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Lutando para sobreviver: conflito no nordeste da Nigéria

07/06/2019
Lutando para sobreviver: conflito no nordeste da Nigéria

Foto: Igor Barbero/MSF

Hauwa e sua filha de 17 anos, Amina, foram separadas uma da outra por um longo tempo durante o conflito no nordeste da Nigéria. Agora elas vivem com familiares em um acampamento para deslocados internos na cidade de Pulka. Estado de Borno, Nigéria, maio de 2018.

No estado de Borno, na Nigéria, muito perto da fronteira com Camarões, está Pulka, uma cidade marcada pelo duradouro conflito que devastou o nordeste do país nos últimos 10 anos. Milhares de pessoas foram mortas. Quase 2 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar nos estados de Borno, Adamawa e Yobe e 7,7 milhões de pessoas necessitam de ajuda humanitária[1]. O conflito entre grupos armados militares e grupos não-estatais teve sérias consequências humanitárias para a população, encurralada no meio de combates.

Pulka abriga atualmente mais de 40 mil deslocados; alguns se instalaram em acampamentos e outros vivem com a comunidade anfitriã. Sem autoridades civis presentes, a cidade é completamente controlada pelos militares. Os movimentos das pessoas estão limitados a uma curta distância além do perímetro da cidade para cultivar, mas muitas não se sentem seguras nem mesmo dentro dessa distância. Como resultado do movimento não planejado, em grande escala e nem sempre voluntário de pessoas que retornam de Camarões, há grave escassez de água e de abrigo em Pulka, e algumas necessidades básicas permanecem não atendidas. As pessoas lutam para sobreviver tanto nas comunidades de deslocados internos quanto nas comunidades locais.

"As pessoas perderam os meios de subsistência que tinham, por isso dependem completamente da doação de alimentos para a sua sobrevivência. Até mesmo a população local tem dificuldades; ela tem que cuidar de suas colheitas, mas isso nem sempre é fácil, porque elas também são atacadas. Às vezes, eles pedem ao exército para escoltá-las quando cuidam de suas plantações. É difícil."

Tharcisse Synga Ngundu, coordenador médico de MSF

A situação é especialmente difícil para os recém-deslocados, que continuam chegando em Pulka; nem sempre por escolha. Muitos deles vêm de áreas controladas por grupos armados não-estatais. Estima-se que cerca de 800 mil pessoas vivam em áreas do estado de Borno que permanecem inacessíveis a organizações humanitárias. Muitas vezes, pessoas recém-deslocadas são vistas com desconfiança pelos militares, como possíveis colaboradores de grupos armados. A falta de abrigo e de água afeta especialmente os recém-chegados.

Nos ombros das mulheres

"Quando eles nos pegaram, eles nos levaram para a casa do líder deles. Ele queria casar com minha filha. Ela se recusou e eles bateram nela."
"Tenho 17 anos e eles me obrigaram a casar. Eu engravidei. Eles tiraram o bebê e danificaram minha bexiga. "
"Aqueles que não acordaram morreram em suas casas quando colocaram fogo nelas. Eles também atiraram neles. Procurei meu filho, sem saber que ele estava dormindo com o pai. E o fogo os matou."

Testemunhos de mulheres que vivem atualmente em Pulka

O conflito tem sido especialmente difícil para mulheres e crianças. Em Pulka, muitas mulheres relataram histórias angustiantes de violência extrema perpetrada por todos os lados do conflito. São histórias diferentes e, no entanto, muito semelhantes, repetidas várias vezes: mulheres sequestradas e obrigadas a casar-se com membros de grupos armados não-estatais; testemunhando assassinatos e extrema violência; sobreviventes de estupro; sobreviventes de abuso físico, mental, verbal e emocional por todas as partes no conflito.

As mulheres geralmente chegam a Pulka apenas com seus filhos; os maridos foram mortos ou é muito perigoso para eles se deslocarem, pois podem ser considerados apoiadores dos grupos armados não-estatais. Portanto, as mulheres são obrigadas a sustentar a família trabalhando dia e noite. Mas a segurança em Pulka não é garantida para elas, especialmente fora do perímetro da cidade, onde às vezes precisam ir para procurar madeira para cozinhar. Mas mesmo em Pulka elas podem ser vítimas de violência.

Pobreza extrema no estado vizinho

Mohammed Abubakar, 8 meses, foi internado na unidade de terapia intensiva no hospital de Damaturu com desnutrição aguda grave e broncopneumonia. Mais tarde, ele foi diagnosticado com cólera e começou a melhorar com o tratamento adequado. Ele foi um dos últimos 8 mil pacientes de cólera que MSF tratou durante o surto em 2018. Estado de Yobe, Nigéria, novembro de 2018.

© SANTIAGO D. RISCO / MSF

Ao lado de Borno está o estado de Yobe, um dos mais pobres da Nigéria. Embora seja relativamente estável, sabe-se que grupos armados não-estatais estão ativos no norte e no sul do estado. Os serviços de saúde em Yobe são muito básicos e as pessoas têm acesso limitado a instalações médicas e de saúde.

Nos últimos dois anos, trabalhamos no hospital especializado do estado de Yobe em Damaturu, a capital do estado. Nossas equipes gerenciam a unidade pediátrica de emergência e o centro de alimentação terapêutica, que trata crianças com menos de 5 anos de idade com desnutrição aguda grave e complicações de saúde relacionadas. O pico de malária, de agosto a outubro, quando o número de casos da doença aumenta, foi particularmente difícil em 2018.

"Em 2018, durante o pico de malária, vimos quatro vezes mais pacientes chegando ao nosso projeto. O equivalente a 450 admissões por semana. Muitas vezes tínhamos duas ou três crianças por leito."

William Santos, chefe de enfermagem de MSF

No entanto, a situação no hospital melhorou consideravelmente desde outubro do ano passado e, no final de abril de 2019, repassamos nossas atividades no hospital especializado do estado de Yobe ao Ministério da Saúde. Com nossa equipe de emergência, MSF continua monitorando a situação de saúde no estado, após alertas de saúde no nordeste da Nigéria. Como fizemos durante a epidemia de cólera no final de 2018, a pedido do Ministério da Saúde, estamos sempre prontos para responder a uma crise.


[1] Segundo o OCHA

 

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