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HIV: apesar do acesso ampliado a tratamento, muitas pessoas com Aids ainda morrem em hospitais africanos

27/11/2015
MSF alerta que para vencer a luta contra o HIV, é preciso que o tratamento esteja disponível e que seja de qualidade

Foto: Isabel Corthier

Novo estudo da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) mostrou que o tratamento de 50% das pessoas com Aids internadas no hospital Homa Bay, no Quênia, não está sendo bem-sucedido. Em uma época em que cada vez mais pessoas deveriam iniciar o tratamento antirretroviral (Tarv), o estudo constata que é preciso mais suporte durante o tratamento vitalício. E isso inclui aconselhamento apropriado, detecção precoce das falhas do tratamento e melhores cuidados hospitalares.

Profissional de MSF leva amostras sanguíneas para laboratório do departamento de HIV de hospital em Uganda (Foto: Isabel Corthier)Entre 690 pessoas (a partir de 13 anos) admitidas no hospital Homa Bay, no oeste do Quênia, entre dezembro de 2014 e março de 2015, o estudo constatou que a Aids é responsável por mais de um terço das admissões e 55% das mortes. Pessoas cujo tratamento não estava sendo bem-sucedido representam metade desses casos, apresentando também novas infecções oportunistas apesar de terem iniciado o Tarv.

MSF apresentará esses resultados na Conferência Internacional de Aids e DSTs na África (Icasa, na sigla em inglês), que acontecerá no Zimbábue, de 29 de novembro a 4 de dezembro.

O estudo, voltado para a população internada em um hospital de referência durante um dado período de tempo, é condizente com a experiência de MSF em outros hospitais na África subsaariana. Taxas significativas de pessoas com Aids foram encontradas em enfermarias, apesar de terem sido diagnosticadas e terem começado o Tarv em algum momento de suas vidas.

“No início do envolvimento de MSF com o tratamento de HIV/Aids nos anos 90, as equipes em hospitais de países em desenvolvimento enfrentaram um número significativo de pessoas que vivem com HIV clinicamente doentes, principalmente porque elas eram diagnosticadas e tratadas tarde demais”, lembra Aline Niyibizi, principal pesquisadora do estudo. “Hoje, as pessoas continuam a morrer de Aids nos hospitais africanos. Enquanto algumas pessoas nunca foram diagnosticadas ou tratadas, o que estamos encontrando agora é uma parte significativa das pessoas cujos problemas em seguir o Tarv passaram despercebidos.”

Diversas medidas podem prevenir as pessoas de chegarem a um estágio crítico de tratamento malsucedido. Isso inclui aconselhamento apropriado, desde o momento em que a pessoa é diagnosticada com HIV aos demais momentos de seu tratamento vitalício; e acesso a monitoramento rotineiro da carga viral – a ferramenta mais eficaz para detectar brechas no tratamento. Os tratamentos também poderiam ser mais fáceis de serem seguidos, por meio do desenvolvimento de mais cuidados descentralizados para HIV nas unidades de saúde rurais.

Em Ndhiwa, subcondado de Homa Bay, MSF e as autoridades locais estão colocando essas medidas em prática, com objetivo de controlar a epidemia e reduzir o número de doenças e mortes associadas a ela. Um estudo em 2017 avaliará os resultados deste programa.

“A enorme ampliação no acesso ao Tarv deve vir acompanhada de um maior apoio às pessoas, melhor detecção precoce de falhas no tratamento, e uma maior atenção hospitalar àqueles vivendo com HIV que precisam dela. Atualmente, essas pessoas estão sendo deixados para trás. A capacidade de diagnóstico e de atendimento clínico em contextos africanos muitas vezes não conseguem responder a casos de Aids”, explica William Hennequin, representante de MSF no Quênia. “Em um momento em que as novas recomendações da OMS aumentam drasticamente o número de pessoas elegíveis para iniciarem o Tarv, a capacidade de seguir e acompanhar essas pessoas durante todo o curso do seu tratamento – incluindo em nível hospitalar - é um passo decisivo.”

Em 2002, Homa Bay foi o primeiro local no Quênia onde os medicamentos antirretrovirais (ARVs) foram disponibilizados gratuitamente em instalações de saúde públicas. Hoje, apesar do progresso consistente, a província continua a ser um lugar com alta incidência de HIV, com um em cada quatro adultos ainda HIV positivo. Além disso, um estudo conduzido em 2012 por MSF e pelo Epicentre, o centro de pesquisa epidemiológica de MSF, mostrou que duas em cada 100 pessoas eram infectadas pelo HIV todo ano no subcondado de Ndhiwa.

Desde junho de 2014, MSF e autoridades de saúde locais administram um programa-piloto em Ndhiwa, visando conter a epidemia de HIV e reduzir a morbidade e a mortalidade relacionadas com o HIV/Aids. O programa concentra esforços no reforço da prevenção do HIV, detecção, tratamento e cuidados em todos os níveis, desde as comunidades até o hospital de referência do município de Homa Bay.

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