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Isolamento, irritação, ansiedade e estresse: a saúde mental no Iraque

18/04/2018
Em entrevista, Jasim Hammed, conselheiro de MSF no país, relata a luta dos pacientes para vencer problemas de saúde mental pós-conflito
Isolamento, irritação, ansiedade e estresse: a saúde mental no Iraque

Foto: Hussein Amri/MSF

As cicatrizes psicológicas e emocionais da guerra no Iraque são enormes e milhares de pessoas necessitam de assistência psicológica. A saúde mental é um elemento-chave de muitos projetos de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no país. Temos equipes médicas, psicológicas e conselheiros que fornecem cuidados vitais e apoio em casos de moderados a graves, incluindo casos de síndrome de estresse pós-traumático, depressão, esquizofrenia e ansiedade severa.

Jasim Hammed, de 32 anos de idade, fugiu de sua casa em Muqdadiyah, em 2014, e se abrigou no acampamento Alwand 1, na província de Diyala, onde ele agora trabalha como conselheiro de MSF.

Por que você deixou sua casa e veio ao acampamento Alwand 1?

Em julho de 2014, houve muitos tiros e bombardeios perto da minha casa, em Muqdadiyah, e muitas pessoas estavam morrendo. Minha mãe disse que lá não era mais seguro e que devíamos partir. Eu saí de lá com a minha família.

Quando estávamos fugindo, vimos muitos bombardeios e famílias sendo mortas. Uma família inteira que estava em dois carros atrás do nosso foi morta por um ataque aéreo.

Meu filho mais novo, Othman, tinha apenas 10 dias de vida na época e eu achava que ele não sobreviveria. Mas felizmente ele está vivo e comigo. Hoje, ele tem 3 anos de idade. Meu irmão mais novo foi sequestrado quando ele voltou à nossa cidade para completar seus estudos. Ele foi levado da casa da minha mãe. Não sabemos onde ele está.

Nós fomos de acampamento em acampamento até chegarmos aqui, em Alwand 1. Alguns dos acampamentos em que ficamos não tinham água nem eletricidade. Trabalhei para algumas outras organizações não governamentais no acampamento e depois me candidatei a uma vaga para trabalhar com MSF.

Qual é a situação no acampamento Alwand 1 e quais são os desafios que as pessoas enfrentam lá?

Mais de 3 mil deslocados internos vivem em Alwand 1. A maioria das pessoas vem de áreas próximas, como as cidades de Sadiyah, Jalawla e Muqdadiyah. Muitas fugiram do conflito com o grupo Estado Islâmico (EI). No acampamento, elas vivem em trailers com banheiros compartilhados. Há uma escola no acampamento e um centro de saúde, que é administrado por MSF.  

As pessoas que vivem no acampamento enfrentam muitos desafios. O principal é a situação financeira, e isso frequentemente afeta a saúde mental das pessoas. Algumas delas desistiram e disseram: “minha vida acabou. Estou farta."

Além das preocupações financeiras, há o medo adicional da incerteza do futuro. Houve uma retomada do conflito na região e o medo das pessoas aumentou. Algumas pessoas não conseguem se comunicar com membros de sua família e outras tiveram seus lares destruídos pelo conflito e não podem voltar para casa. Algumas das famílias dizem que não se sentem confortáveis vivendo em contêineres e que não os identificam como sendo suas casas, já que parecem uma prisão. Temos visto pessoas se isolando, com raiva, ansiosas e estressadas. Algumas das crianças apresentam sinais de comportamento agressivo, incontinência e ansiedade.  

Eu estava cuidando do caso de um homem que se isolava muito e não saía de seu contêiner. Eu comecei a ir vê-lo e, eventualmente, ele me contou sua história. Seu filho foi levado por um grupo armado. Ele conseguiu ter seu filho de volta, mas, quando eles passavam pelo último ponto de controle antes de chegar à sua casa, o grupo armado pegou seu filho novamente, atirou em sua cabeça e o jogou em uma vala. Ele diz que todos os dias sente saudades dele.

Depois de passarem por essas situações traumáticas, as pessoas não conseguem aceitar e lidar com o que aconteceu. Mas quando elas também vivem em acampamentos e não podem retomar sua vida ou planejar seu futuro, o impacto na saúde mental se torna mais severo.

O que envolve seu trabalho com MSF?

Como parte do meu trabalho em MSF, identifico pessoas que precisam de cuidados de saúde mental, tento aumentar a conscientização sobre saúde mental e serviços que MSF oferece e organizo sessões de aconselhamento em grupo com meus colegas. Se identificarmos um caso muito grave, encaminhamos para o psicólogo de MSF.

As sessões em grupo são geralmente uma boa maneira de identificar as pessoas que mais precisam de apoio. Normalmente, acompanhamos as pessoas que são muito introvertidas, retraídas e que não conseguem se concentrar. Depois das sessões em grupo, também recebemos pais que nos procuram e contam que estão preocupados com seus filhos, que sofrem com incontinência urinária ou ansiedade, e pedem ajuda.


Em fevereiro de 2018, no acampamento Alwand 1, MSF realizou 213 consultas individuais de saúde mental e 287 em grupo. MSF também oferece tratamento de doenças não transmissíveis (DNT), serviços de saúde sexual e reprodutiva, e sessões educacionais. Nas cidades de Jalawla e Sadiya, onde as pessoas estão voltando a suas casas, MSF oferece serviços contra DNT, de saúde mental, sexual e reprodutiva em colaboração com a Diretoria de Saúde
 

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