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Libéria: oferecendo cuidados psiquiátricos perto de casa

26/07/2019
Iniciamos atividades de saúde mental em West Point, incluindo tratamento e conscientização
Libéria: oferecendo cuidados psiquiátricos perto de casa

Clément Lier/MSF

A organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) está expandindo um programa de tratamento gratuito para pessoas com transtornos mentais na Libéria, iniciando suas atividades neste mês no município densamente povoado de West Point, em Monróvia.

O programa, mantido em colaboração com o Ministério da Saúde e outros parceiros, agora oferece atendimento ambulatorial para cerca de 1.350 pessoas com transtornos mentais ou epilepsia em um total de cinco unidades de saúde em Monróvia e outras áreas da região de Montserrado. O tratamento para epilepsia está incluído, pois faz parte da estratégia nacional de saúde mental da Libéria.

"Transtornos graves de saúde mental são encontrados em todos os países, afetando cerca de 2% a 3% da população a cada ano", disse o dr. Gregory Keane, conselheiro de saúde mental de MSF. "Pessoas com psicose não tratada, depressão grave ou outros distúrbios graves podem ser menos capazes de cuidar adequadamente de si mesmas ou administrar suas vidas diárias. As famílias realmente têm dificuldade com a forma de lidar com o problema quando o tratamento médico não está disponível."

Nos últimos 30 anos, os liberianos sofreram duas guerras civis e uma epidemia de Ebola que custou milhares de vidas na região, incluindo um número desproporcional de profissionais de saúde. Como muitos países de renda baixa, a Libéria tem serviços médicos limitados para pessoas com transtornos mentais, com um único hospital psiquiátrico e apenas dois psiquiatras.

No entanto, o Ministério da Saúde trabalhou com MSF e outras organizações para melhorar sua estratégia de prestação de cuidados de saúde mental em nível comunitário, disse Keane. Como parte dessa estratégia, uma equipe de MSF está supervisionando e apoiando nove médicos de saúde mental em centros de saúde primária em Bensonville, Bromley, Clara Town, Pipeline e West Point. Os médicos, que completaram um treinamento de seis meses, avaliam os pacientes e oferecem tratamento com o apoio contínuo de um psiquiatra de MSF, Hassan Nasser, e da psicóloga Saima Zai.

É extremamente importante ajudar os membros da família e da comunidade a entender a condição da pessoa e apoiar seus cuidados, a superar o estigma social e evitar práticas prejudiciais, disse Nasser.

"Muitas pessoas com transtornos psiquiátricos lutam há anos ao lado de curandeiros espirituais ou fitoterapeutas e não recebem tratamento médico", disse Nasser. "Eu vi até mesmo pessoas que foram acorrentadas ou trancadas em casa por causa do estigma social ou medo de comportamento agressivo. Mas quando as pessoas aceitam que estas são condições médicas, e nós tratamos esses pacientes, elas finalmente sentem alívio de seus sintomas e vivem normalmente em suas comunidades."

A demanda já é alta para tratamento de saúde mental em West Point, uma área urbana lotada com dezenas de milhares de pessoas em uma península costeira estreita. MSF, o Ministério da Saúde e o Conselho Católico Nacional de Saúde estão trabalhando no centro de cuidados de saúde primária de West Point, chamado Estrela do Mar.

Anteriormente, mais de um quarto dos pacientes de saúde mental na região vizinha de Clara Town eram residentes de West Point. Com o tratamento agora disponível localmente, mais pacientes são esperados.

"A densidade populacional em West Point é muito, muito alta", disse Justine Hallard, coordenadora do projeto de MSF. "Às vezes há inundações na área, então as pessoas estão vivendo em condições muito difíceis, em habitações lotadas. O estresse pode levar a uma maior taxa de transtornos mentais."

Como em outros locais, o programa de saúde mental em West Point depende muito de profissionais locais, chamados voluntários comunitários de saúde do governo, para visitar pacientes e fazer o acompanhamento por telefone. Com o apoio de MSF, quatro voluntários de West Point visitam pacientes em casa, ajudam as famílias a compreender as condições de saúde mental e incentivam a adesão ao tratamento.

"Os voluntários comunitários de saúde do governo são realmente fundamentais para esse esforço", disse Hallard. "Se aumentamos o número de pacientes a cada mês, é graças ao incrível trabalho desses indivíduos. Eles sabem como conversar com as pessoas e aumentar a conscientização sobre saúde mental, fortalecendo o papel que as famílias e as comunidades desempenham no apoio às pessoas que precisam de cuidados.”

MSF fornece a maioria dos medicamentos psiquiátricos nas cinco unidades de saúde participantes. Por toda a Libéria, no entanto, as pessoas nem sempre conseguem obter medicamentos psiquiátricos, e os suprimentos podem ser interrompidos de tempos em tempos, levando a recaídas dos pacientes.

Este é um dos principais desafios que as pessoas com problemas de saúde mental enfrentam na Libéria, de acordo com Benjamin Ballah, secretário geral de uma organização liberiana que defende serviços de saúde mental, a “Cultivation for Users' Hope”.

"Você encontra muitas pessoas vivendo com doenças mentais", disse Ballah. "A nossa queixa é sobre não apoiar a saúde mental, em comparação com outras questões médicas. Você não pode construir um sistema de saúde forte sem saúde mental."

Segundo Ballah, a superação do estigma social é o outro grande desafio. Como porta-voz, ele diz às pessoas que ele tinha um problema de saúde mental e, com tratamento, ele conseguiu se recuperar, completar sua educação e trabalhar como professor.

Pacientes com epilepsia também enfrentam desafios na sociedade, mas o tratamento pode ajudar. Com o apoio de MSF, os médicos avaliam pacientes epilépticos e oferecem medicamentos para controlar as convulsões, de acordo com as diretrizes nacionais e internacionais.

"Há um estigma quando as pessoas não podem controlar suas convulsões e não são capazes de funcionar normalmente", disse Hallard. "As crianças que têm epilepsia frequentemente não podem ir à escola porque são estigmatizadas e nem brincam com outras crianças. Agora que estão em tratamento, elas estão voltando para a escola e podem ter uma vida normal."

MSF começou a trabalhar na Libéria em 1990 e ofereceu cuidados médicos durante os anos da guerra civil. Em 2014, MSF retornou ao país para responder à epidemia de Ebola na África Ocidental. MSF mantém atualmente um hospital pediátrico, o Bardnesville Junction Hospital, e o programa de saúde mental, que começou em 2017.

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