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Libéria: uma abordagem inovadora para os cuidados de saúde mental

05/11/2018
Greg Keane, psiquiatra e consultor de MSF, explica a abordagem para cuidados de saúde mental na Libéria
Libéria: uma abordagem inovadora para os cuidados de saúde mental

Foto: MSF

Na Libéria e em outros países de baixa renda, o acesso a um tratamento eficaz  para pessoas com transtornos mentais graves pode ser extremamente difícil. Essas pessoas e suas famílias sofrem, já que cuidar de alguém com uma condição mental grave muitas vezes acaba sendo um compromisso em tempo integral.  

No entanto, sabemos que quando se investe em cuidados comunitários, pode-se fazer uma grande diferença na vida de indivíduos que sofrem de doenças como esquizofrenia, transtorno de bipolaridade, depressão grave ou transtorno de estresse pós-traumático. Isso exige profissionais que tenham alguma base de treinamento, um forte sistema de supervisão e acesso a medicamentos seguros, eficazes e acessíveis. Dependendo das leis e regulamentos do país, esses responsáveis clínicos não precisam ser médicos – eles podem ser enfermeiros locais ou agentes clínicos treinados e supervisionados por profissionais com experiência em saúde mental.

Uma das razões pelas quais nosso programa está funcionando na Libéria é devido à longa história de MSF no país e ao relacionamento colaborativo que temos com o Ministério da Saúde, além de outras iniciativas de treinamento voltadas para assuntos de saúde mental. Com base nisso, somos capazes de implementar um modelo de boas práticas, como o cuidado de saúde mental comunitário realizado por liberianos que são treinados e supervisionados.

Temos agentes de saúde comunitários que podem se mudar para a comunidade e procurar pessoas que talvez não fossem nos visitar. Um dos elementos de uma condição como a esquizofrenia é que uma pessoa pode ficar incapacitada a ponto de não conseguir comparecer a um compromisso. Muitas vezes, essas pessoas têm uma visão reduzida de seu distúrbio, podendo ter dificuldades para aceitar a medicação, mesmo que ela seja oferecida.

Isso em parte acontece porque as pessoas sofrem com o estigma. Porém, com uma abordagem comunitária é possível tratar essas pessoas com condições graves e realmente melhorar a qualidade de vida dela. As famílias estão muito felizes com isso, uma vez que essa ajuda pode gerar maior autonomia para a pessoa.

Sem tratamento, as famílias muitas vezes precisavam manter cuidados em tempo integral. Isso significava que pelo menos uma pessoa não poderia sustentar a família ganhando dinheiro. Quando as famílias não podem se dar ao luxo de ter uma pessoa para manter os cuidados, e quando um dos sintomas é violência ou agressão, as famílias podem acabar amarrando seus familiares com correntes e cordas, ou os trancando em suas casas ou mesmo os deixando em igrejas onde outras pessoas os contenha fisicamente. É horrível de se ver, mas é uma resposta compreensível a uma situação difícil com essa falta de apoio.

Tentamos prestar cuidados de saúde mental em um ambiente de atenção primária à saúde, para que as pessoas possam ter acesso a cuidados de saúde mental como qualquer outra condição de saúde. Queremos normalizar esse tipo de atendimento; é o primeiro passo para reduzir o estigma e melhorar o acesso.
 
Em cada uma das clínicas, temos um enfermeiro treinado para cuidados de saúde mental, que pode se concentrar em medicamentos, acompanhamento e terapia de adesão, além de termos um ou dois médicos de saúde mental com treinamento prévio. Com o apoio e supervisão de MSF, eles podem avaliar e acompanhar pacientes, como um psiquiatra ou clínico geral faria em outro contexto.

A epilepsia não é tecnicamente considerada um distúrbio de saúde mental, mas pode ser bastante debilitante, por isso a tratamos como parte desse programa. Vimos um menino de 18 anos com epilepsia e um distúrbio de desenvolvimento com crises frequentes. Ele nunca foi à escola por causa de sua condição e sua família acreditava que ele precisava de alguém com ele o tempo todo, já que poderia ser perigoso ter uma convulsão quando estivesse sozinho.

Os agentes comunitários de saúde identificaram esse menino na comunidade, deram muitas informações à sua família sobre sua condição e o levaram para a clínica. Com a medicação, agora ele está livre de crises e os agentes comunitários de saúde também o apoiaram na ida à escola, ajudando professores e alunos a entender sua condição. Quando eu o conheci, ele estava animado e sentia um senso de propósito. Sua família ficou aliviada e grata por eles poderem fazer as coisas que eles queriam fazer, assim como o menino também podia.

Essa história é semelhante a de pessoas que sofrem com esquizofrenia. Nós cuidamos de um jovem que tinha sido acorrentado, mas que conseguiu escapar e veio nos ver. Iniciamos o tratamento e ele nos levou à igreja, onde um grupo de pessoas com distúrbios graves estava acorrentado e agora estamos ajudando essas pessoas também. Com o apoio de suas famílias, fomos capazes de tratá-los e levá-los de volta para casa, onde suas famílias podem realmente administrar suas condições sem medidas tão drásticas.

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