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Iêmen: MSF discute situação humanitária no país durante conferência em Amã

11/08/2015
Organização pediu às partes em conflito que diminuam o nível de sofrimento dos civis

Foto: Guillaume Binet/MYOP

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) realizou a conferência “Situação humanitária e de saúde no Iêmen” em Amã, na Jordânia, no dia 10 de agosto, para discutir a atual crise humanitária no Iêmen com a imprensa internacional. Abaixo, a declaração do Dra. Ghazali Babiker, coordenadora-geral de MSF no Iêmen, que abriu o encontro:

“Queridos colegas e convidados, obrigada por se juntarem a nós hoje para discutirmos a atual crise humanitária no Iêmen. Nós organizamos essa conferência para compartilhar nossas crescentes preocupações com nossos pacientes e suas famílias no Iêmen, e com todos aqueles que não conseguem ter acesso a um médico ou enfermeiro, ou a uma estrutura de saúde em funcionamento, no momento em que mais precisam.

Os últimos meses têm sido marcados por um agravamento contínuo da situação dos civis no Iêmen. O início de uma campanha de bombardeio aéreo internacional em março de 2015 é o último estágio da transição política falha que está em curso desde que o ex-presidente Saleh deixou o cargo há mais de três anos. O resultado é que a população do Iêmen está sofrendo diariamente por causa da violência em andamento, temendo por suas vidas e por aqueles que amam, assim como lutando para achar alimentos e água suficientes para sobreviver. Isso também significa uma deterioração contínua da capacidade de qualquer pessoa, de gestantes a combatentes feridos, de obter cuidados de saúde. Algumas instalações de saúde e profissionais médicos têm sido diretamente afetados ou até estado sob a mira de ataques. Muitas, senão a maioria, das clínicas de saúde foram fechadas porque faltam suprimentos médicos para que funcionem efetivamente, ou porque o pessoal médico fugiu. As estruturas de saúde que ainda estão operando estão funcionando a baixa capacidade, na medida em que há pouco combustível. Com a escassez de combustíveis e opções de transporte, as instalações de saúde que ainda estão funcionando são de difícil acesso para aqueles que precisam de cuidados.

A falta de suprimentos médicos e a disponibilidade escassa de combustíveis e alimentos são efeitos secundários tangíveis do bloqueio de armas imposto pela coligação no início do conflito. Em abril, o Conselho de Segurança da ONU reforçou a legitimidade desse embargo de armas, o que, na prática, puniu os civis e causou sofrimento direto dentro do Iêmen. Mesmo que o objetivo do embargo seja outro, as consequências da diminuição de importações em geral chegando aos portos e aeroportos iemenitas têm impactado de forma negativa a população, que já está enfraquecida há décadas pela pobreza e desnutrição crônica. Hoje, nós fazemos um apelo a todos aqueles em posição de facilitar a chegada de itens humanitários, como alimentos, combustível e suprimentos médicos, a fazê-lo rapidamente.

Mas essas restrições externas impostas aos iemenitas não são os únicos obstáculos enfrentados por aqueles que necessitam urgentemente de assistência médica: em um Iêmen cada vez mais dividido, atormentado por confrontos ativos e mudanças de linhas de frente, as pessoas enfrentam cada vez mais o dilema de postergar a visita a instalações de saúde para evitar a entrada em zonas de perigo ou ter de passar por pontos de controle pelos quais emergências médicas frequentemente não são permitidas.

A assistência humanitária deve ser oferecida às pessoas em maior necessidade, e facilitada pelas partes em conflito, de acordo com o direito internacional humanitário. No Iêmen, a oferta de assistência humanitária neutra e independente está sendo obstruída por processos complicados, tentativas de uso da influência onde a assistência é prestada e bloqueio e apreensão de suprimentos humanitários. As partes do conflito no Iêmen buscam controlar os poucos recursos humanitários disponíveis nas regiões que dominam, mas deveriam entender que a prestação de assistência humanitária não influenciará de modo algum o resultado do conflito nem a opinião das pessoas sobre quem é responsável por seu sofrimento ou pelos preços absurdos de itens básicos.

Enquanto isso, a resposta de emergência internacional a essa crise humanitária tem sido abaixo do necessário e está limitada em seus escopo e impacto. O Iêmen está em uma fase extrema e complexa do conflito, demandando profissionais humanitários com experiência em conflitos e crises e líderes qualificados para negociar e oferecer assistência a comunidades vulneráveis além das linhas de frente de batalhas e preferências partidárias. Nós precisamos reconhecer os riscos que os agentes de saúde estão correndo no Iêmen. O dever humanitário é grande, e algumas organizações provaram que atuar dentro do país, em grande escala, com pessoal internacional experiente, é possível.

Um problema frequente tem sido o desinteresse de doadores financeiros internacionais diante dos apelos emergenciais feitos por organizações humanitárias. Atualmente, a maioria dessas organizações são obrigadas a usar recursos de uma das únicas fontes disponíveis – uma fundação de caridade saudita – para realizar atividades humanitárias neutras e imparciais no Iêmen. Um financiamento como este pode ser visto como suspeito por grupos de oposição armados em campo, e qualquer agência de ajuda afeita a uma parte do conflito pode perder sua aceitação local e afetar a percepção de neutralidade de outros atores envolvidos com ela.

Considerando-se todo o sistema de ajuda internacional, é preciso fazer mais pelo Iêmen imediatamente. A mobilização de agências humanitárias com experiência em conflitos e crises, os mecanismos de financiamento rápido e o reenvio urgente de profissionais especialistas para ficarem permanentemente no Iêmen são fundamentais para recuperar qualquer aspecto de uma resposta de emergência eficaz.

Mas agentes de saúde e assistência humanitária também podem servir como um pequeno band-aid em uma época de sangramento intenso. Toda a boa vontade da assistência neutra não terá êxito se as partes em conflito não fizerem sua parte no sentido de facilitar esses esforços, afastando-se de seu possível objetivo de se apropriar da assistência para suprir seus próprios objetivos políticos e militares. Por último, as partes do conflito devem encontrar formas de minimizar o sofrimento imposto aos civis iemenitas ao evitar o direcionamento de ataques a bairros densamente povoados e a infraestruturas civis, como hospitais e estações de tratamento de água; permitindo que suprimentos urgentemente necessários cheguem àqueles mais necessitados; e envolvendo-se em qualquer iniciativa que busque diminuir os níveis de violência em campo. Tréguas ou acordos de cessar-fogo mais abrangentes devem ser incentivados para facilitar o acesso de comunidades que vivem em temor constante a suprimentos básicos e cuidados médicos.

A população do Iêmen demanda um esforço maior da parte de profissionais humanitários e mais respeito às suas necessidades por parte dos envolvidos nos confrontos. Espera-se que suas necessidades urgentes sejam ouvidas por aqueles que podem ter um impacto benéfico sobre sua luta diária por sobrevivência.

Obrigada pelo seu tempo e atenção.”

 

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