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HIV/Aids em áreas de mineração na República Democrática do Congo

10/01/2020
A área de mineração de Misisi é o lar de muitos exploradores, trabalhadoras do sexo e pessoas que vivem com HIV
HIV/Aids em áreas de mineração na República Democrática do Congo

Foto: Nathalie San Gil

Na zona de saúde de Kimbi-Lulenge, Misisi parece uma cidade antiga, com um ambiente seco e quente, onde as casas são feitas de madeira. A cidade abriga pedreiras de mineração de ouro, onde muitos homens da República Democrática do Congo (RDC) e de países vizinhos se reúnem. A população total, incluindo migrantes e menores, é de cerca de 154 mil pessoas.

Como muitos homens se mudam para Misisi, deixando suas esposas e filhos para trás durante meses, às vezes anos, a demanda por trabalho sexual é alta. Enquanto as relações sexuais custam em média entre 2 mil e 3 mil francos congoleses (entre 1 e 2 dólares americanos, o equivalente a 4 a 8 reais), alguns homens estão dispostos a pagar até 10 dólares americanos (cerca de 40 reais) por sexo desprotegido.

Segundo o UNAIDS, entre 310 mil e 470 mil pessoas vivem com HIV na RDC, de uma população total de cerca de 92 milhões. Dada a falta de dados confiáveis em algumas províncias, principalmente devido ao grande número de deslocados internos, o número é provavelmente muito alto no Kivu do Sul, especialmente nas áreas de mineração, devido à ampla presença de mineiros, profissionais do sexo, comerciantes e migrantes.

A província enfrenta um problema real de acesso aos serviços de saúde. As pessoas que querem fazer o teste de HIV, às vezes, andam por longas horas antes de chegar a um dos centros de saúde, alguns dos quais não são apoiados por MSF e, portanto, podem não oferecer exames gratuitos.

Combater o estigma

No centro de saúde de Misisi, um grupo de pessoas que vive com HIV/Aids está lutando contra o estigma. Jeancy é educador comunitário de saúde de MSF. Ele também pertence a um grupo de apoio ao HIV, chamado Comitê Social para Promoção da Saúde. Hoje, Jeancy se encontra com Fabiola, Esperance, David, Marta e Louise. Ao contrário da maioria das pessoas com a doença, os membros do grupo de apoio não se escondem. Aparecem publicamente, concordam em tirar uma foto e falam abertamente sobre HIV, a fim de aumentar a conscientização na comunidade. Eles esperam atrair mais pessoas para sua causa, na esperança de acabar com o estigma do HIV um dia.

Os 35 membros ativos do grupo de apoio garantem que as pessoas sigam seu tratamento corretamente e organizam visitas domiciliares para ajudá-las. O grupo de apoio também garante que todas recebam itens alimentares.
"Algumas pessoas nem sempre conseguem comer adequadamente. Às vezes, perdem uma consulta médica porque precisam buscar comida. Se não comparecerem à triagem de saúde, não receberão seus medicamentos", explica Louise. "Para superar isso, adquirimos um campo que nos permite cultivar para ajudar as pessoas com HIV/Aids a produzirem seus próprios alimentos e se alimentarem".

Atualmente, o grupo acompanha 558 pessoas em Misisi, registradas no programa de HIV do centro de saúde. Dess, uma maioria significativa é mulher. MSF mantém um programa de acompanhamento, garantindo que o atendimento médico e psicológico e a distribuição de medicamentos sejam gratuitos.

Em busca do tesouro

Segundo os membros do grupo de apoio, a alta taxa de HIV na região se deve a vários fatores: "Estamos em Misisi, em uma área de mineração onde muitas pessoas, principalmente homens, estão procurando ouro e estão sozinhos, longe de suas famílias. Alguns usam os serviços de profissionais do sexo; outros têm duas mulheres, às vezes mais, uma aqui em Misisi e a outra na casa de origem. Além disso, o uso de preservativo não é generalizado”, explica Fabiola.

Em Misisi, a maioria das profissionais do sexo raramente visita o centro de saúde. "É difícil manter contato com elas e acompanhá-las, porque elas se mudam constantemente para diferentes áreas de mineração em busca de clientes. Algumas estão sob a autoridade das chamadas “mulheres responsáveis”, que administram bairros que incluem instituições relacionadas ao sexo, chamadas sedes. É com elas que realizamos reuniões de sensibilização", explica o supervisor e o ponto focal do serviço de gestão de casos de violência sexual no centro de saúde de Misisi, Jamaa Letu.
Além disso, não é incomum que os preservativos rasguem ou sejam usados incorretamente. Assim, apesar da triagem regular, o status de HIV dessas mulheres pode mudar de um dia para outro, dados os fatores de risco associados ao seu trabalho.

Marta, membro do Comitê Social de Promoção da Saúde, também destaca a falta de educação e informação. "Muitas pessoas não conhecem seu status de HIV. Algumas pessoas têm muito medo e, quando pensam que têm, não vão a uma unidade de saúde por medo de serem estigmatizadas”, diz ela.

No projeto Kimbi, as equipes de MSF estão trabalhando nas zonas de saúde de Kimbi-Lulenge e Kamambare, nas províncias do Kivu e Maniema, no sul. O projeto concentra esforços no apoio a serviços de saúde primária e comunitária. Entre janeiro e outubro de 2019, 12.083 pessoas foram testadas para o HIV, com 348 diagnósticos positivos. No geral, a prevalência do HIV em instalações apoiadas por MSF está entre 6 e 8%. No início de outubro de 2019, 1.618 pessoas com HIV estavam em terapia antirretroviral desde o início do programa.

 

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