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Iêmen: vida e morte em Abs

10/07/2017
Residentes e profissionais de MSF da região descrevem as condições difíceis dos que vivem entre a violência e a doença sem acesso a alimento, água ou cuidados médicos
Iêmen: vida e morte em Abs

Foto: MSF

Em uma manhã quente de junho, Zahra Hussain acordou e encontrou suas filhas gêmeas doentes, com os corpos moles como bonecas de pano. Zahra não tinha dinheiro para comprar leite e foi pedir carona para chegar ao hospital mais próximo, a uma hora de distância dirigindo. “Estou colocando minha confiança nas mãos de Alá”, ela decidiu. Ao sair no sol intenso, com as filhas nos braços e o marido ao seu lado, ela esperou que o destino interviesse.

Até hoje, Zahra e sua família conseguiram driblar a morte; eles conseguiram sobreviver tanto ao conflito como à escassez de alimentos que se alastrou pelo Iêmen nos últimos dois anos. Agora, a cólera se aproximava do vilarejo em que viviam e se dissemina pelo país, tendo ceifado mais de 1.600 vidas e afetando mais de 269 mil pessoas.

Em sua forma mais grave, a cólera causa diarreia aquosa profusa e vômitos. Esses sintomas podem levar à desidratação, convulsões e estado de choque. Em casos mais graves, a morte pode vir poucas horas após o início da doença. Com tratamentos adequados e reidratação, a taxa de morte é de menos de 1%. Sem tratamento, 50% dos que manifestam sintomas graves morrem. Tudo era uma questão de tempo.

Para Zahra, o destino definitivamente interveio, na forma de um estranho que parou seu carro e se ofereceu para levá-la à Abs, onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém um centro de tratamento de coleta (CTC) em uma escola adjacente ao hospital. Para Zahra, esse centro significava a maior esperança que ela tinha de salvar suas filhas, Kholah e Saher. Ela deixou seus outros quatro filhos em casa com seu pai, que também estava doente, e então entrou com seu marido e as gêmeas no carro. Não havia outra escolha.

Ahmed Qassem, supervisor da sala de emergência, estava no hospital quando a família chegou. No CTC, o médico de plantão admitiu os bebês e os levou para uma rápida avaliação. As irmãs, de sete meses de idade, contraíram cólera três dias antes, estavam gravemente desidratadas e em estado de choque, concluiu o médico. As duas crianças estavam entre os pacientes mais jovens que a clínica já recebera.

“Antes, nós recebíamos em média dez ou 15 pacientes por dia. Agora recebemos mais de 100”, disse Ahmed. Dez dias depois, sua equipe recebeu o número recorde de 479 pacientes em um dia. O governo declarou estado de emergência em maio. A Organização das Nações Unidas (ONU) descreveu a situação como uma das maiores crises humanitárias do mundo.

De muitas maneiras, Abs, uma pequena cidade na província de Hajjah, se tornou uma pequena parte das múltiplas forças que moldam a atual crise do Iêmen. A região tem a concentração mais alta de pessoas deslocadas na região. Muitas delas fugiram de violência em seus vilarejos apenas para encontrar pobreza e insegurança em Abs. A cidade fica localizada a cerca de 50 quilômetros das frentes de batalha. De dentro do hospital, às vezes é possível ouvir o zumbido dos aviões de guerra que circulam no céu.

Desde que o atual surto começou, o CTC tratou mais de 12.200 pessoas. O tratamento é oferecido gratuitamente aos pacientes, que vêm de mais de dez distritos diferentes e que viajam por até cinco horas para conseguir chegar a Abs.
 “As pessoas não têm mais para onde ir”, disse Ahmed. A maioria de sua família fugiu do país para o Djibuti e outros lugares. “Nós temos economias suficientes para navegar se for necessário. Não posso dizer o mesmo das famílias pobres e dos que viram as próprias cidades serem destruídas”.

