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Iêmen: falta oxigênio em enclave sitiado em Taiz

08/01/2016
Enfermeira de MSF detalha visita a enclave e se surpreende com a escassa atividade médica

Foto: MSF

Nora Echaibi é enfermeira da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF). Ela atua no Iêmen desde abril de 2015 nas localidades de Aden, Sana’a, Qataba, Ad-Dhale e, agora, Taiz. Abaixo, seu depoimento sobre a visita à cidade sitiada.

“Desde setembro passado, nós, de MSF, temos tentado, sem sucesso, entrar no enclave na cidade de Taiz para dar suporte a oferta de cuidados médicos. A região está, atualmente, sob um cerco imposto pelo grupo Ansarallah (houthi). No dia 3 de janeiro, fizemos nossa primeira tentativa de 2016, e sem levarmos suprimentos conosco pela primeira vez.

As frentes de batalha mudaram de lugar, o que significa que agora temos de percorrer uma estrada diferente e muito mais longa. Fomos parados duas vezes, mas obtivemos permissão para chegar até o mercado Bir Basher. Ali, paramos o carro para nos prepararmos para cruzar o ponto de controle final a pé rumo ao enclave, única forma permitida.

Com tantas pessoas cruzando, foi o caos. Vimos um caminhão do Programa Mundial de Alimentos (PMA) detido, que tentava levar alimentos. Um grupo de mulheres tentou se juntar a nossa equipe, na esperança de que isso pudesse acelerar o processo que estava demorando diversas horas, por vezes até dias, para algumas pessoas. Famílias são separadas nesse ponto de controle, inclusive as de alguns de nossos profissionais. As mulheres foram paradas. Tínhamos acertado com um miniônibus para que fosse nos buscar, o que todas as outras pessoas também tinham feito. Eram dezenas de miniônibus. Então, ouvimos tiros muito próximo dali, talvez para o alto, talvez não. A equipe entrou no primeiro miniônibus que encontrou e saiu rapidamente.

Longe dali, as estradas eram tranquilas, embora houvesse marcas da guerra nos prédios. A maioria deles estavam danificados, muitos colapsaram, principalmente nos locais que foram frentes de batalha. Ainda assim, entre os prédios, víamos pessoas do lado de fora socializando, comprando nos mercados. Se por um lado essas pessoas já esperam bombardeios diários, seus esforços para continuar sua rotina normal trouxeram alguma tranquilidade à atmosfera.

O impacto do cerco é evidente: os preços dos produtos no mercado dispararam, na medida em que há áreas por onde estiveram as frentes de batalha que estão claramente pouco povoadas. Não há eletricidade, com exceção daqueles que têm a sorte de contar com geradores e, ainda mais raro é o combustível necessário para seu funcionamento. Mas todos estavam tão felizes ao nos verem tentando entrar para prestar assistência que não nos deixavam pagar por nada.

Chegamos ao hospital de Al Tawrah. A última vez que eu tinha estado no local foi em  setembro, e, comparativamente, a falta de pacientes foi alarmante. As atividades médicas foram reduzidas drasticamente. Os suprimentos médicos são limitados, principalmente a anestesia, e há pouco combustível para gerador. Eles dispõem de muito pouco oxigênio, o que é grave, embora uma instituição de caridade iemenita localizada em Aden tenha acabado de conseguir 30 cilindros. O hospital pode, agora, reabrir parte de sua unidade de cuidados intensivos, ao menos por algum tempo.

Deparamo-nos com o mesmo cenário em outros hospitais: Al Rawdah, Al Jamhouri  Yemeny, Al Modaffar, e Ta’aown. E nossos armazéns na região fora do enclave estão cheios. Foi doloroso testemunhar grandes hospitais como Al Jamhouri, o qual estou acostumada a ver em plena atividade, tão estático. No departamento da maternidade, vi uma só mulher e três pequenos bebês recém-nascidos. Uma das crianças era dependente de oxigênio, mas a máquina a qual ele estava conectado não tinha o cilindro de oxigênio acoplado. Não havia nenhum disponível. É muito frustrante: a dois quilômetros da frente de batalha, MSF opera um hospital materno-infantil completamente funcional, mas que está fora do alcance das pessoas daqui.

Quando caiu a noite, ficamos em um apartamento de um especialista em cirurgia. Do lado de fora do enclave, estou habituada a escutar dispositivos explosivos sendo disparados por toda a noite. Aqui, estou do outro lado, e escuto a chegada dessas explosivos. Uma nova experiência. Por duas vezes, senti o solo tremer violentamente em consequência das bombas que caíram perto dali. 

Na manhã seguinte, os bombardeios continuaram, mas acordei foi com o som de um avião sobrevoando o local. Do lado de fora do enclave, isso é motivo de alarme, na medida em que não se sabe qual será o alvo. Mas, do lado de dentro, as pessoas sabem que o alvo não é aqui, e, por isso, sentem-se mais seguras. Naquela manhã, por duas horas, o avião sobrevoou o local e nós seguimos com nossas visitas aos hospitais. A sensação foi um tanto estranha.

Dali, retornamos ao ponto de controle para sair do enclave. Algumas pessoas estavam cruzando no sentido contrário levando sacos de farinha em carrinhos de mão. Elas nos disseram que cruzar o ponto de controle naquele dia estava relativamente tranquilo. Para nós, foi ainda mais fácil; é bem mais simples sair do enclave do que entrar nele.”

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