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Haiti não está preparado para enfrentar a volta do cólera

12/05/2012
O acesso à água potável e a medidas de saneamentos é muito baixo, e as estruturas médicas do país já sofrem com falta de medicamentos

O número de casos de cólera está aumentando rapidamente no Haiti após o início da estação das chuvas. No entanto, segundo a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), o país ainda não está preparado para combater essa doença fatal.

O Ministério de Saúde e População do Haiti diz que a situação está sob controle, mas instalações de saúde de diversas regiões do país ainda não estão conseguindo responder de maneira adequada às variações sazonais da epidemia de cólera. O sistema de vigilância, que, supostamente, é capaz de monitorar a situação e soar o alarme, ainda não está funcionando adequadamente. O número de pacientes tratados por MSF só na capital do país, Porto-Príncipe, quadruplicou em menos de um mês, e chegou a 1,6 mil em abril. A organização aumentou a capacidade de tratamento na cidade e em Léogâne, e está se preparando para abrir novos locais de tratamento em diferentes regiões do país. Cerca de 200 mil casos de cólera foram registrados na estação de chuvas – entre maio e outubro – do ano passado.

“Muito pouco foi feito em termos de prevenção, e por isso o cólera voltou em 2012”, disse Gaëtan Drossart, coordenador de projeto de MSF no Haiti. “É preocupante que as autoridades de saúde não estejam mais preparadas, e que ainda enviem mensagens afirmando que está tudo bem quando isso está muito longe de ser verdade. O governo, as Nações Unidas e diversas organizações de ajuda humanitária estão fazendo muitas reuniões, mas poucas soluções concretas estão surgindo”, ele diz.   

Um estudo de MSF realizado na região de Artibonite, onde 20% de todos os casos de cólera foram registrados, mostrou uma redução clara nas medidas de prevenção de cólera desde 2011. Mais da metade das organizações presentes na região no ano passado já saíram de lá. Além disso, os centros de saúde já estão sofrendo com a escassez de medicamentos, e alguns profissionais não recebem seus salários desde janeiro.  

“A chuva é apenas um dos fatores de risco de contaminação. Mas assim que a chuva acaba, os financiamentos são interrompidos até a próxima estação de chuvas, em vez de serem aplicados na prevenção da doença. A consequência é que as pessoas ainda estão muito vulneráveis quando o cólera retorna”, disse Maya Allan, epidemiologista de MSF.

A maioria dos haitianos não tem acesso a latrinas, e o acesso à água potável é um desafio diário. Dos cerca de 500 mil sobreviventes do terremoto de janeiro de 2010 que continuam vivendo em acampamentos, menos de um terço tem acesso à água limpa e apenas 1% recebe sabonetes, de acordo com uma investigação da Diretoria Nacional de Água e Saneamento do Haiti, realizada em abril de 2012.

“Dar conselhos de higiene não é suficiente, ainda mais se as pessoas não puderem por em prática o que aprenderam”, disse Drossart. “As pessoas precisam urgentemente de recursos para se prevenir do cólera.”

A vacina contra o cólera está sendo utilizada em grande parte do Haiti. Mas apesar de ajudar a controlar a doença, ela não é uma solução infalível. A vacina garante a imunização das pessoas por aproximadamente três anos, e estima-se que ela só seja 70% eficaz. Apenas grandes melhorias no sistema de água e saneamento poderão dar soluções permanentes para a epidemia, mas isso vai levar muito tempo.  

“Atualmente, a prioridade agora é salvar vidas. Todas as organizações de saúde presentes no Haiti precisam trabalhar para isso imediatamente”, conclui Drossart.

Desde que a epidemia de cólera surgiu no Haiti, em outubro de 2012, 535 mil pessoas foram contaminadas e mais de sete mil pessoas morreram, de acordo com o Ministério da Saúde e População. Até o momento, MSF tratou mais de 170 mil pessoas em todo o país, cerca de um terço de todos os casos registrados no Haiti.