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A jornada interminável dos refugiados sírios

01/10/2015
“Nós fugimos muitas vezes e agora meus pais se recusam a se mudar novamente. Eu me preocupo em deixá-los para trás”

Foto: Gabriella Bianchi/MSF

Mohamed nasceu em Derek, uma cidade na região curda no nordeste da Síria, entre as fronteiras com o Iraque e a Turquia. Mais tarde, ele se mudou para Damasco para trabalhar como motorista de micro-ônibus. Pai de quatro filhos, seu caçula ainda nem anda. Mohamed e sua família fugiram de Damasco em 2013 quando a guerra eclodiu na Síria e sua cidade tornou-se insegura.

Assim como outros milhares de curdos sírios, Mohamed e sua família acabaram cruzando a fronteira em direção ao Curdistão iraquiano e se assentaram no campo de refugiados de Domeez, que, atualmente, abriga mais de 40 mil pessoas. O apoio a refugiados sírios vivendo em acampamentos como o de Domeez foi cortado drasticamente neste verão quando o valor do vale-alimentação foi reduzido de 31 dólares para 10 dólares. Todos os dias, muitas famílias que vivem no acampamento se preparam para voltar ao desconhecido, deixando o local e continuando a jornada em direção à Europa, onde elas esperam encontrar segurança no longo prazo e reconstruir suas vidas.

“Eu não estou feliz com a partida, eu preferiria ficar aqui, se pudesse, perto dos meus pais. Mas nós realmente não temos escolha”, diz Mohamed. “Até agosto, estávamos recebendo vales-alimentação que ajudavam a nos manter. Mas, agora que eles foram cortados, não temos nada. Eu trabalhei para um fazendeiro neste verão, um homem bom que conheço bem. Eu trabalhei duro, o fazendeiro foi o primeiro a dizer que sou o melhor em dirigir um trator. Mas aí ele não pôde mais vender a colheita, e você só recebe se a colheita for vendida. Então, ele me disse que não poderia me pagar e eu sei que é verdade.

Então, como posso alimentar minha família? Eu peguei muito dinheiro emprestado para transformar nossa tenda em uma casa de tijolos apropriada. Eu terminei de construí-la há poucas semanas. Nós nem dormimos ali o suficiente e já temos de ir embora. E nenhum de nós quer ir, mas é tudo muito difícil aqui.

A vida era boa em Damasco. Eu costumava levar as crianças ao parque nos meus dias de folga. Elas amavam. Desde que viemos ao campo de Domeez, eles ficam me perguntando por que não vamos mais ao parque. Não há parques aqui, só poeira por todos os lados. E, ainda assim, nos preferiríamos ficar a ir embora. Eu trabalhei duro para transformar a tenda em uma casa. Agora eu preciso vendê-la, para quitar a minha dívida. Há muitos curdos sírios morando fora do acampamento que estão dispostos a pagar para se mudarem para cá, porque aqui você não paga aluguel nem contas.

Mas depois que eu quitar minhas dívidas, não sobrará muito dinheiro para pagar os traficantes, então nós tentaremos a sorte, simplesmente iremos embora, seguiremos o restante das pessoas. Nós vamos viajar com outras famílias, alguns são nossos parentes. É muito perigoso ir sozinho. Muitas pessoas estão enfrentando os mesmos problemas que nós e também estão se preparando para ir embora. Meus parentes só estão esperando que eu encontre alguém que queira comprar minha casa.

Minha irmã quer que sua filha continue seus estudos. Seu marido foi embora há duas semanas, mas foi detido e preso na Hungria. Nós não sabíamos onde ele estava há dias, ou o que havia acontecido com ele, quando, finalmente, recebemos uma mensagem de que ele havia sido solto ontem depois que um traficante subornou um guarda.

As pessoas mantêm contato por meio do WhatsApp. Sempre tem uma família que tem um celular e o compartilha com os outros. Quando deixamos a Síria, trouxemos muito poucos pertences conosco, mas agora eu só levarei a lembrança gravada nas fotos. Quais memórias você quer que eu tenha depois de viver durante anos em uma tenda?

Nós fugimos muitas vezes e agora meus pais se recusam a se mudar novamente. Eu me preocupo em deixá-los para trás. Eu realmente não quero ir embora e temo pela minha família. Mesmo se eu chegar à Turquia e souber que tem algum trabalho aqui, eu voltarei.”

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