Você está aqui

Honduras: saúde mental para vítimas da violência

26/01/2017
A população da região sofre com a insegurança contínua; em 2016, MSF atendeu mais que o dobro de vítimas da violência em relação ao ano anterior

Foto: Fernando Reyes/MSF

Durante o ano de 2016, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) ampliou suas atividades em Tegucigalpa, capital de Honduras, e na cidade vizinha, Comayagüela, para facilitar o acesso a cuidados de saúde mental para as vítimas das chamadas Outras Situações de Violência (OSV, na sigla em espanhol), que inclui vítimas de sequestros, extorsões, assaltos, ameaças à vida e outros atos violentos de alto impacto.

Paciente durante atividade psicossocial conduzida por MSF (Foto: Fernando Reyes / MSF)“Estamos falando de pessoas que sofreram diretamente com esses atos violentos”, afirma Edgard Boquín, supervisor de atividades de saúde mental de MSF em Tegucigalpa, “mas falamos, também, dos familiares das vítimas e das pessoas que presenciaram assassinatos ou outros atos de violência, que frequentemente se veem forçados a abandonar seus lares e a se esconder”.

Em 2015, equipes de MSF ofereceram assistência de saúde mental a 158 pacientes afetados pelas situações de violência citadas; esse número, porém, chegou a 340 em 2016, o que significa um aumento de 117% em relação ao ano anterior. Dada a proporção da violência em Honduras, as equipes estimam que há muitas pessoas precisando de ajuda. “Sabemos que essa é só a ponta do iceberg”, diz Edgard.

As consequências da violência

Em Honduras, a violência cotidiana faz com que, em diversas ocasiões, as pessoas não entendam as consequências geradas por ela, ou que não reconheçam o impacto que isso pode ter em suas vidas tanto a curto como a longo prazo.

As reações das pessoas variam, mas boa parte delas sente dificuldade para seguir com suas vidas normais. “Esses eventos podem ser muito traumáticos e podem romper a estrutura de funcionamento normal das pessoas”, diz Edgard. “Há sintomas que se apresentam muito rapidamente e que são muito evidentes, como o estresse agudo, que se expressa por meio de sensações de ansiedade em relação ao ocorrido. Também há pessoas que têm sérias dificuldades em seus padrões de sono, como insônia, pesadelos, lembranças recorrentes, imagens que enxergam durante o dia e que fazem com que as pessoas revivam o que lhes aconteceu”.

Os profissionais de MSF oferecem assistência para tentar evitar que esses sintomas se transformem em algo mais sério. “Se as pessoas não recebem atendimento a tempo, podem desenvolver quadros depressivos graves, ansiedade aguda ou episódios de estresse pós-traumático, que exigem assistência médica e psiquiátrica”, diz Juan Carlos Arteaga, representante de saúde mental de MSF para o México e para Honduras.

As equipes de saúde mental de MSF conduzem sessões individuais e em grupo, além de manterem seminários e atividades psicossociais para os pacientes. A maioria dos pacientes assistem de uma a oito sessões no total.

“O nosso objetivo é trabalhar as emoções, as sensações e os pensamentos vivenciados pelas pessoas à luz de suas respectivas experiências”, explica Edgard. “Temos uma base muito forte de terapia cognitivo-comportamental, na qual os pacientes olham para todos os elementos prejudiciais em sua vida e começam a substituí-los por ferramentas positivas de adaptação, como melhora e controle de ansiedade, técnicas de relaxamento, respiração e elaboração de pequenos planos de vida para se adaptar novamente ao ambiente.”

Redes de apoio são essenciais

As equipes também oferecem informações sobre outros tipos de atendimento disponíveis aos pacientes, como abrigos, relocação para outras partes do país, proteção social e assessoria jurídica.

A experiência de MSF mostra que quanto mais apoio externo uma pessoa tiver para canalizar uma situação dolorosa, maior será sua projeção de recuperação no futuro. “Os pacientes podem sair da clínica esclarecidos sobre o que podem fazer ou sobre como podem trabalhar para melhorar sua saúde mental, mas se todos os dias eles enfrentarem situações de ameaça e não tiverem alternativa, sua recuperação será muito mais complicada”, explica Edgard. “Ajudar os pacientes a identificar sua rede de apoio externo, que os permita atender suas questões de saúde ou outras necessidades imediatas, é algo que tem tido ótimos resultados no caminho rumo à recuperação”.

Desde 2011, Médicos Sem Fronteiras (MSF) oferece o “Serviço Prioritário” em colaboração ao Ministério da Saúde de Honduras para prestar assistência médica e psicológica de emergência às vítimas da violência, entre elas as que sofreram violência sexual. Esse serviço gratuito, confidencial e de consulta única está disponível em dois centros médicos e no principal hospital de Tegucigalpa.