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Guiné-Bissau: assistência a crianças em Bafatá

05/09/2017
Marten Larsson, pediatra de MSF, fala sobre experiência em projeto de saúde infantil de Bafatá
Guiné-Bissau: assistência a crianças em Bafatá

Foto: Ramón Pereiro/MSF

Quando cruzo a porta do avião e começo a descer as escadas, sinto o calor tropical me atingir como uma barreira. Não é muito diferente de entrar nas saunas de Gotemburgo, onde moro. Pergunto-me mais uma vez o que estou fazendo aqui. A resposta é que fui impulsionado por uma combinação de humanitarismo, sentido de aventura e uma sede de desafios profissionais, e agora estou começando minha primeira missão com Médicos Sem Fronteiras (MSF), em Guiné-Bissau.

Guiné-Bissau não é o país mais típico na atuação de MSF. O foco básico da organização é a resposta a emergências, como desastres naturais ou conflitos. Em Guiné-Bissau, um país do oeste da África com uma população de 1,8 milhão, não há conflito desde a guerra civil de 1998, que durou um ano. MSF esteve aqui de tempos em tempos por causa de surtos de cólera, que ocorrem devido ao acesso limitado à água potável. Há falta de alimentos nutritivos, oportunidades educacionais limitadas e carência de acesso a cuidados médicos. Isso afeta sobretudo as crianças: muita gente, já que 40% da população tem menos de 15 anos. Os números falam por si. De cada 1.000 crianças nascidas na Guiné-Bissau, cerca de 90 morrem antes de completar 5 anos. Na região de Bafatá, uma cidade 130 quilômetros a leste da capital, estima-se que a mortalidade infantil seja ainda maior. Essas estatísticas estão entre as piores do mundo. Diante disso, MSF decidiu iniciar em 2014 um projeto com foco em saúde infantil, começando em Bafatá e ampliando para a capital, Bissau.

O projeto em Bafatá apoia o hospital local e diversos centros de saúde na região, que tem uma população de aproximadamente 100 mil pessoas. Também trabalhamos nos vilarejos divulgando informações sobre cuidados de saúde, oferecendo aconselhamento e diagnosticando e tratando doenças como a malária. Eu fui contratado como pediatra do hospital, onde vou coordenar e treinar quatro médicos locais também contratados por MSF. Claro que eles têm muito mais experiência com as doenças mais recorrentes aqui do que eu, o que significa que no início os papéis estarão trocados e eu aprenderei com eles.
Depois de passar um dia na capital, eu sigo para Bafatá. A terra é plana e seca, mas fico surpreso ao ver como é verde, mesmo em plena estação seca. Ainda fico impressionado com tudo, mas vou vivendo um dia depois do outro, com a confiança de que em breve tudo vai parecer familiar.
 
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Deitado no leito do hospital, Mamadu, de 8 anos, levanta os olhos para mim. Parece um pouco assustado e eu o entendo. É a primeira vez que ele pode enxergar em duas semanas, desde que caiu de uma mangueira e veio parar aqui, em coma. Quando ele finalmente consegue abrir os olhos, se depara comigo, um homem branco estranho que o segura no colo e todos os dias tenta abrir seus olhos inchados. É compreensível que isso seja assustador.

Estamos no fim da estação seca e as mangas e castanhas estão maduras nos pés. Em Bafatá, as mangueiras estão por toda parte e nelas você vê garotos pequenos tentando alcançar as frutas com movimentos intrépidos. Aparentemente, a melhor maneira de colher as mangas é subir nas árvores e bater nos galhos com varas compridas. Algumas árvores estão cheias de meninos. É claramente um empreendimento arriscado e é fácil cair.

Quando Mamadu entrou na emergência, ele estava inconsciente, com inchaço na testa, e tinha sinais de fratura no crânio. Durante três dias, ele só se mexia em reação à dor. No quinto dia, conseguiu beber um pouco de leite.

