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Iêmen: ataques indiscriminados contra civis e sem sinal de mudança

27/08/2019
Jaume Rado, coordenador-geral de MSF no Iêmen, fala sobre a oferta ainda insuficiente de ajuda humanitária no país
Iêmen: ataques indiscriminados contra civis e sem sinal de mudança

Foto: Al Hareth Al Maqaleh/MSF

Em 11 de agosto deste ano, a família Kaeed reuniu-se em um prédio civil em Mustaba, na província de Hajjah, no noroeste do Iêmen, para celebrar o Eid al-Adha. A família já havia fugido de sua cidade natal para buscar refúgio em Mustaba. Eles estavam sentados para o almoço quando um ataque aéreo atingiu diretamente seu prédio. O ataque matou pelo menos 10 membros da família e feriu 17. Todos chegaram ao hospital rural de Abs, apoiado por MSF: o maior influxo de civis feridos de guerra nesse hospital em um único dia desde o início do ano.

Quando falei com Mariam, a mãe de 25 anos de uma das crianças que morreu no ataque, me lembrei dos milhares de pacientes e suas famílias que foram afetados por esse conflito. Todos os dias que MSF trabalha no tratamento de pacientes é um dia vendo em primeira mão os impactos dessa guerra na população civil. Nossos pacientes não se atrevem mais a esperar que os combatentes respeitem as leis da guerra, ou que haja áreas seguras para aqueles que não fazem parte dos combates.

Era impossível, falando com Mariam, não pensar em três anos atrás, em agosto de 2016, quando meus colegas e seus pacientes foram vítimas de outro ataque aéreo. Esse ataque da coalizão liderada pelos sauditas atingiu o departamento de emergência do hospital rural de Abs, matando 19 pessoas, incluindo um profissional de MSF e cinco crianças. Foi o quinto e mais mortal ataque a uma instalação médica apoiada por MSF no Iêmen desde 2015.

Desde então, os ataques não cessaram. Em 11 de junho de 2018, um centro de tratamento de cólera de MSF recém-construído em Abs também foi atacado. Como resultado, tivemos que reconstruir o centro a partir do zero e as mais de 1,2 milhão de pessoas que dependem dos serviços do hospital de Abs ficaram sem tratamento quando um surto de cólera atingiu a população. A mera existência de doenças como a cólera e a difteria, que antes eram quase inexistentes no Iêmen, indica que o conflito afeta profundamente a saúde e o bem-estar da população iemenita.

Há um óbvio e imprudente desrespeito pelas vidas civis entre as partes do conflito no Iêmen. Está claro o desrespeito aberto ao direito internacional humanitário no uso de termos como "danos colaterais" e na negligência com que os ataques em locais civis são conduzidos. O número de deslocados é de 3,65 milhões e está crescendo, enquanto a capacidade da população para lidar com esse deslocamento está diminuindo. A resposta humanitária ao conflito é insuficiente e aqueles que trabalham para oferecer essa ajuda ficam expostos e desprotegidos. Sabendo de tudo isso, é impossível consolar uma mãe que perdeu um filho e nove outros membros de sua família, assim como era impossível confortar nossa equipe e seus pacientes há três anos. Não há respostas para eles.

Agora, há pedidos cada vez mais estridentes para mais financiamento para a resposta humanitária. E mais financiamento é necessário, mas não é suficiente. As agências humanitárias devem ser capazes de levar essa ajuda àqueles que precisam, sem risco para sua segurança, em vez de trabalhar em áreas cada vez mais distantes dos deslocados. Todo o dinheiro que os doadores podem fornecer não mudará a situação se o acesso humanitário continuar limitado. Esse financiamento, sem uma mudança real proveniente das partes do conflito, não acabará com o derramamento de sangue, não compensará as milhares de vidas iemenitas perdidas e não fornecerá as respostas e as soluções de que nossos pacientes precisam tão desesperadamente.

Três anos após o bombardeio do hospital de Abs, ainda há apenas um pedido simples a ser feito a todas as partes envolvidas no conflito: respeitar o direito internacional humanitário, proteger os civis. Para aqueles que podem responsabilizar os combatentes: não aceitem justificativas como “erros” ou “danos colaterais”. Para a comunidade humanitária internacional: é hora de fazer e dizer mais. A história julgará todos nós, como os iemenitas já estão fazendo.

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