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Iraque: “Os pacientes que recebemos são os que têm ‘sorte’”

04/04/2017
Na entrevista a seguir, Jonathan fala sobre os cuidados emergenciais de trauma que ele ofereceu junto de sua equipe, formada por profissionais internacionais e iraquianos extremamente dedicados.
 “OS PACIENTES QUE RECEBEMOS SÃO OS QUE TÊM ‘SORTE’”

Foto: Alice Martins

Jonathan Whittall está trabalhando há três semanas no hospital de campanha de traumatologia recém-aberto por MSF em um vilarejo ao sul de Mossul. A instalação recebeu mais de 1.290 pacientes desde que abriu, em 16 de fevereiro deste ano, dos quais 261 eram mulheres e 395 crianças com menos de 15 anos da idade. Na entrevista a seguir, Jonathan fala sobre os cuidados emergenciais de trauma que ele ofereceu junto de sua equipe, formada por profissionais internacionais e iraquianos extremamente dedicados.

Como é um dia normal no hospital?

Não há nada de normal em um dia neste hospital. Todos os dias vemos os piores e mais absurdos ferimentos causados pela guerra. Há um fluxo quase constante de pacientes e todos eles chegam aqui contando histórias terríveis; uma família inteira que foi assassinada e apenas um membro sobreviveu; um pai e seu filho que ficaram presos por dias nos escombros de sua casa após um ataque aéreo, e só agora conseguiram chegar até nós para procurar ajuda; um menino pequeno que chegou com um ferimento à bala na cabeça; o pai de outro menino que nos contou que seu filho foi atingido por um atirador e tratado em casa durante dias antes de chegar paralisado ao nosso hospital; um bebê que chegou até nós com um ferimento à bala; um homem de 21 anos gravemente desnutrido que chegou ao hospital com um ferimento na cabeça causado por um golpe de rifle; um homem que morreu na chegada em decorrência de ferimentos profundos adquiridos enquanto tentava proteger seu filho de um bombardeio próximo. Para cada um desses casos, há cerca de centenas de outros igualmente terríveis.

Quem são os pacientes sendo tratados?

Estamos tratando os casos mais graves. Estamos estruturados para lidar com o que chamamos de casos “vermelhos”. Esses casos frequentemente requerem cuidados vitais imediatos e controle de danos para que os pacientes consigam sobreviver. Nossos dois centros cirúrgicos estão quase sempre ocupados com esse tipo de ocorrência. Depois da cirurgia, encaminhamos os pacientes a outros hospitais o mais rapidamente possível, a fim de sempre podermos receber novos casos vermelhos ou uma casualidade em massa.

Equipes de MSF na cidade e nos arredores de Mossul receberam mais de 2 mil pacientes em necessidade de cuidados urgentes e vitais nos últimos dois meses; a grande maioria deles precisava de tratamento para ferimentos ocasionados pelo conflito. No hospital de trauma do sul de Mossul em que estou trabalhando, recebemos cerca de 1.296 desses pacientes.

Quais tipos de ferimento estão sendo tratados?

Estamos recebendo todos os tipos imagináveis de ferimentos de guerra – múltiplos ferimentos à bala, feridas por bombardeios, queimaduras graves. Fazemos o nosso melhor para lidar com as consequências médicas de um conflito urbano de alta intensidade perpetrado contra uma população que se encontra encurralada e sem alternativas. Todos estão em risco. Além da extensão dos ferimentos, o estado em que esses pacientes chegam até nós é extremamente desconcertante. Muitos deles estão vivendo sob cerco há meses, não comem há dias e chegam aqui completamente assustados e perplexos. Muitas vezes, os pacientes chegam ao hospital descalços e cobertos de lama após andarem na chuva, cruzando as frentes de batalha na escuridão, com nada além das roupas que levam nas costas.

Nossos médicos e cirurgiões também tratam ferimentos causados pelos resquícios da guerra. Há poucos meses, a cidade onde estamos baseados estava na frente de batalha, mas hoje é um ponto de recepção para as dezenas de milhares de famílias que fogem do oeste de Mossul. Durante uma noite, recebemos vários pacientes feridos depois que uma mina foi detonada próximo ao acampamento onde vivem pessoas internamente deslocadas de Mossul. Numa manhã desta semana, recebemos uma criança de quatro anos que chegou morta, e fora ferida enquanto brincava com um explosivo não detonado que explodiu em suas mãos.

Como os pacientes chegam ao hospital?

Os pacientes enfrentam dificuldades extremas para acessar cuidados de saúde. Muitas vezes, as pessoas que recebemos aqui já foram estabilizadas em postos médicos próximo à frente de batalha. Os que recebemos aqui são os que têm “sorte”. Pelo que vi no hospital, tenho a impressão de que grande parte dos pacientes que recebemos são feridos em meio a bombardeios quando a frente de batalha chega a seus bairros. Muitos são feridos enquanto tentam escapar. Vimos pacientes com possíveis feridas causadas por tiros na nuca. Também vimos pessoas que foram feridas por ataques aéreos. Para os pacientes feridos nesses ataques – que acontecem frequentemente em regiões controladas pelo Estado islâmico – acessar cuidados médicos na região sul de Mossul pode demorar muitos dias. Pelo que entendo, essas pessoas só conseguem ter acesso à assistência médica quando a frente de batalha se afasta de seus bairros. Estamos profundamente preocupados com os relatos de que milhares de pessoas se encontram encurraladas e feridas no oeste de Mossul, impossibilitadas de acessar qualquer assistência médica fora dali.

Nos últimos dias, o hospital está mais calmo do que quando começamos as atividades. Não pensamos, porém, que isso seja decorrente de uma interrupção na violência em Mossul. É uma calma sombria: ataques aéreos continuam acontecendo, mas os pacientes não estão chegando até nós.

Como esse trabalho afeta a equipe que trabalha com você?

Os profissionais que trabalham neste hospital vêm de diferentes partes do Iraque e do mundo. Nossa equipe conta com profissionais de Mossul que não podem mais trabalhar em seus hospitais, profissionais internacionais que trabalharam em diversas guerras e têm experiência em cirurgia de trauma e profissionais não-médicos, como guardas, intérpretes e logísticos que mantém o hospital em funcionamento. Para os membros da equipe que vêm de Mossul, é particularmente difícil ver o nível de destruição e sofrimento da população de comunidades vizinhas. Outros profissionais da equipe, que são da cidade onde estamos baseados, estão reconstruindo suas vidas depois que o conflito passou pela cidade alguns meses atrás. Nosso hospital está rodeado de casas destruídas. Todo mundo perdeu alguém nesta guerra. Ainda assim, este hospital tem uma das melhores dinâmicas de equipe que já vi. Todos trabalham ininterruptamente e estão sempre a postos, prontos para se adaptar às situações difíceis e encontrar soluções para que possamos continuar salvando vidas. Estamos extremamente orgulhosos do trabalho que vem sendo feito aqui.