Hoje, duas semanas depois da queda, seus olhos estão menos inchados e ele recuperou parte dos movimentos, de modo que pode abrir o olho direito sozinho. Ele não consegue, porém, abrir o olho esquerdo e observo que sua pupila está dilatada e inerte. Mamadu também não pode mexer o braço esquerdo. As duas coisas sugerem que houve danos cerebrais. Ele dá alguns passos, apoiado pela mãe. Deve passar por uma longa reabilitação, mas parece que vai conseguir andar de novo.

Mamadu não é a única criança nessa situação na enfermaria. Desde que comecei meu trabalho na clínica infantil de Bafatá, há um mês, tivemos quatro meninos e uma menina, com idades de 9 a 12 anos, que caíram de árvores, bateram a cabeça e perderam os sentidos. Os médicos e enfermeiras locais nos contam que é sempre assim quando as frutas estão maduras.

Não há equipamentos para medir a extensão dos danos internos, nem nenhuma possibilidade de cirurgia, se isso for necessário. O que podemos fazer é administrar fluidos intravenosos até que o paciente esteja bem o suficiente para beber sozinho e antibióticos para evitar infecções. Com cuidados e paciência, isso muitas vezes é o bastante. Todas as crianças agora podem ficar em pé sozinhas e três receberam alta sem maiores problemas.

Em breve, os primeiros pingos vão cair e o país vai entrar na estação chuvosa. Então, os ferimentos por queda vão diminuir. No entanto, com a chuva vêm a diarreia e a malária, e essas doenças vão de novo encher os leitos do departamento pediátrico.


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A pequena Baldé, depois chamada Aua, nasceu muito cedo. Não sabemos exatamente o quão cedo, porque sua mãe, Fatumata, não fez exames de pré-natal durante a gravidez nem nenhum ultrassom, o que não é raro nos recém-nascidos que examinamos em nosso departamento. Considerando a textura do seu cabelo, as solas lisas dos seus pés, suas orelhas sem cartilagem e um peso de 980 gramas (cerca de duas libras), estimamos sua idade em 28 a 32 semanas de gravidez – de sete a 11 semanas antes do prazo.

Quando um neném nasce tão cedo e tão pequeno, ele corre um sério risco de morrer. Complicações do nascimento prematuro são a razão mais frequente da morte de crianças de menos de 5 anos. Os pulmões ainda não se desenvolveram completamente e não conseguem manter o ritmo da respiração sozinhos. O sistema nervoso não está maduro, o que pode levar a paradas respiratórias espontâneas. A pele é fina e as reservas de gordura são pequenas, então é difícil para o bebê manter uma temperatura corporal adequada. O fígado tem reservas de açúcar muito limitadas e os níveis de açúcar no sangue são instáveis, o que pode ser uma ameaça à vida. Mesmo o sistema imunológico é pouco desenvolvido, de modo que há risco de infecções graves. Em Bafatá, diferentemente da Suécia, não há recursos tecnológicos como respiradores. Aqui, muitos bebês prematuros morrem de problemas respiratórios.

Aua, porém, sobreviveu a tudo que encontrou no caminho. Nós a ajudávamos com oxigênio quando tinha dificuldades para respirar. Ela recebeu cafeína para reduzir as irregularidades da respiração. Tomou antibióticos para lutar contra a febre e a intoxicação sanguínea e glicose extra quando o nível de açúcar em seu sangue baixava. Ela ficou embrulhada junto à pele da mãe, o que permitiu que a temperatura do seu corpo se estabilizasse. No começo, ela não tinha os reflexos para conseguir mamar no peito, mas com a ajuda de uma sonda no estômago absorveu o leite nutritivo da mãe e, dia a dia, grama a grama, ficou maior e mais forte. Aua atingiu o peso mágico de um quilo e meio depois de seis semanas de luta pela vida. Seu corpo finalmente havia começado a se adaptar à vida fora do útero, a ponto de conseguir mamar sozinha no peito e ganhar peso. Ela então foi para casa com a mãe e o resto da família.
Quando Aua veio nos visitar um mês depois de voltar para casa, tinha ganhado mais um quilo, e já estava quase tão grande como um recém-nascido completamente formado. Vê-la assim é uma das razões que fazem valer a pena ir trabalhar todos os dias.
 

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