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Iêmen: promotora de saúde fala sobre como é cuidar de gestantes durante uma guerra

05/08/2020
Zainab explica a importância de sua atividade e como se transformou em chefe de família, sustentando os irmãos mais novos
Iêmen: promotora de saúde fala sobre como é cuidar de gestantes durante uma guerra

Foto: Maya Abu Ata/MSF

Não são poucos os desafios para levar atendimento médico às pessoas que mais precisam em meio a um conflito como o do Iêmen, que já dura seis anos. MSF atuou pela primeira vez no país em 1986 e desde 2007 tem mantido uma presença constante na região. Atualmente, trabalhamos em 12 hospitais e centros de saúde em todo o território iemenita e prestamos apoio a mais 20 unidades de saúde em 13 províncias.

Zainab é promotora de saúde de MSF há três anos. Ela trabalha apoiando gestantes e mães em uma unidade de saúde materno-infantil em Houban, na província de Taiz. No relato emocionado abaixo, ela fala sobre a importância de sua atividade e de como se tornou chefe da família, cuidando da educação dos irmãos mais novos e apoiando financeiramente todos eles. Também destaca como o apoio dos colegas de MSF foram fundamentais nos momentos mais difíceis pelos quais passou.

“Eu trabalho na equipe de MSF há três anos e minha atividade me ajudou de várias formas: primeiro, ajudou minha família, já que eles recebem meu apoio financeiro; e ajudou também as pessoas mais necessitadas. Meu trabalho aqui é uma bênção de Deus.

Meu papel como promotora de saúde consiste em conscientizar as gestantes e as novas mães sobre questões de higiene e saúde, sobre doenças e como evitá-las, e, de forma mais geral, sobre MSF e o seu trabalho.

Encontrando um lugar especial

Antes da guerra, minha vida em Taiz era boa e estável. Eu estudava. Depois que minha mãe morreu, a vida ficou mais difícil, mas eu tive meu pai como apoio.

No entanto, as dificuldades cresceram quando a guerra eclodiu. Muitas pessoas pararam de receber salários e a situação econômica da maioria dos iemenitas piorou. Depois de terminar meus estudos, procurei um emprego para poder sustentar minha família nesses tempos difíceis. Sou a mais velha dos meus irmãos e me sinto responsável por eles.

Eu tinha ouvido falar de MSF e do hospital. O nome MSF para mim era sinônimo de cuidados com as gestantes. Então, quando eles disseram que precisavam de educadores em saúde, eu me inscrevi imediatamente. Quando cheguei ao hospital naquele primeiro dia, senti que estava entrando em um lugar especial, que estava fazendo parte de MSF. Para mim, isso significava muito.

Aquele dia…

Eu moro aqui em Houban desde que fecharam as estradas. Por dois anos, eu não consegui chegar à cidade de Taiz para ver minha família ou até mesmo enviar dinheiro para apoiar meus irmãos. Minha irmã ainda estava na universidade e minha outra irmã logo a seguiria, enquanto meus irmãos mais novos precisavam de cuidados e atenção.

Dois anos atrás, eu estava comemorando o aniversário do Hospital Mãe e Filho aqui em Houban com meus colegas de MSF - foi um dia de pura alegria. Quando voltei para casa, recebi uma ligação dizendo que meu pai havia morrido. Ele foi morto em um acidente de carro envolvendo um veículo da patrulha de segurança.

Eu não podia acreditar. Eu sabia que meu pai era forte, ele podia desafiar qualquer coisa, e ele se foi e isso era insuportável.

O corpo do meu pai foi refrigerado. Quando cheguei ao necrotério, gritei freneticamente:

‘Tire-o daqui - ele sentirá frio, sentirá frio.’    

Todo mundo pensou que eu tinha enlouquecido. Mas eu perdi meu apoio e minha espinha dorsal. Eu estava cheia de uma sensação de desamparo.

‘Por que ele saiu? A culpa é da guerra’, pensei.

Eu afundei em uma depressão. Levei um tempo para me recuperar do trauma de sua morte. O que me ajudou nesse momento muito difícil foi o tremendo apoio emocional que recebi de meus colegas.

Desespero

Estava na hora de viajar para casa. Eu não liguei para as estradas estarem fechadas. Depois de perder meu pai, nada parecia importar. Ver minha família e estar com eles nesse momento foi o único pensamento que tive. Finalmente, consegui visitar minha casa, mas já era tarde demais. A situação era desesperadora. A morte dele estava na mente de todos. Então, reuni meus irmãos, peguei alguns de nossos pertences, tranquei nossa casa e trouxe minha família aqui para morar comigo.

Ser deslocada, perder seus entes queridos, abandonar sua casa, deixar para trás seus pertences e suas memórias de infância. Tudo isso me custou muito.

O que me dá consolo é que minha família agora está segura e eu trabalho para MSF.

Esse trabalho me permitiu financiar a educação universitária da minha irmã - ela está estudando para se tornar médica. Também apoiei a educação de minha outra irmã - ela planeja se tornar farmacêutica. Meus outros irmãos ainda estão na escola.

Sem esse trabalho, nada disso seria possível. Este hospital salvou muitas vidas, incluindo a minha e de minha família.

Sou uma mulher chefe de família

Houve muitos desafios. Estar longe da minha família era horrível - não escolhi a distância, mas tive que ficar aqui para ganhar o suficiente para apoiá-los. Eu nunca os teria deixado se as coisas em nossa região estivessem indo bem.

Eu estava tensa e ansiosa a maior parte do tempo. Sempre que ouvia bombardeios ou tiros em nossa região, ligava para minha família imediatamente. Se eu não conseguia falar, era tomada por pensamentos sombrios.

Eu sempre tive pesadelos: ‘Meu pai pode ser morto, meu irmão pode ser levado de casa, minhas irmãs podem ser sequestradas.’    

Você fica preso em um turbilhão psicológico.

Os desafios não pararam por aí.    

‘Você é uma mulher. Seu lugar é em casa …’               

‘Seu pai morreu, então você deve voltar para o vilarejo.’          

‘Vá para casa e nós a apoiaremos financeiramente. Não há necessidade de cursar universidades, não há mais necessidade de morar na cidade.’               

Era isso que eu ouvia de parentes e conhecidos. Pode ser difícil para a sociedade entender que uma mulher pode ser responsável por uma família inteira. Mas desafiei suas opiniões: me recusei a ouvir e continuei trabalhando.

Pude provar a eles, e a todos os outros, que eu poderia lidar com essa responsabilidade.

Paz e estabilidade

Espero continuar trabalhando com MSF nos próximos anos e espero que MSF nunca saia deste lugar. Há tantas pessoas vulneráveis ​​dependentes dos cuidados de saúde prestados aqui e muitos profissionais que dependem do hospital para sua subsistência.

Espero poder apoiar todos os meus irmãos por meio da educação deles. Espero vê-los vivendo com conforto e segurança.

Paz e estabilidade é tudo o que precisamos.”

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