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Iêmen: crimes de guerra e escassez grave do essencial

31/07/2015
Por Dr. Mégo Terzian, presidente de MSF na França

Foto: Sebastiano Tomada/Getty Reportage

Desde que o conflito eclodiu no fim de março no Iêmen entre rebeldes houthi e forças da coligação liderada pela Arábia Saudita, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) prestou assistência médica a quase 7 mil feridos de guerra.

Equipes de MSF trabalhando no país testemunharam mulheres grávidas e crianças morrendo após chegarem tarde demais a centros de saúde por conta da escassez de petróleo ou porque tiveram de esperar durante dias por uma breve trégua no conflito. Pessoas que precisavam de tratamento médico emergencial também morreram após serem mantidas em barricadas vigiadas por combatentes nas estradas.

MSF também ofereceu cuidados a vítimas de bombardeios perpetrados pela coligação – no fim de março, quando o campo de deslocados internos de El-Mazraa na província de Hajjah foi bombardeado, ferindo ao menos 34 pessoas, 29 das quais já chegaram mortas ao hospital; no fim de maio, quando um caminhão-tanque na cidade de Taiz foi atingido por bombas, deixando 184 pessoas com queimaduras graves; e, em 4 de julho, quando equipes trataram cerca de 70 vítimas em Beni-Hassan, no noroeste do Iêmen, após diversos ataques aéreos que tiveram como alvo um mercado movimentando no fim do mês do Ramadan.

Igualmente beligerante, os houthis bombardearam indiscriminadamente áreas residenciais densamente povoadas de Aden por semanas e, em 19 de julho, quando as forças de resistência do sul lutaram para recuperar o controle da cidade, também o fizeram em uma região densamente povoada. Em poucas horas, 150 vítimas – mulheres, crianças e idosos – chegaram ao hospital de MSF. Quarenta e dois chegaram mortos e diversas dúzias de corpos tiveram de continuar do lado de fora porque não havia mais espaço no hospital.

No país, a população está sofrendo com uma grave escassez de alimentos e medicamentos, e a gasolina tornou-se muito rara, ameaçando a sobrevivência dos mais vulneráveis. Com a falta de combustível para o funcionamento de geradores e estações de bombeamento, alguns hospitais não estão mais aptos a funcionarem e a obtenção de água limpa é cada vez mais problemática. Para conseguir gasolina, as pessoas ficam em filas por horas, ou até dias, com a esperança de poder fugir da zona de combate ou transportar uma vítima ou alguém doente ao hospital mais próximo. A estação de malária começou e casos suspeitos de febre hemorrágica estão aumentando. Embora MSF tenha conseguido as autorizações necessárias para levar mais de 100 toneladas de medicamentos e suprimentos médicos ao país, instalações do Ministério da Saúde e clínicas privadas não conseguiram, e não estão recebendo nenhum tipo de suprimento. Em Aden, o preço da farinha aumentou 70% em algumas regiões e a carne é praticamente inexistente. Dados coletados por MSF em Khamir e Saada mostraram que 15% das crianças estão subnutridas.

Crimes de guerra e a grave escassez de itens essenciais resultam na população sendo submetida ao dobro de sofrimento, causado não só por diferentes partes do conflito, mas também pela Resolução 2216 (2015) adotada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas em abril. Proposta pela Jordânia e apoiada ativamente pelos Estados Unidos, Grã-Bretanha e França, o objetivo da Resolução – Capítulo VII da Carta – era pôr um fim à violência no Iêmen, impondo, entre outras coisas, um embargo de armas sobre os houthis. A coligação militar foi, então, presentada com a oportunidade de bombardear toda a infraestrutura do país, como estradas, aeroportos, portos e postos de gasolina, que poderiam garantir uma vantagem militar aos rebeldes, e impor restrições às rotas aéreas e marítimas que, rapidamente, resultaram no isolamento de todo o país do resto do mundo. É óbvio que a Resolução escolheu o alvo errado na medida em que, longe de “pôr um fim à violência”, só impulsionou o apetite beligerante de diversas partes do conflito e prejudicou a população. A exceção de poucos comboios, a Organização das Nações Unidas, que manifesta sua enorme preocupação com a situação humanitária sempre que tem oportunidade, não estruturou uma rede de suprimentos para facilitar o transporte de itens de primeira necessidade, como medicamentos, alimentos e combustível.

Em face do que estamos testemunhando em Aden, tememos que as ofensivas lideradas pela coligação, na busca pela recuperação de territórios dos houthis, inflijam, a curto prazo, ainda mais violência sobre os civis encurralados pelas partes envolvidas no conflito e os exponham a retaliações armadas. Além disso, também tememos que aqueles países que apoiam a coligação em sua empreitada de “liberar” o Iêmen – custe o que custar – vejam essa violência como um efeito colateral aceitável. Um efeito colateral que pode ser a menor das preocupações dos governos, como vimos, nos últimos meses, durante nossas tentativas de reunir diplomatas em Paris, Genebra e Washington, por causa da necessidade de pressionar as partes beligerantes para que poupem a vida dos civis.

Ainda há tempo para os Estados responsáveis pelo custo humano do conflito fazerem tudo o que está ao seu alcance para reduzi-lo, sancionando os crimes de guerra como tal, cometidos por diversas partes, e restaurando urgentemente o acesso da população a serviços essenciais.

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