Você está aqui

Líbia: agravamento dos combates força milhares de famílias a fugir e encurrala refugiados e migrantes detidos

17/04/2019
Civis e migrantes estão expostos à violência do conflito em curso
Líbia: agravamento dos combates força milhares de famílias a fugir e encurrala refugiados e migrantes detidos

Foto: Sara Creta/MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) está extremamente preocupada com os civis em Trípoli, uma vez que o agravamento dos combates leva milhares de famílias líbias a fugir de suas casas e buscar abrigo com parentes ou em abrigos temporários, em escolas ou outros edifícios. Pedimos urgentemente a transferência para fora do país dos mais de três mil refugiados e migrantes presos em centros de detenção, que correm o risco de serem atingidos pelo fogo cruzado.

Desde 16 de abril, a Organização Mundial da Saúde (OMS) registrou um total de 1.005 vítimas, incluindo 189 mortos e 816 feridos. Profissionais e serviços de saúde têm sido afetados pelo bombardeio indiscriminado e ataques aéreos diários nos últimos dias. Ainda segundo a OMS, desde o início do conflito, dois médicos e um motorista de ambulância foram mortos, um médico foi ferido e nove ambulâncias foram danificadas ou destruídas.

Todas as medidas devem ser tomadas para proteger civis e infraestrutura civil, inclusive a interrupção dos ataques indiscriminados em áreas altamente povoadas. O pessoal médico deve ser respeitado e protegido em todas as circunstâncias.  

Instalações médicas dentro e fora de Trípoli relataram capacidade limitada e menos de duas semanas de suprimentos médicos restantes. Alguns civis ficaram sem água e eletricidade por vários dias. Para os mais de 3 mil refugiados e migrantes atualmente presos em centros de detenção nas áreas de conflito ou no entorno, e que permanecem em risco iminente de serem atingidos pelo fogo cruzado, o fornecimento de serviços básicos, incluindo alimentos e água, permanece extremamente limitado – muitos ficam vários dias seguidos sem comer.

Os combates tiveram um impacto ainda mais negativo na saúde mental das pessoas detidas. Equipes de MSF observam uma sensação de ansiedade e medo entre muitos pacientes, alguns dos quais relataram ter ouvido tiros e ataques aéreos enquanto estavam presos nos centros de detenção.

As equipes médicas de MSF atuam desde o início do conflito, oferecendo cuidados de saúde primária, serviços emergenciais nutricionais e abastecimento de água, e encaminhamento médico para refugiados e migrantes, em quatro centros de detenção em Trípoli. As equipes também fornecem suprimentos para três semanas de medicamentos de tuberculose e outras medicações essenciais para pacientes em centros de detenção, para garantir que os tratamentos possam continuar em meio ao conflito em curso.

Durante a semana passada, as equipes de MSF ofereceram consultas médicas nos centros de detenção de Anjila, Abu Salim, Sabaa e Tajoura, bem como realizam duas entregas de água potável para Tajoura. Embora as pessoas da comunidade tenham distribuído alimentos para o centro de detenção de Tajoura, nenhuma solução permanente foi proposta pelas autoridades líbias, deixando MSF extremamente preocupada com o bem-estar das mais de 600 pessoas presas lá dentro.

No centro de detenção de Sabaa, além de oferecer consultas médicas, as equipes de MSF distribuíram o equivalente a cinco dias de porções de comida, incluindo legumes frescos. Nos últimos dias, aproximadamente 200 pessoas foram transferidas do centro de detenção de Ain Zara, que fica a apenas 1,5 km da frente de batalha, para o centro de detenção de Sabaa, a 6,5 km da frente de batalha. Com os recém-chegados, o tamanho da população em Sabaa subiu para quase 540 pessoas, exacerbando condições e serviços já precários. Com mais 150 refugiados transferidos no início da semana passada para um centro do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), acredita-se que o centro de detenção de Ain Zara esteja vazio.

Embora os números em cada centro de detenção possam mudar diariamente, atualmente, existem 135 pessoas no centro de detenção de Anjila, a 5,5 km dos combates. Há poucos dias, havia cerca de 910 pessoas em Abu Salim, a 6,5 km dos combates. Entende-se que este último centro de detenção seja o mais propenso a ser diretamente afetado pelo conflito nos próximos dias, sobretudo devido ao bombardeio ao bairro de Abu Salim durante a noite de 16 de abril. O ACNUR está levando algumas das pessoas mais vulneráveis de Abu Salim para seu centro, mas não tem capacidade para receber todos.

Equipes médicas de MSF também distribuíram kits de higiene em vários abrigos para famílias deslocadas que tiveram que abandonar suas casas, bem como doaram kits para ferimentos de guerra (suturas, curativos e medicamentos essenciais) para dois hospitais até agora, um na região central de Trípoli e outro no sul da cidade.

Os combates atuais – o terceiro nos últimos sete meses – reforçam ainda mais as tentativas irracionais dos governos europeus em fingir que a Líbia é um lugar seguro.

Uma das opções desesperadas para os líbios e não-líbios que tentam escapar dos combates é o mar Mediterrâneo. MSF não tem meios de verificar se a saída da Líbia pelo mar aumentou desde o início dos combates, porém, sabemos que buscar segurança não é um crime, mas, sim, uma resposta humana realística diante de circunstâncias que ameaçam vidas, como o conflito atual. Na falta de qualquer resposta de busca e resgate no Mediterrâneo Central, a vida das pessoas está significativamente em risco no mar, da mesma maneira que está nas áreas de conflito em Trípoli.

A capacidade de busca e resgate no Mediterrâneo Central precisa ser ampliada urgentemente e qualquer pessoa resgatada no mar deve ser levada para um porto seguro, conforme exigido pelo direito internacional. Isso só pode acontecer efetivamente se os países europeus concordarem imediatamente com as soluções para desembarcar sobreviventes em portos seguros e pôr fim às ações punitivas para restringir ONGs que buscam fornecer uma resposta humanitária essencial no mar.

Enquanto acompanhamos de perto o contexto, as atividades de MSF continuam fora de Trípoli, onde nossas equipes estão prestando assistência a mais de 800 pessoas detidas arbitrariamente em Khoms, Zliten e Misrata. MSF também continua a realizar consultas médicas em Bani Walid.

Estamos preocupados com um grupo de mais de 80 pacientes que foram transferidos há cerca de dois meses para um centro de detenção em Sirte, pois não podemos mais acompanhar e tratar essas pessoas – muitas das quais têm condições médicas sérias. Todos os encaminhamentos médicos para hospitais de Trípoli, organizados por equipes de MSF de Khoms, Zliten, Misrata, Bani Walid ou Sirte, não são mais possíveis devido ao atual conflito.

Leia mais sobre

MSF usa cookies neste site para melhorar sua experiência.
Saiba mais na

Política de Privacidade. Aceitar