebem a mensagem de socorro, enviam o alerta, e o navio de resgate mais próximo entra em ação. Nesse caso, éramos nós. Fomos até a localização do barco em perigo. Uma equipe, incluindo um profissional médico, partiu em um pequeno bote em direção às pessoas em necessidade.

Qual era a situação? Quantas pessoas estavam a bordo? Elas eram crianças, pessoas doentes, mulheres grávidas, pessoas feridas?

Todos amontoados
Encontramos um barco de pesca de madeira com 369 pessoas a bordo, sem coletes salva-vidas e todas amontoadas em um espaço muito pequeno. As pessoas estavam tão aglomeradas que a maioria delas tinha graves cãibras em suas pernas e braços, como resultado de terem ficado em pé, na mesma posição, por horas e horas. Simplesmente, não havia espaço para sentar.

Nós demos coletes salva-vidas a todos e, usando um bote de borracha, os trouxemos em pequenos grupos a bordo do nosso navio de resgate, o MY Phoenix.

Kits de resgate
Primeiramente, checamos as temperaturas de todos. As pessoas vulneráveis – incluindo idosos, doentes, mulheres e crianças – vão para o convés inferior. Homens fortes e saudáveis permanecem no convés superior. Todo mundo recebe um kit de resgate com uma toalha, um macacão para mantê-los aquecidos, duas garrafas de água e um pacote de biscoitos nutritivos. Nós damos roupas secas para aqueles que precisam. E, claro, temos banheiro bem equipados e pontos com água corrente a bordo.

Mulheres grávidas
Nós vemos várias pessoas com hipotermia. Felizmente, temos visto poucas pessoas, até agora, em péssimas condições de saúde. Mas estamos preparados para qualquer coisa. Nós podemos fazer reanimação cardiopulmonar, temos um ventilador mecânico, monitores, e podemos realizar partos seguros. Naquele primeiro resgate, havia oito mulheres grávidas a bordo. Uma estava grávida de oito meses e sentiu o bebê mexendo durante a noite. Eu estava pronta. O bebê, no entanto, não estava. Talvez tenha sido melhor assim.

Desespero
Não são só homens jovens que se arriscam nessa perigosa jornada. Os refugiados no mar são de todas as idades, e vêm de várias partes do mundo. Há mulheres grávidas, pessoas idosas, e até famílias com crianças pequenas. Essa situação diz alguma coisa sobre o que impulsiona muitas pessoas a estarem a bordo. Se você é um pai com duas crianças pequenas, e, conscientemente, sobe a bordo de um barco de madeira em péssimo estado, se você está disposto a correr esse risco é porque você está realmente desesperado. E eles estão. Eles não veem outra maneira de encontrar refúgio seguro ou uma vida melhor.

Histórias terríveis
Tenho visto pessoas com fraturas antigas e pessoas que perderam os dentes violentamente. Todo mundo tem uma história – assim como todas as pessoas que ajudei no Sudão do Sul ou na República Centro-Africana. Mas, talvez, as histórias das pessoas nos barcos sejam ainda mais terríveis. Em seus países de origem, eles conheceram a guerra, a violência ou uma completa falta de liberdade e justiça social.

Eu conversei com uma família da Síria. Com um grupo de adolescentes da Somália. Com dois irmãos jovens da Nigéria. Com um rapaz da Eritreia a quem foi dado uma escolha: uma vida no serviço militar ou a prisão. Tudo o que eles sabiam era que ficar não era uma opção. Eles preferem morrer a ficar.

Deixando tudo para trás
As pessoas falam sobre esses refugiados como se eles não fossem nada além de caçadores de fortunas oportunistas. Mas esses refugiados têm um propósito quando decidem cruzar o Mediterrâneo. Não há nada de oportunista em deixar tudo e todos para trás.

Nós podemos ficar de braços cruzados e assistir enquanto eles se afogam em seu próprio caminho para a liberdade? Simplesmente, não podemos. Deveríamos estar no mar, fazendo busca e resgate? Algumas pessoas dizem que não. E, talvez, elas estejam certas. Mas, enquanto as pessoas estão sofrendo no mar, nós temos uma boa razão para estarmos aqui. Como médica e profissional humanitária, esse é o meu dever.

Um lugar seguro para dormir
Muitas das 369 pessoas resgatadas em nossa primeira operação me disseram que essa foi a primeira vez, há muito tempo, que eles se sentiram seguros o suficiente para dormirem à noite. Para muitos, essa também foi a primeira vez em meses, talvez em anos, que foram atendidos por um médico.

Um futuro incerto
Depois de nosso primeiro resgate, nós levamos as pessoas que havíamos resgatado a Pozzallo, na costa da Sicília, para serem cuidadas pelas autoridades italianas.

Assim que os refugiados colocam os pés no chão, eles passam a encarar um futuro incerto. Quando são salvos do mar, eles ficam extremamente felizes e agradecidos. As pessoas apertam a sua mão e querem te beijar. Mas, quando chegamos perto da costa, eles se aquietam. Eles passaram por muitas coisas ruins. E sua jornada está longe de acabar.

E eu? Eu adorava o mar. Mas acho que nunca mais vou olhar para ele do mesmo jeito.”


 

Confira aqui o infográfico interativo de MSF para saber mais sobre as operações no Mar Mediterrêneo e conhecer cada parte do navio MY Phoenix.

 

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