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Iêmen: “O sistema de saúde está à beira de um colapso”

09/09/2016
Enfermeira de MSF fala das dificuldades de viver em um país tão atingido pela guerra e da admiração pelas equipes de saúde locais
Iêmen: “O sistema de saúde está à beira de um colapso”

Foto: MSF

Crystal van Leeuwen, uma enfermeira do Canadá, acaba de voltar de sua experiência de sete meses como coordenadora das atividades médicas da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no Iêmen. Membro da equipe de emergência de MSF, Crystal trabalhou com a organização em diversos países, entre eles Síria, Sudão do Sul, República Democrática do Congo e Nigéria, além de ter trabalhado na resposta ao Ebola na África Ocidental.

 “Quando eu cheguei à capital do Iêmen, Sana’a, vindo de Djibouti, os cantos da pista estavam cheios de pedaços de aeronaves destruídas, grandes e pequena – eu estava obviamente em um país afetado pela guerra.

(Foto: MSF)Na viagem de sete horas até Taiz, passamos por casas de pedra antigas construídas ao lado das montanhas, com uma vida aparentemente normal correndo nos pequenos vilarejos, e por um instante eu quis estar visitando o Iêmen como turista. Mas o conflito, que já acontece há quase dois anos agora, é algo impossível de ignorar: passamos por mais de 30 postos de checagem militarizados e vimos pontes quebradas, viadutos destruídos e estilhaços por toda parte. 

Na cidade de Taiz, grandes áreas estão seriamente afetadas pela guerra, com ruas desertas cheias de barricadas, prédios destruídos, buracos causados por bombas e uma frente de batalha ativa cruzando a cidade. Naquela época, a casa de MSF era perto da frente de batalha, e era possível ouvir os sons de bombardeios e ataques aéreos tanto de dia como de noite – rapidamente você consegue saber a direção dos bombardeios. Desde então, nos mudamos para viver no prédio do hospital.

Era inevitável pensar nas pessoas que vivem nessa situação por muito mais tempo que eu, tentando seguir suas vidas normalmente em meio ao conflito e ao medo. Os mercados funcionam, há pessoas nas ruas, mas você nunca sabe quando nem onde pode acontecer um ataque aéreo, um bombardeio ou tiros de bala perdida. É muito triste pensar na sensação de medo com que essas pessoas são obrigadas a conviver.

Uma das atividades de MSF em Taiz é manter um hospital de cuidados materno-infantis, em um prédio que originalmente seria um hotel ou um shopping. O foco é nas crianças menores de cinco anos e nos serviços de saúde reprodutivas – como cesáreas, partos, cuidados pré e pós-natais, planejamento familiar, nutrição, neonatologia e pediatria. A frequência é muito alta, já que a maioria das pessoas não consegue ter acesso a esses serviços de graça em outros lugares.

Eu nunca vou esquecer do primeiro parto de gêmeos que fizemos no hospital. Foram os primeiros recém-nascidos em estado crítico que tivemos. Eles nasceram prematuros, no sétimo mês de gravidez, de uma mãe de primeira viagem muito jovem, e eram tão pequenos que cada um deles cabia na palma da minha mão. Por serem tão prematuros, sua chance de sobrevivência era baixa, mas a equipe estava muito focada em salvar essas duas vidas. Usamos um ‘aquecedor de bebês’ – uma cama com uma lâmpada de aquecimento – para manter a temperatura corporal dos dois estável. A situação era muito imprevisível – tivemos de reanimá-los muitas vezes. Porém, depois de sete semanas, demos alta a dois pequenos gêmeos muito saudáveis, Ola e Osman. Os pais estavam muito gratos – era uma grande alegria ver a satisfação no rosto da mãe e do pai no momento em que eles deixavam o hospital.

Do outro lado da frente de batalha que atravessava a cidade, estamos oferecendo serviços semelhantes apoiando uma instalação do Ministério da Saúde para saúde reprodutiva, além de um hospital pediátrico.

