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Iêmen: as lembranças da volta de Aden

13/08/2015
Coordenador de projeto de MSF conta sobre episódios de tensão e violência vividos na cidade iemenita

Foto: Benoit Finck/MSF

Coordenador do projeto da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Aden, de meados de maio até o início de agosto, Thierry Goffeau, fala sobre a violência que alcançou níveis extremos durante sua estadia na capital da região sul do Iêmen.

No fim de julho, combatentes da resistência do sul, apoiados pela coligação internacional liderada pela Arábia Saudita, retomaram o controle de Aden. Qual foi o resultado?

A situação em Aden melhorou um pouco desde que as forças da coligação retomaram a zona portuária, que havia sido ocupada por rebeldes houthi, em meados de julho. Os barcos puderam atracar e entregar itens de ajuda humanitária – especificamente alimentos, além de combustível e escavadeiras. Graças a esse equipamento e aos suprimentos, a limpeza de algumas ruas pôde começar. A estrada costeira, que vai do aeroporto ao bairro de Crater, foi liberada, e os tanques, removidos. A coligação agora controla o aeroporto, que está sendo reabilitado. Agora, a população está respirando um pouco, mas a cidade está destruída.

Vai levar um tempo até que tudo seja restaurado, o que também dependerá das mudanças em campo. Dito isso, a situação hoje é completamente diferente do que nós vimos de maio ou junho até meados de julho. Foi uma época de insegurança permanente, dia e noite. Houve confrontos todos os dias durante minha estadia de dois meses e meio no projeto. A cidade estava cercada por forças do norte – rebeldes houthi, aliados à Guarda Republicana do ex-presidente Saleh – enquanto as forças da resistência do sul estavam concentradas em distritos do norte e do noroeste. Tiroteios e bombardeios aconteciam todos os dias, às vezes perto do nosso hospital, que ficava a 400 metros da linha de frente de batalha.

Por conta dessa falta de segurança extrema, era muito difícil e perigoso se locomover pela região. O acesso era muito limitado, e quando havia algum, era somente a produtos alimentícios básicos. A população teve de lidar com a escassez de farinha, gasolina, gás natural e água. Os hospitais não podiam mais aceitar nenhum paciente e muitos dos profissionais de saúde qualificados fugiram da cidade.  

As mudanças são visíveis agora?

Sim, os confrontos e os bombardeios cessaram na maior parte da cidade. Mas os rebeldes houthi ainda estão escondidos em edifícios na zona sul da cidade. E nós estamos levando os pacientes feridos ao centro de trauma no distrito de Crater e ao hospital no distrito de Sheikh Othman. A linha de frente continua se deslocando para o norte, junto às forças da resistência do sul, que começaram a ir em direção à cidade de Lahj.

Ainda existem pontos de controle, e a cidade ainda está perigosa por causa dos tiros de atiradores e balas perdidas. Todo mundo está armado. Uma pessoa atira porque está feliz ou para sua própria diversão e outra atira porque não está feliz. Como consequência, ainda estamos tratando pacientes com ferimentos à bala. Você pode encher uma mão com projéteis de balas perdidas todos os dias no complexo hospitalar onde trabalhamos no distrito de Sheikh Othman. Na semana passada, uma bala entrou pela janela do meu escritório. Alguns dias depois, uma outra atravessou a parede do quarto de um dos nossos cirurgiões.

Confrontos entre forças da resistência do sul e milícias houthi levaram a um grande número de vítimas. Vocês trataram muitas delas?

No dia 19 de julho, nós tratamos 206 pacientes feridos em poucas horas no hospital do distrito de Sheikh Othman. Os primeiros pacientes chegaram aproximadamente às 9h30. Eles foram atingidos por estilhaços. Eles me contaram que eram do distrito de Dar Saad, que foi bombardeado pelos houthis. Esse ataque foi direcionado a um bairro pobre, da classe trabalhadora, onde as pessoas vivem amontoadas umas sobre as outras. Foi sem qualquer interesse estratégico. Nesse dia, nós tratamos um número inacreditável de pacientes. E isso durou o dia todo, até às 15h30. Havia mulheres, crianças, idosos – basicamente, civis. Tivemos de recusar a entrada de mais pessoas. Carros e picapes trouxeram os feridos ao hospital porque havia muito poucas ambulâncias restantes em Aden. Em dado momento, eu subi em um caminhão que levava 15 corpos. Alguns estavam mortos. Mas havia pessoas ainda vivas no meio daqueles corpos. Foi muito tenso porque eu só podia levar os feridos para serem tratados.

Vários dias depois, forças da resistência do sul lançaram um ataque ao norte de Aden. No dia 25, nós tratamos 167 pessoas feridas e 111 no dia seguinte. Eram todos combatentes.

E a calma foi reinstaurada no hospital?

No geral, sim, mas nós enfrentamos o problema recorrente de homens armados querendo entrar no hospital quando trazem gente ferida. Eles estão muito agitados quando chegam, dirigindo picapes carregando metralhadoras ou canhões – seus veículos são uma espécie de cruzamento entre uma coisa de Mad Max e um Hummer. Nós pedimos para eles irem embora o mais rápido possível. Normalmente, não são permitidas armas nos hospitais onde MSF trabalha. Mas aqui, nós temos de administrar e assimilar um nível extremo de violência – seja no portão de entrada ou na rua, na entrada do edifício ou na área de triagem de pacientes. Uma multidão de pessoas se reúne – combatentes da resistência do sul, visitantes, cuidadores, pacientes de cuidados pós-operatórios e quem não pode ser tratado – quando há um influxo de pessoas feridas. E elas são bem ameaçadoras.

Os profissionais estão exaustos. O nível de violência só aumentou desde maio. Mas as equipes cirúrgicas fizeram um trabalho incrível. As duas salas de operação ficavam ocupadas 24 horas por dia. A equipe de emergência foi brilhante. Graças a toda a equipe de MSF, esse projeto teve um impacto muito significativo. Eles salvaram muitas, muitas vidas, e continuam fazendo isso.

Nós também estamos trabalhando no centro de trauma no distrito de Crater, região controlada por rebeldes houthi até meados de julho. Nós trabalhamos para manter a neutralidade dessa instalação, tratando civis, combatentes houthis e da resistência do sul. Do mesmo modo, no hospital de Sheikh Othman, nós tivemos feridos houthis e da resistência do sul lado a lado. Nós asseguramos que os combatentes da resistência do sul não tocassem nos feridos houthis, que foram reconhecidos como prisioneiros de guerra.

As condições de vida estão melhorando para a população de Aden?

Ainda há cortes de água. Mas isso está melhorando agora que as bombas podem operar. Não tivemos nenhuma eletricidade ao longo dos últimos dois meses. Os geradores do hospital tiveram de funcionar 24 horas por dia e um deles quebrou. Ao longo dos últimos três meses, nós passamos vários dias sem água – sem uma única gota de água. Nós só tínhamos água o suficiente para esterilizar os instrumentos. As pessoas estavam pegando água de poços antigos da cidade, que foram sendo reutilizados, mas ela era muito salgada e de má qualidade.

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