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Iêmen: a garota que não pudemos salvar

10/03/2017
Cirurgiã de MSF fala sobre triste consequência de um parto inseguro
Iêmen: a garota que não pudemos salvar

Foto: Saoussen Ben Cheikh/MSF

Hella Hultin é uma cirurgiã sueca. Ela está, atualmente, em um projeto de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Khameer, no Iêmen. Aqui, ela relata o trágico incidente de uma família iemenita.

“Hoje, vi algo que gostaria muito de esquecer. Uma criança pequena morreu porque seus pais não sabiam sobre os riscos de infecção.

Pela manhã, o vigia noturno me falou sobre uma menina de apenas dois dias de idade que havia chegado à sala de emergência. Ela estava com febre e uma infecção no cordão umbilical. Quando fazia minha ronda, eu a vi.
Aquela imagem nunca será apagada da minha memória: a menina era pequena, ardia em febre e respirava ofegante; estava deitada de costas e com os olhos fechados.

A pele de sua região abdominal estava avermelhada, escura e rígida, do peito até as coxas. O cordão umbilical havia sido cortado muito próximo da pele, e ficou inchado e esverdeado, do tamanho de uma moeda.

Se estivéssemos em um local com mais recursos, talvez pudéssemos salvá-la. Ainda assim, não há como ter certeza. Ela precisava de cuidados intensivos avançados, com suporte respiratório e aparelhos de monitoramento das funções vitais de alta tecnologia. E, o mais importante de tudo: ela precisava de uma cirurgia que removesse todo o tecido infectado. E isso, não a podíamos oferecer.

Somente para sedá-la já colocaríamos sua vida em risco; porém, sem a cirurgia ela também morreria. Era uma escolha impossível.

Com aperto no coração, eu e meu colega anestesista concordamos em aliviar seu sofrimento e oferecer os melhores cuidados enquanto esperávamos. Informamos nossa decisão ao pai, que nos contou, então, que o parto havia sido feito em casa.

O cordão umbilical havia sido cortado com um punhal tradicional, conhecido como jambian, que todos os homens carregam no norte do Iêmen. Ele fizera isso no nascimento de seus dois filhos mais velhos, que não tiveram problemas. Desta vez, o bebê contraiu uma infecção grave, que rapidamente levou a uma intoxicação sanguínea e a uma situação extremamente desesperadora.

Esse tipo de situação só pode ser evitado por meio de conhecimento e treinamento.  

Temos um hospital que oferece cuidados gratuitos. É simples, mas é limpo, e centenas de crianças nascem ali todo ano. Se a mulher tiver qualquer complicação durante o parto, há um médico, como eu, que pode fazer uma cesárea.

Porém, se as pessoas não vêm até nós por desconhecerem essas vantagens, não importa que os nossos recursos sejam bons.  

Ela morreu às duas horas."