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Iêmen: “Há comida no mercado, mas não dinheiro para pagar por ela”

03/01/2018
Residente do distrito de Mawia fala sobre as dificuldades de locomoção e acesso a cuidados médicos no país
Iêmen: “Há comida no mercado, mas não dinheiro para pagar por ela”

Foto: Florian Seriex/MSF

Fatima está sentada na cama ao lado de Ishaq, seu filho de 18 meses, com as pernas dobradas sob o próprio queixo. Eles chegaram há um dia ao centro de tratamento de cólera (CTC) mantido por MSF na província de Ibb, após uma jornada de quatro horas saindo de Shokan, vilarejo localizado no distrito de Mawia, província de Taiz.

“Ele começou a se sentir mal há três dias”, diz ela, gesticulando e olhando para Ishaq, “mas no início tínhamos esperanças de que ele iria melhorar, então esperamos”. Depois de dois dias, os vômitos e a diarreia do menino persistiam, então os pais pediram um empréstimo de 9.800 riais iemenitas (o equivalente a 129 reais) a um vizinho a fim de cobrir os custos de transporte até uma farmácia particular que fica próximo ao seu vilarejo. “Deram uma injeção em meu filho e voltamos para casa”. Na manhã seguinte, sem nenhum sinal de melhora na condição de saúde de Ishaq, um vizinho aconselhou que Fatima o levasse à cidade onde havia ouvido que Médicos Sem Fronteiras (MSF) estava oferecendo cuidados médicos gratuitos para casos relacionados à cólera. “Não viemos no primeiro dia porque não tínhamos dinheiro para pagar pela viagem. Já havíamos pedido dinheiro emprestado de um vizinho para ir até a farmácia, então ninguém mais queria nos emprestar dinheiro. Mas meu marido conseguiu convencê-los”. 

Para chegar ao CTC, o marido de Fatima precisou de um empréstimo adicional de 30 mil riais (cerca de 395 reais). “Pagamos 20 mil riais pelo carro particular e mais 10 mil pelo combustível, devido à escassez”. Ela espera que seu filho seja dispensado logo, porque todos os dias o preço da gasolina aumenta, assim como as dívidas que ela terá de pagar para viajar de volta até sua casa.

Em seu trabalho diário, o marido de Fatima ganhava 1.500 riais por dia. Porém, ele não consegue mais encontrar trabalho para todos os dias. “Devido à guerra, as pessoas não têm dinheiro e não dão nenhum trabalho a ele”. Para pagar parte do dinheiro emprestado, Fatima considera vender as duas cabras da família, que poderiam custar aproximadamente 13 mil riais (cerca de 171 reais).

“Por causa da guerra, não podemos sequer comprar alimentos mais. Há comida nos mercados, mas não dinheiro para pagar por ela”. De acordo com ela, um saco de trigo de 10 quilos custava 4 mil riais (52,6 reais) – e agora seu preço é de 9 mil (118 reais).

Além da cólera, Ishaq já sofre de desnutrição aguda moderada – condição que não necessariamente requer sua hospitalização, mas que faz com que ele precise receber suplementos alimentares a cada duas semanas durante alguns meses. Após ter alta no CTC, Ishaq será registrado no programa nutricional do departamento ambulatorial do hospital, onde receberá tratamento por 14 dias. Porém, devido aos altos custos de transporte, é improvável que seus pais consigam trazê-lo e, sem acompanhamento adequado, sua condição de saúde vai se deteriorar.
 

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