 Ahmad Muqbal Aqeeli chegou ao hospital há dois dias da província de Al Hudaydah, que tem a segunda maior prevalência de cólera no país. “Muitos pacientes pioram de condição enquanto tentam chegar a essa clínica. É uma jornada longa e tediosa. Alguns não conseguem lidar com isso e morrem na estrada”, diz ele. Ahmad chegou acompanhado de seu tio e sua avó, que sofria de vômitos e diarreia. “Temos os ataques aéreos vindo de cima e a cólera de baixo”, diz ele.
A cidade de Zahra, no distrito de Hayran, também está perto da frente de batalha: “Eu sinto medo. Não é como antes, que você poderia ir a qualquer lugar e se sentia seguro”, diz ela. Ainda assim, ela completa: “Eu nunca deixaria meu país. Eu quero que meu país volte a ser como era”.

A maioria dos pacientes de Ahmed está na mesma situação de Zahra: pobre e sem emprego. Muitos deles estão surpresos em saber que a cólera pode ser evitada com medidas simples de precaução. Porém, a maioria deles não tem sabonete e, sem acesso a água tratada e potável, bebem aquilo que conseguem encontrar.
Equipes de MSF iniciaram atividades de sensibilização comunitária a fim de conter a epidemia e viajaram até vilarejos remotos para ensinar às pessoas medidas adequadas de higiene e modos de clorar a água. Porém, a rápida disseminação da doença ofuscou todos esses esforços.

Além de MSF, há poucas organizações humanitárias na região. A guerra prejudicou a provisão de assistência. As importações, que constituíam 90% do alimento do país, foram reduzidas a quase nada. A maioria das famílias sobrevive de porções de alimentos como farinha, óleo, açúcar e feijão. “É difícil dar aos meus filhos o leite de que precisam. Eu passo muitos dias procurando leite, preocupada e ansiosa.  Minhas crianças foram criadas no meio da guerra”, diz Zahra.

Dentro do CTC, o calor era sufocante e ultrapassava os 45 graus. Os médicos lutavam para tratar a desidratação das gêmeas. Então, usando uma fita métrica, calcularam a circunferência dos antebraços das crianças. A medida é usada para determinar se alguém está sofrendo de desnutrição. Para um bebê de sete meses, qualquer número abaixo da medida de 115 milímetros é considerado grave. A medida das crianças era de 100 milímetros, já na faixa de vermelha de alerta.  

Em diversas regiões do país, o surto de cólera agravou outras carências. Aproximadamente 17 milhões de pessoas – dois terços da população – viviam em insegurança alimentar, de acordo com a ONU. Cerca de dois milhões de crianças iemenitas com menos de cinco anos de idade são consideradas gravemente desnutridas.

Kholah e Saher foram alimentadas com leite quando pairavam entre a vida e a morte. Os pensamentos de Zahra flutuavam em direção aos quatro filhos que havia deixado em casa sob os cuidados de seu pai. Seu marido queria que todos voltassem para casa, mas a equipe médica resistiu em nome da saúde e da segurança das gêmeas.

“Muitos esforços foram necessários para convencer o pai a deixar as crianças e a mãe no CTC. É uma situação muito comum. Eles têm outros filhos em casa e não podem ficar cuidando dos que estão doentes muitos dias, então sofremos muita pressão para dispensar esses pacientes antes do tempo recomendado”, apontou um médico.

Há outras razões para os pacientes relutarem em ficar muito tempo. Diversos hospitais, antes considerados seguros e protegidos por leis internacionais, foram atacados. Desde que a guerra começou, ao menos 274 instalações de saúde foram prejudicadas ou destruídas por ataques aéreos e, em muitos casos, forçadas a fechar, impedindo que grandes faixas da população tivessem acesso a cuidados médicos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
O hospital de Abs foi atingido no dia 15 de agosto do ano passado. Um ataque aéreo atingiu um carro que estava estacionado no complexo do hospital. A força de explosão atingiu a zona de triagem e a sala de emergência. Ahmed, que estava em reunião nesse momento, inicialmente pensou que um tanque de oxigênio havia explodido. Quando ele saiu da instalação, não acreditou no que estava vendo.

“É impossível acreditar que fomos bombardeados”, ele se lembra de ter pensado no momento. “Quando vi a sala de emergência em chamas, corri em direção à ala da maternidade. Eu estava em choque; toda minha equipe poderia estar morta. Me aproximei da sala de emergência diversas vezes, mas era doloroso demais. Havia tecidos moles, membros e corpos amputados por toda parte... era terrível”.

