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Haiti: condições deploráveis para tratamento da cólera

12/03/2013
Diante da escassez de recursos, medidas preventivas não estão sendo adotadas e taxa de mortalidade relacionada à doença aumentou

De acordo com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), a falta de recursos e suprimentos degringolou os programas de tratamento de cólera no Haiti, causando mortes desnecessárias e aumentando o risco de surtos ainda maiores em meio à estação chuvosa, que está próxima.

Durante avaliações recentes das instalações públicas de saúde em quatro departamentos haitianos - Artibonite, Nippes, Sudeste e Norte – MSF considerou que a qualidade do tratamento para a cólera piorou significativamente no último ano devido à escassez de recursos.
 
“Alguns dos profissionais do centro de tratamento de cólera não são pagos há meses”, conta o Dr. Mamady Traoré, coordenador médico adjunto de MSF que participou da avaliação realizada em Artibonite, em dezembro de 2012. “Tanto infraestrutura quanto equipamentos estão desgastados porque não foram mantidos corretamente e há escassez constante de suprimentos médicos. Como resultado, as medidas de precaução relacionadas à higiene, que são essenciais para limitar a proliferação da doença, não são mais adotadas. Algumas vezes, os pacientes não recebem tratamento ou têm de pagar para consegui-lo. Isso é intolerável.”
 
A mortalidade relacionada à cólera aumentou desde o final de 2012 no Departamento de Norte, no Haiti. “A taxa de mortalidade supera os 4% em alguns centros de tratamento, o que equivale a quatro vezes o índice aceitável”, disse Joan Arnan, que foi responsável pela avaliação. “Isso revela a deficiência no tratamento. A cólera não é uma doença de tratamento difícil, desde que o mesmo seja realizado adequadamente. Mas, algumas vezes, há apenas dois enfermeiros para cuidar de 50 pacientes, quantidade bem inferior à ideal para garantir cuidados de qualidade.”
 
Em dezembro de 2012, as Nações Unidas fizeram um apelo para arrecadar US$2,2 bilhões para viabilizar um plano do Ministério de Saúde Pública e População (MSPP) do Haiti que erradicaria a cólera até 2022. O plano ainda precisa ser financiado e muitos pacientes com cólera estão, atualmente, sem tratamento adequado.
 
“A cólera, atualmente, parece ser considerada uma questão relacionada ao desenvolvimento, para ser resolvida nos próximos dez anos, enquanto a situação atual ainda pede uma resposta médica de emergência”, afirma Duncan McLean, coordenador de programa de MSF em Nova York. “Os recursos necessários para tal resposta estão cada vez mais escassos.”
 
O estado deplorável dos centros de tratamento sugere que o pior ainda está por vir, com a iminência da estação chuvosa. Em 2011 e 2012, as chuvas causaram epidemias localizadas repentinas, com picos entre maio e novembro. MSF respondeu aos surtos de acordo com sua disponibilidade de recursos.
 
“A prevenção, por meio da melhora das condições de água, saneamento e higiene, além de campanhas de vacinação, é, obviamente, a solução de longo prazo. No entanto, ainda são necessários recursos suficientes para tratar pacientes e prevenir mortes”, explica Oliver Schulz, coordenador geral de MSF no Haiti. “Hoje, a prioridade deve ser fortalecer os centros de tratamento e os sistemas de alerta e respostas rápidas. O governo haitiano e os financiadores internacionais precisam garantir que os espaços para tratamento existentes estejam equipados e tenham profissionais qualificados antes das chuvas. Ou seja, o mais rápido possível.”
 
Desde que o surto de cólera foi identificado no final de outubro de 2010, MSF tratou cerca de 200 mil pacientes a um custo de aproximadamente US$60 milhões e com um índice de mortalidade abaixo de 1%. Durante 2011, MSF foi, gradualmente, repassando a responsabilidade sobre os centros de tratamento localizados além da região afetada pelo terremoto de janeiro de 2012 às autoridades de saúde haitianas, após treinar a equipe nacional e doar suprimentos e equipamentos. MSF continua oferecendo tratamento para a cólera em Porto Príncipe e Leogane. Em 2012, a organização tratou 23 mil pacientes.