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Iêmen: médica de MSF fala sobre o trabalho em Saada

26/02/2016
“Nós lidamos com tantos incidentes envolvendo um número massivo de vítimas que nossos profissionais já sabem exatamente o que fazer”

Foto: Guillaume Binet/MYOP

A Dra. Mariela Carrara, médica emergencista da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), fala sobre seu trabalho na província de Saada, no norte do Iêmen, e compartilha algumas histórias marcantes das consequências da crise iemenita.

“Quando cheguei a Saada em maio, a cidade estava sendo atingida por ataques aéreos todos os dias. Nós estávamos vivendo no porão do hospital por causa dos bombardeios, que estavam muito próximos. A cada explosão, você podia sentir as portas e janelas balançando. Dois meses depois, a cidade havia sido quase completamente destruída e estava vazia.

Hoje, a maioria dos ataques aéreos está acontecendo a 20 quilômetros de distância ou mais, em direção à fronteira com a Arábia Saudita. Nossa equipe não vive mais no porão, mas fica em uma casa próximo dali. As pessoas retornaram à cidade e estão vivendo nos prédios que ainda estão de pé. Algumas lojas estão abertas, e você pode comprar frutas e roupas no mercado.

Mas fora da cidade, nas regiões onde muitas pessoas deslocadas estão estabelecidas, as condições são muito precárias. As pessoas estão vivendo em pequenas tendas e têm problemas de acesso à água e cuidados de saúde. Dez dias atrás, nós distribuímos itens de primeira necessidade a alguns dos deslocados.

O hospital mudou muito desde que eu estive aqui. Por causa das necessidades médicas urgentes das pessoas, o número de leitos aumentou de 30 para 94, e a UTI ampliou seus leitos de sete para 16. Como médica emergencista especializada em medicina interna, eu passo a maior parte do meu tempo na sala de emergência e na internação.

A maioria dos nossos pacientes – mais de 90% - são feridos de guerra, com ferimentos resultantes de ataques aéreos. No dia 21 de janeiro, um ataque aéreo em Dhayan, a 22 quilômetros a noroeste daqui, causou várias mortes e ferimentos. Quando a operação de resgate teve início e as ambulâncias chegaram, eles bombardearam uma segunda vez, matando mais sete pessoas. Um dos nossos motoristas de ambulância morreu, assim como quatro ou cinco pacientes feridos que ele estava transportando em seu veículo.

Nós recebemos nossos primeiros pacientes às 15 horas, trazidos por pessoas em carros privados. Eles disseram que havia mais feridos pelo caminho. Esses cinco ou seis pacientes estavam em estado grave, e alguns precisaram de ressuscitação imediata.

Nós ativamos imediatamente nosso plano para o influxo massivo de vítimas – trazendo profissionais e suprimentos médicos extra, montando tendas fora do hospital para triagem e para pacientes em condições mais estáveis, relocando pacientes da enfermaria para liberar mais leitos, e abrindo nosso terceiro centro cirúrgico.

Na hora em que o próximo grupo de feridos chegou, minutos depois, tudo estava no lugar. Foi um ótimo trabalho em equipe. Nós lidamos com tantos incidentes envolvendo um número massivo de vítimas que nossos profissionais já sabem exatamente o que fazer.

Muitos dos pacientes precisaram ser levados ao centro cirúrgico assim que chegaram. Nós temos quatro cirurgiões – dois gerais e dois ortopédicos – e eles são fantásticos. Mas era muito trabalho. Às 19 horas daquela noite, nós havíamos recebido 41 feridos.

O motorista da ambulância que foi morto havia trabalhado no hospital por um longo período e todos o conheciam. Quando soubemos do ataque aéreo a Dhayan, ele foi o primeiro a entrar em sua ambulância para resgatar essas pessoas. Assim ele era – um homem muito gentil e comprometido, sempre ajudando as pessoas. Todos ficaram tristes com sua morte.

Após os ataques contra o hospital Haydan em outubro, e contra o hospital Shiara em janeiro, o número de pacientes diminuiu, na medida em que as pessoas ficaram com medo, já que os hospitais estavam sendo atingidos. Mas após algumas semanas, os pacientes começaram a voltar. Assim como os feridos de guerra, estamos observando mais pessoas com doenças crônicas, mais partos na maternidade, e mais mulheres vindo para receber cuidados de pré-natal e serviços de planejamento familiar – então, nós aumentamos o número de obstetrizes.

Mesmo que as condições aqui não estejam fáceis, e o trabalho possa ser desafiador, estou feliz de trabalhar aqui. As pessoas no Iêmen são extremamente agradáveis, e muito gratas pela ajuda que estamos oferecendo. Em troca, estamos tentando fazer o melhor que podemos por elas.”

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