Uma investigação subsequente concluiu que uma coalisão liderada pela Arábia Saudita havia lançado um projétil contra um alvo móvel – o carro estacionado dentro do hospital. Um porta-voz oficial da Equipe de Avaliação de Incidentes da coalisão declarou que o ataque foi um “erro acidental”. Ao todo, o ataque aéreo matou 19 pessoas e feriu outas 24.  
Ahmed se lembra de como se sentiu na sequência: “Cheguei em casa naquela noite e ainda não conseguia assimilar o que havia acontecido”, disse ele. “Eu ficava andando pela casa, como se tivesse perdido alguma coisa”.

O hospital foi fechado por 11 dias. MSF evacuou seus profissionais e voltou à instalação em novembro de 2016. No início, pacientes iam até Abs buscando cuidados e tratamentos para tudo, de malária a complicações na gravidez, passando por ferimentos traumáticos.

Quando a cólera se intensificou em abril, tudo mudou. O hospital transbordava de casos da doença e as equipes tomaram conta da escola ao lado da instalação, que estava vazia devido às férias escolares de verão dos alunos. Tendas foram montadas no playground, leitos de cólera colocados em salas de aula e estações de cloração de água instaladas nos corredores.

Dentro do CTC, os médicos lutavam para estabilizar as gêmeas. Kholah e Saher estavam no hospital há mais de 24 horas, mas sempre que havia algum progresso em sua condição, um novo problema aparecia. Uma delas foi diagnosticada com uma infecção no peito; a outra teve febre alta. O peso das duas estava aproximadamente igual ao de quando foram admitidas, com apenas 3,5 quilos.

Enquanto isso, as preocupações de Zahra em relação aos seus outros filhos aumentavam. Ela disse aos médicos que queria levar suas gêmeas para casa: “Nossa situação é difícil. Meus filhos estão em uma condição difícil. A vida no vilarejo era difícil. Eu ainda estou preocupada com eles”, ela disse. Os médicos sabiam que, se as gêmeas fossem embora, não haveria garantias de que elas receberiam o cuidado de que precisavam. O hospital de Abs era uma das únicas instalações de saúde funcionando integralmente na região.  

Em muitas regiões do país, agentes de saúde pública não recebem seus salários do governo desde setembro do ano passado. Sem profissionais, muitas instalações de saúde foram forçadas a fechar ou limitar suas atividades, deixando os serviços médicos do Iêmen em estágio de colapso, justamente no auge da epidemia de cólera. “As pessoas nesta região não têm para onde ir além deste hospital”, disse Ahmed. “Sua situação é realmente ruim, mas eles não podem ir a outros lugares em busca de atendimento médico”.

No dia 15 de junho, dois dias após serem admitidas, as gêmeas foram transferidas para o centro de nutrição do hospital de Abs, onde começaram a se estabilizar. No dia 20 de junho, os médicos declararam que Kholah e Sahed haviam mostrado sinais suficientes de melhoras, a ponto de poderem passar para a “fase de transição”, na qual os pacientes continuam se recuperando sob supervisão médica. Os profissionais estavam esperançosos. Menos da metade dos pacientes admitidos no CTC havia morrido até então. A clínica evitou a morte de mais de 12 mil pessoas. A sorte havia virado significativamente em favor das duas meninas. Para Zahra, isso era o suficiente. Era hora de levar as crianças para casa.

“Infelizmente, manter os bebês aqui sob tratamento se provou algo difícil. A família decidiu que já havia se passado muito tempo e levaram as crianças para casa (dispensadas contra a recomendação dos médicos)”, contou o médico que cuidava das meninas.

Sete dias depois de chegarem a Abs, morrendo de desidratação, as pequenas gêmeas voltaram para seu vilarejo com a família. Curadas da cólera, agora elas tinham uma chance de sobreviver. O médico das crianças disse: “Tanto Kholah como Saher pesavam 3,6 quilos quando as dispensamos. Elas ainda estão gravemente desnutridas, mas estáveis”.
 

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