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Hospitais em Bagdá em situação caótica após onda de saques no Iraque

17/04/2003
Coordenador de Operações de MSF para o Iraque, Ewald Stals diz, em Bruxelas, que a escassez de água e energia e a falta de organização são os principais problemas enfrentados pelos hospitais na capital iraquiana.

Você estava em contato regular com a sua equipe médica no Iraque. Quais são as necessidades mais emergentes nos hospitais de Bagdá?

No momento nós vemos dois principais problemas: a falta de eletricidade e água, e a falta de gerenciamento e organização nos hospitais.

Na questão da água e eletricidade, acredita que isso pode trazer sérias consequências?

Principalmente no caso da eletricidade. No momento, eles estão fazendo os hospitais funcionarem com geradores. Se houver uma interrupção no fornecimento de combustível para esses geradores, se a eletricidade cair durante uma cirurgia, isto será muito perigoso para o paciente. Além do fornecimento de sangue. Você terá que jogar fora se a energia for interrompida.

Isso porque sem eletricidade não se pode guardar o sangue?

Exatamente, e o mesmo vale para medicamentos e anestésicos. Os anestésicos precisam ser mantidos em refrigeradores. Então, uma interrupção no fornecimento de energia pode trazer sérias consequências.

Você mencionou a questão do gerenciamento hospitalar, mas hoje não há qualquer gerenciamento. Há apenas o caos.

Está muito caótico no momento. Alguns hospitais que nós visitamos estão vazios e não há nenhum funcionário. Em outros há muitos medicamentos, roubados de outros hospitais, mas não há a menor organização, com medicamentos espalhados em banheiros, em quartos de pacientes e em muitos outros lugares. Além disso, nós encontramos funcionários que não sabem para onde ir, a quem se dirigir, como se organizar. No momento, todos se movem, mais ou menos, entre os diferentes hospitais para ver onde eles podem fazer algum trabalho, quem comanda os hospitais, quem é o diretor, que grupo ou milícia está no controle e se é um lugar seguro para trabalhar...

Os equipamentos médicos foram roubados?

Nós descobrimos que alguns hospitais estão vazios e outros cheios. Medicamentos roubados de alguns hospitais foram levados para outros onde havia pouca ou nenhuma organização. Existe um perigo real desses medicamentos desaparecerem ou de não serem utilizados.

É seu trabalho organizar isso tudo? E você pode contar com algumas pessoas para ajudá-lo?

Mais e mais nós estamos começando a ver um número cada vez maior de hospitais controlados por milícias vizinhas, pessoas influentes na comunidade, personalidades religiosas que possam oferecer um certo nível de segurança.

E isto funciona bem?

Até um certo ponto funciona bem. Tem havido incidentes causados pela tensão entre grupos que disputam o controle dos hospitais, e que algumas vezes terminam em troca de tiros. Mas em outras partes da cidade funciona bem. O perigo é de que os mais vulneráveis e os mais pobres não tenham acesso aos hospitais por não estarem filiados aos grupos que estejam no controle.

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