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Guiné-Bissau: tratando a pequena Aua

22/12/2017
Pediatra de MSF fala sobre principais riscos de saúde em bebês prematuros
Guiné-Bissau: tratando a pequena Aua

Foto: MSF

Mårten é um pediatra da Suécia que atualmente trabalha para Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Guiné-Bissau. A seguir, ele fala sobre os esforços realizados pela equipe em torno de uma pequena bebê que nasceu cedo demais.

A pequena Baldé, depois nomeada Aua, nasceu cedo demais. Quanto tempo antes do previsto nós não sabemos, porque sua mãe, Fatumata, não havia feito exames durante a gravidez e nenhum ultrassom havia sido realizado, algo incomum para os recém-nascidos que vemos em nosso departamento. Dada a maciez do cabelo, as solas lisas dos pés, as orelhas ainda sem cartilagem e o peso de apenas 980 gramas, estimamos que sua idade devia ser entre 28 e 32 semanas de gravidez – entre sete e 11 semanas antes do tempo.

Quando um bebê nasce tão cedo e tão pequeno, há um grande risco de mortalidade. Complicações resultantes de partos prematuros são a razão mais comum de mortes entre crianças com menos de 5 anos de idade. Os pulmões não estão totalmente desenvolvidos, sendo incapazes de realizar trocas essenciais de gases. O sistema nervoso ainda não está amadurecido, o que pode levar a uma parada respiratória espontânea. A pele é muito fina e as reservas de gordura são baixas, de modo que é difícil que o bebê mantenha uma temperatura corporal adequada. O fígado tem reservas de glicose muito limitadas e os níveis de glicose no sangue são instáveis, o que pode ser fatal. Nem o sistema imune está desenvolvido, então há também um alto risco de contrair infecções graves. Em Bafatá, diferentemente da Suécia, não há recursos tecnológicos como máquinas de oxigênio para ajudar o paciente a respirar. Muitos bebês prematuros morrem aqui devido a dificuldades respiratórias.

Aua, no entanto, sobreviveu a tudo que apareceu em seu caminho. Nós a ajudamos com oxigênio quando ela enfrentou dificuldade para respirar. Ela recebeu cafeína para reduzir as irregularidades respiratórias. Ela recebeu antibióticos para combater febre e um possível envenenamento no sangue, além de uma dose extra de glicose quando seu açúcar estava baixo. Ela ficou firmemente presa a pele da mãe em seu colo, o que permitiu que sua temperatura corporal fosse estabilizada. No início, ela não tinha os reflexos necessários para poder mamar, mas, com a ajuda de uma sonda estomacal ela absorvia o leite nutritivo da mãe e, dia após dia, grama após grama, ela foi crescendo e ficando mais forte.
Ela atingiu o peso mágico de 1.500 gramas após seis semanas lutando pela própria vida. Seu corpo tinha finalmente se adaptado à vida fora do útero, ao ponto de poder se alimentar por meio do seio da mãe e de ganhar peso. Então, ela foi para casa com sua mãe e o resto da família.

Quando Aua veio nos visitar um mês depois de voltar para casa, ela havia engordado 1 quilo e estava quase tão grande quanto um recém-nascido de tamanho normal. Vê-la assim foi um desses momentos em que percebemos que vale a pena ir trabalhar todos os dias.

 

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