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Iêmen: “Nossa preocupação é que Hodeidah fique sitiada por causa dos combates"

06/07/2018
Se sitiada, 600 mil civis sofrerão sem acesso a cuidados de saúde
Iêmen: “Nossa preocupação é que Hodeidah fique sitiada por causa dos combates"

Foto: Ehab Zawati/MSF

Na quarta-feira, 13 de junho, as forças leais ao presidente Hadi, apoiadas pela coalizão liderada pela Arábia Saudita e pelos Emirados Árabes Unidos, lançaram oficialmente uma ofensiva para tomar o controle da cidade de Hodeidah das mãos do grupo Ansar Allah (houthis). Ainda há 600 mil pessoas vivendo na cidade. A maioria das importações do Iêmen passa pelo porto de Hodeidah no mar Vermelho, um dos poucos portos estratégicos abertos às pessoas que vivem no norte do país. Atualmente, MSF está ampliando sua capacidade médica na área.

Caroline Seguin, coordenadora de projeto de MSF, explica o que vem acontecendo.

Qual é a atual situação em Hodeidah?

“Forças apoiadas pela coalizão saudita estão atualmente lutando contra as tropas do grupo Ansar Allah pelo controle do aeroporto de Hodeidah, localizado a poucos quilômetros ao sul do centro da cidade. É muito difícil avaliar a situação, pois ainda não temos equipes de MSF em Hodeidah, mas a equipe médica com a qual trabalhamos relatou ataques aéreos e bombardeios dentro da cidade.

As pessoas já começaram a armazenar alimento e combustível. As forças de Ansar Allah têm estado muito ativas em Hodeidah, cavando trincheiras, construindo barricadas e enviando tropas para perto de áreas civis, como zonas residenciais, hospitais e hotéis, o que é muito preocupante. O sistema de água de Hodeidah foi afetado por essas escavações e moradores relataram escassez de água. Não há eletricidade há anos e quando as pessoas podem arcar com o custo, elas usam geradores.

É difícil estimar quantas pessoas fugiram da cidade até agora. Foram observadas ondas populacionais vindas do sul para o norte da cidade. Algumas famílias deslocadas mudaram-se para as províncias de Dhamar, Ibb e para a capital Sanaa, onde podem alugar casas ou ficar com parentes. Desde o início da guerra, em março de 2015, o preço médio do combustível mais do que dobrou, então, fugir da cidade pode custar muito dinheiro às famílias.”

O que MSF está fazendo na área?

“As equipes de MSF estão ajudando os hospitais a tratar feridos de guerra em Hodeidah, Mocha e no distrito de Far Al Udayn, oferecendo suprimentos médicos e treinando à equipe médica. Em Hodeidah, MSF enviou equipamentos médicos ao hospital Al Thawrah, a principal instalação de saúde da província e onde 80% dos moradores estão sendo tratados. Também vamos montar um hospital de campanha perto de Mocha, a 180 km ao sul de Hodeidah. As pessoas com quem estamos trabalhando relataram que, todos os dias, entre 30 e 60 feridos vindos das frentes de batalha chegam ao hospital de Mocha. Dos casos atendidos, 60% são emergenciais.

No hospital de MSF em Aden, nossas equipes estão respondendo ao influxo de feridos nas frentes de batalha de Hodeidah e Taiz. Elas estão agora ampliando a capacidade da instalação de 80 para 110 leitos, com tendas adicionais que permitirão que mais pacientes recebam atendimento. Desde o começo dos confrontos em maio, o hospital funcionou em plena capacidade e mais de 150 pacientes vindos das frentes de batalha foram tratados. Entre esses pacientes, 15% são crianças e adolescentes com menos de 15 anos e 80% foram feridos por tiros, bombardeios e explosões de minas terrestres. Eles devem ter levado pelo menos seis horas para chegar a Aden, na maioria das vezes em condições críticas de saúde. No dia 23 de junho, recebemos civis feridos durante os bombardeios em Hays, uma cidade localizada 130 km ao sul de Hodeidah. Eles foram feridos por volta das onze horas da manhã em Hays, mas só chegaram a Aden às dezoito horas".

Como você vê a evolução da situação?

“Uma das nossas principais preocupações é que Hodeidah fique sitiada por causa dos combates, com civis presos dentro de casa. As trincheiras e barricadas, assim como os combates em curso, estão tornando mais perigoso o deslocamento de civis, mesmo através de ambulâncias. Também nos relataram casos em que nenhuma ambulância pôde acessar os feridos por causa de minas terrestres. MSF está preocupada que o acesso básico a unidades de saúde – como salas de emergência, maternidades e enfermarias pediátricas – se torne ainda mais limitado para as comunidades já afetadas por mais de três anos de guerra.

Além disso, a maioria das importações do Iêmen, incluindo suprimentos humanitários, passam pelo porto de Hodeidah. Isso faz com que o porto se torne um local vital para os iemenitas que vivem no norte do país, bem como para a assistência humanitária. No momento, o porto está operando, mas se for fechado ou danificado durante os combates, isso terá um grande impacto nas operações humanitárias e nos preços de produtos vitais, como alimentos e combustíveis".

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