Dos dois lados da frente de batalha, nós apoiamos ou mantemos salas de emergência onde atendemos pacientes com ferimentos causados pelo conflito. Um dia, em meados de agosto, depois de os acordos de paz serem rompidos e o nível de violência voltar a aumentar, instalações apoiadas por MSF em Taiz receberam 59 civis feridos na guerra, 19 deles mulheres e crianças. Geralmente, vemos ferimentos causados por explosões, por bala, por estilhaços, vítimas de explosões de minas – e também muitas vítimas de acidentes de carro. Para os que precisam de tratamento avançado ou mais especializado, ajudamos a facilitar o encaminhamento para outros hospitais. Mas para muitas pessoas em Taiz isso não é uma opção, já que elas estão presas entre as frentes de batalha e, com isso, devem se contentar apenas com os serviços de saúde limitados que estão disponíveis nas imediações.  

As necessidades médicas e humanitárias da população do Iêmen são vastas. Podemos ver muito claramente que há mais necessidades: itens essenciais para pessoas que foram deslocadas de suas casas em decorrência da violência; cuidados de saúde primária e doenças crônicas; cuidados de saúde reprodutiva e infantil; cuidados de cirurgia avançada e reabilitação. Mas temos que aceitar o fato de que não podemos fazer tudo. Temos que escolher aquilo que podemos fazer melhor com recursos limitados, para oferecer o melhor cuidado possível aos grupos mais vulneráveis. É muito difícil tomar essa decisão, e essa foi uma das razões para o meu trabalho no Iêmen ser tão desafiador.

Em Sana’a, mantemos um programa que normalmente seria algo fora da nossa zona de conforto: apoio ao tratamento de diálise em pacientes com falência renal. Decidimos entrar nisso porque ninguém mais poderia intervir tão rápido quanto nós. O tempo é crucial, porque se esses pacientes interrompem o tratamento, eles podem morrer. A morte por essa causa, dependendo do nível da doença, pode ser muito rápida ou muito lenta e dolorosa. Muitas vezes esses pacientes foram deslocados de suas casas em decorrência do conflito, e então deslocados uma segunda vez por precisarem achar uma instalação médica em funcionamento que possa aceitá-los – uma instalação que não tenha sido fisicamente prejudicada, que tenha uma quantidade suficiente de suprimentos, que não esteja lotada e possa poder admitir novos pacientes.

O sistema de saúde no Iêmen foi muito afetado, tanto em termos de saúde preventiva quanto de programas de vacinação infantil e cuidados primários, secundários ou terciários – tratamento contra o câncer ou doenças crônicas. A infraestrutura de saúde foi gravemente afetada pela guerra. Em todo o país, hospitais e outras instalações médicas não estão recebendo a devida proteção a que tem direito, de acordo com o direito internacional humanitário. Muitos hospitais e instalações de saúde foram prejudicados ou completamente destruídos por ataques aéreos ou fogo de artilharia. Hospitais de MSF estão entre os atingidos.

O ataque mais mortal a um hospital de MSF no Iêmen aconteceu em Abs, no dia 15 de agosto, matando 19 pessoas e deixando outras 24 feridas. Depois do ataque, tomamos a difícil decisão de retirar nossas equipes de Abs e de outros cinco hospitais que apoiamos nas províncias de Saada e Hajjah, no norte do Iêmen, já que consideramos que ali os riscos são muito altos. Alguns membros muito dedicados do Ministério da Saúde continuam nos hospitais de que MSF saiu, trabalhando sob condições perigosas para prestar apoio a suas comunidades. Mas, em todo Iêmen, tanto equipes médicas como pacientes têm a total e difícil noção de que vivem em meio a uma guerra que faz pouca distinção entre alvos civis e militares. 

Nos hospitais públicos que ainda funcionam no Iêmen, os leitos estão cheios – as pessoas que podem vêm de todas as partes do país para ter acesso aos cuidados médicos possíveis. Para outros, tudo o que resta são clínicas privadas que, na atual crise econômica, são inacessíveis para boa parte da população.

É incrível ver a dedicação da equipe de saúde local. A guerra traz consequências para eles e suas famílias e ainda assim eles trabalham, às vezes tendo que cruzar as frentes de batalha para chegar ao hospital – enfrentando filas nos postos de checagem, cruzando uma terra de ninguém ou enfrentando tiroteios. Muitas de suas famílias fugiram para áreas mais seguras, e ainda assim eles continuam arriscando as próprias vidas para prestar assistência à sua comunidade. É uma honra trabalhar ao lado deles.”

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