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Iêmen: “Viver se tornou muito mais difícil”

11/12/2017
Por Monia Khaled, supervisora de água e saneamento de MSF no Iêmen
Monia Khaled, de MSF.

Foto: Dalila Mahdawi

“Eu estava de férias quando os conflitos e ataques aéreos começaram, na semana passada. A região diplomática de Sanaa, onde ocorreram os piores confrontos, é perto da minha casa. No dia em que os combates começaram vi muitos homens armados instalando postos de checagem nas ruas. As estradas estavam completamente vazias, então fui rapidamente fazer compras com minhas irmãs e voltamos diretamente para casa. Foi então que o conflito começou de fato.

Fiquei em casa com minha família a semana inteira. Não podíamos sair, então tivemos sorte de ter comprado tudo que precisávamos. Assistíamos o noticiário o tempo todo e localizamos todos os familiares e amigos. Ouvíamos falar nos corpos de pessoas mortas nas ruas e não nos sentíamos seguros. Minha mãe e minha filha dormiam no chão, no quarto mais seguro da casa, longe das janelas. Meus familiares foram muito afetados – sua casa de três andares foi gravemente destruída. Havia atiradores nos prédios da região, de modo que eles não conseguiram fugir até que uma casa próxima a deles foi destruída por um ataque aéreo. Também ouvi falar de uma mulher que não pôde sair de casa para ter seu filho no hospital. Outra família ficou encurralada em um prédio incendiado, porque havia um confronto intenso do lado de fora. Ouvimos muitas histórias terríveis.

A guerra de mais de dois anos e meio mudou muitas coisas por aqui e teve um grande impacto na saúde pública. Alguns medicamentos que meus pais precisam tomar não estão disponíveis nos últimos dois meses. Agora temos que procurar reposições ou pedir às pessoas que conhecemos e que estão vindo de outros países para trazê-los. Antes, o medicamento para a condição cardíaca do meu pai era encontrado facilmente, mas agora é quase impossível encontrá-lo, e seu custo aumentou bastante. O preço de tudo por aqui muda de um dia para o outro, dependendo da disponibilidade. Antes dos confrontos da semana passada, o gás de cozinha custava 4.500 riais iemenitas (cerca de 60 reais); agora, custa 6 mil (78 reais). Os preços dos alimentos aumentaram tanto que as pessoas não compram mais frutas, adquirindo somente o básico para alimentar suas famílias, e isso afeta diretamente sua saúde. Eu ajudo a sustentar minha família e os preços flutuantes realmente nos afetam. Agora temos que guardar dinheiro para o caso de emergências, de modo que compramos apenas o que é estritamente necessário.

Muitas clínicas e hospitais em Sanaa foram fechados durante o conflito deste mês, mas a guerra em geral tornou o acesso a cuidados médicos mais difícil. Durante o bloqueio, os que precisavam ir para fora do país em busca de cuidados de saúde tinham que encontrar alguma forma de sair ou ficariam retidos aqui. Como organização médica e humanitária, Médicos Sem Fronteiras (MSF) está fazendo muito no Iêmen, de assistência de água, suprimentos e saneamento a promoção de saúde e assistência médico-humanitária. É bom saber que enquanto muitas organizações saíram do país devido à violência recente, MSF permaneceu aqui. Estamos no terreno, lado a lado com a população.

Hoje, as condições de vida são precárias para muitas famílias. Começamos a sentir a guerra de fato quando as pessoas pararam de receber seus salários. Muitos profissionais do setor público, como agentes do Ministério da Saúde, não são pagos há mais de um ano. Todo dia é um desafio para muitos – o simples fato de viver se tornou mais difícil.

A última vez que confrontos de rua haviam acontecido foi em 2011. Penso que esse tipo de conflito é pior que os ataques aéreos. Ao menos nesses ataques sabemos que os combatentes normalmente atingem determinados pontos, então ainda podemos sair, ir trabalhar etc. Porém, com os confrontos de rua, é mais difícil e não temos garantias de segurança. Isso significa que muitos civis vão morrer. Antes dos combates, eu era otimista de que os problemas estavam perto de acabar e que a guerra finalmente acabaria. Mas agora as coisas parecem ter piorado”.
 

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