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A luta de migrantes e solicitantes de asilo venezuelanos no norte do Brasil

14/08/2019
Milhares de pessoas que fugiram de seu país em crise vivem hoje em condições precárias e com acesso limitado a cuidados de saúde no Estado de Roraima
A luta de migrantes e solicitantes de asilo venezuelanos no norte do Brasil

Foto: Victoria Servilhano

O estado de Roraima, na região norte, é a principal porta de entrada no Brasil de venezuelanos que fogem da crise econômica, política e social vivida por seu país. O fluxo se intensificou a partir de 2017, e atualmente cerca de 600 pessoas ingressam todos os dias em território brasileiro, cruzando a fronteira e chegando à localidade de Pacaraima.

De acordo com dados oficiais, cerca de 40 mil migrantes e solicitantes de asilo vivem atualmente na capital do Estado, Boa Vista, a maioria em condições precárias. Algumas estimativas informais consideram que o número total de venezuelanos em Roraima pode chegar a cerca de um quinto da população total, de 500 mil habitantes.

Roraima é a unidade da federação brasileira com a economia menos desenvolvida e tem de lidar com um precário sistema de saúde, devido à falta de médicos, suprimentos e equipamentos. A infraestrutura do estado está sendo colocada à prova pelo grande fluxo migratório de venezuelanos.

Existe no estado uma estrutura oficial de 13 abrigos operando com capacidade máxima, com cerca de 6 mil pessoas alojadas. Metade delas são crianças, porque a maioria dos venezuelanos que vieram para o Brasil trouxe suas famílias.

Há, entretanto, um volume muito maior de pessoas, estimado em 25 mil, que vive fora dos abrigos, em prédios abandonados, sem energia elétrica e com condições precárias de saneamento, ou simplesmente na rua.

As dificuldades enfrentadas pela população fora dos abrigos têm impacto direto sobre sua saúde. “Vemos problemas relacionados à falta de higiene ou saneamento, como diarreia. Também há muitas pessoas com sintomas de gripe, alguns casos de pneumonia, sinusite, otite. Outras ocorrências comuns são verminoses e escabiose”, explica a médica de MSF Mariana Valente, que atende pacientes em um centro de saúde administrado pela Prefeitura de Boa Vista no bairro 13 de setembro, uma região de grande concentração de migrantes e solicitantes de asilo.

Para os que moram na rua, uma opção comum de abrigo é a área localizada atrás da rodoviária de Boa Vista. Todos os finais de tarde, mais de mil migrantes e solicitantes de asilo erguem uma “vila de barracas” em uma área aberta e coberta. Poucos têm suas próprias tendas, mas o Exército as empresta, geralmente pequenas e compartilhadas entre duas ou três pessoas. Colchões não são fornecidos e quem não os tem dorme diretamente no chão.

“Nesse lugar há muito pó e água suja, muitas coisas que estão fazendo com que nós e nossos filhos fiquemos muito doentes”, afirma Cezar Martínez, venezuelano que passa as noites na área próxima à rodoviária com a mulher e os três filhos.  À noite, quem se aloja no acampamento junto à rodoviária recebe das autoridades uma refeição em um refeitório adjacente. A área tem de estar totalmente desocupada às 6h, e apenas pessoas doentes são autorizadas a permanecer em barracas durante o dia.  Cezar diz que a situação em que ele e sua família estão é bastante difícil, mas acrescenta que se sente grato a todas as organizações e brasileiros que têm ajudado a ele e a outros venezuelanos. Um número considerável de venezuelanos também está vivendo em edifícios abandonados, sem eletricidade e com acesso precário à água.

As condições de vida nos 13 abrigos oficiais existentes no Estado são mais ou menos razoáveis, exceto para os dois locais que alojam a população indígena: Janokoida, em Pacaraima, e Pintolândia, na capital, Boa Vista.

Em Pintolândia, mais de 500 membros da etnia Warao e cerca de 30 da etnia E´ñepa vivem em dezenas de barracas e em um “redário” com centenas de redes penduradas, instalado onde antes funcionava um ginásio de esportes. O terreno do abrigo fica em uma área rebaixada, permanentemente úmida. Uma camada de brita depositada no solo tenta evitar que a água do chão aflore à superfície, mas quando chove, o terreno inunda e encharca barracas e pertences dos moradores. Israel, um membro da etnia warao, limpa a barraca de sua família: ”Choveu muito e os colchões ficaram todos molhados, as crianças ficaram molhadas”, diz ele, com aspecto cansado. “Esta é uma área alagável e, e além disso, é uma região equatorial, as chuvas são muito intensas”, afirma Sara Lopes, técnica de água e saneamento de MSF. “Parte do projeto de drenagem foi implantado, mas é preciso fazer mais”, diz ela.

O abrigo possui poucos pontos de coleta de água, e para a lavagem de utensílios de cozinha e roupas, a água tem de ser transportada em baldes. Os banheiros estão frequentemente entupidos.

Na cozinha coletiva, os indígenas cozinham com lenha a comida que lhes é entregue, geralmente arroz e carne bovina.  Mas, mesmo na cozinha, as condições sanitárias estão longe de serem ideais. A umidade onipresente e a higiene precária aumentam a proliferação de mosquitos e baratas, o que pode levar à transmissão de doenças.

Além das condições de vida precárias, as pessoas no abrigo de Pintolândia também enfrentam a falta de perspectivas de melhorar sua própria situação, já que não estão incluídos no programa oficial de interiorização. O programa permite que migrantes e solicitantes de asilo sejam transferidos voluntariamente com suas famílias a outras regiões do país, mas a população indígena não tem a possibilidade de inscrever-se.

“É como pegar um pássaro, colocá-lo numa gaiola, dando a ele o que ele não quer. É desse jeito que estão os indígenas aqui, vivendo mal”, descreve Delio Silva, indígena Warao que vive no abrigo Pintolândia. Vivendo em um limbo, alguns se esforçam para melhorar sua situação e trabalham para obter algum dinheiro. Mulheres confeccionam e vendem artesanato feito com fibra de buriti e homens coletam sucata nas ruas de Boa Vista. Eles usam o dinheiro para comprar comida e complementar sua dieta com itens como vegetais, peixes de rio e farinha. Mesmo vivendo em situação precária, os indígenas consideram particularmente importante poder preparar seus próprios alimentos.

Outros migrantes e solicitantes de asilo tentam manter o otimismo, apesar das adversidades cotidianas. “Tive que fazer a minha família entender que tudo é positivo, que tudo é bom”, afirma Ricardo Calzadía, que mora no abrigo Jardim Floresta com a mulher, Milagros, e a filha, Saraí. O pai relata, satisfeito, que conseguiu uma vaga em uma escola para a filha de 8 anos, a uma hora de distância. Ele faz o trajeto de ida e volta a pé diariamente com a menina.

 “Antes comíamos nós três sozinhos em nossa casa. Agora dividimos um refeitório com 600 famílias. Dividimos um banheiro com 600 famílias. A família cresceu”, diz, tentando colocar um sorriso no rosto.  “Às vezes é preciso enxergar as coisas assim. Acho que dessa maneira podemos seguir em frente”, conclui ele.

 

MSF iniciou atividades no estado brasileiro de Roraima no final de 2018. Desde então, seu objetivo tem sido ajudar a melhorar a assistência médica para migrantes e requerentes de asilo na Venezuela e para a população local. MSF fornece consultas médicas, assistência de saúde mental e assessoria técnica sobre água e saneamento, e realiza atividades de promoção da saúde.

 

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